“Sonic: O Filme” reduz personagem a bichinho de estimação que faz piadas

Apesar dos esforços de Jim Carrey, filme inspirado nos jogos da SEGA nunca se rende à fantasia

por Matheus Fiore

O filme que leva às telas de cinema o famoso ouriço azul da Sega é problemático desde seus primeiros pôsteres. Quando o primeiro trailer de “Sonic: O Filme” foi divulgado, a internet não perdoou; não faltaram críticas ao visual, que deixava de lado a aparência clássica do personagem dos videogames e apostava em algo um pouco mais “humanizado”, com olhos pequenos, pernas longas e dentição exageradamente humanoide. Eis então que veio a surpresa: Jeff Fowler, diretor do filme, decidiu, em conjunto com o estúdio, adiar o lançamento do projeto para refazer todo o seu visual

O filme agora finalmente está estreando e a sensação é que, no processo de reconstrução do personagem, houve um cerceamento artístico que fez com que “Sonic” não se tornasse nada além de a sombra de um bom filme. Nas mãos da Paramount, a produção tinha a missão de levar ao cinema uma tradicional franquia dos games, iniciada nos anos 90 com o Master System. Mesmo assim, a obra de Fowler descarta a gamificação do filme e utiliza a marca apenas como ponto de partida e chamariz mercadológico para apresentar uma aventura infanto-juvenil sobre um ouriço que precisa salvar o mundo da ameaça trazida pelo cientista e terrorista Robotinik (Jim Carrey).

O ator Jim Carrey no set

Levando em conta as recentes adaptações de games, o filme do Sonic está mais próximo de “Pokémon: Detetive Pikachu”. Tanto a produção de Fowler quanto a de Rob Letterman utilizam essas figuras consagradas apenas como pele para histórias bem mais simples – no caso de “Sonic”, a típica aventura de um herói que procura seu lugar no mundo, enquanto “Pikachu” traduz isso em uma trama de investigação com raízes no noir.

Quando me refiro a “Sonic” como “sombra de um bom filme”, é porque fica nítido que Fowler tem certo carinho pelo personagem e quer pôr na tela cenas que marcaram a série de jogos. O diretor mostra seu protagonista correndo, saltando e lutando com entusiasmo admirável e que, para além dos valores técnicos, entretém por realizar tudo de forma visualmente simples e despojada. O longa rejeita qualquer complexidade para que sua narrativa seja guiada por imagens simples, como um raio de luz percorrendo as ruas de São Francisco.

“Sonic” não consegue se tornar nada além da sombra de um bom filme que não existiu

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O que pesa negativamente, porém, é a total ausência de articulação dos personagens humanos – com exceção do surtado Robotinik de Carrey. O casal que ajuda Sonic, o Tom e Maddie vividos respectivamente por James Marsden e Tika Sumpter, são um problema por exemplo: talvez por inexperiência, o diretor não consegue convencer seus atores de que eles não estão sozinhos no set mas diante de uma ameaça física, e quando a dupla de humanos se vê diante de um arsenal militar pronto para eliminá-los eles sequer tentam apresentar uma expressão de medo ou apreensão.

Todo o esforço do filme reside na estética fantasiosa inerente ao protagonista e aos esforços extremamente caricaturais (no bom sentido) de Jim Carrey. Com isso, herói e vilão parecem personagens de um filme de cineastas como as Wachowski, especialistas em fazer o ridículo e o fantástico parecerem verossímeis, enquanto todos os demais personagens destoam. É uma narrativa de uma nota só, na qual tudo o que é real parece falso enquanto tudo o que é falso convence como real.

É uma narrativa de uma nota só, onde tudo que é real parece falso enquanto tudo que é falso convence como real

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Talvez o grande problema não seja apenas a dificuldade de Fowler de encontrar um equilíbrio entre os personagens reais e o caricatos. É claro também que o filme passou por revisões durante seu processo de montagem, com diversas cenas sendo cortadas abruptamente e utilizando cortes bastante secos. Porém, isso parece acontecer não por ineficiência dos montadores Debra Neil-Sicher e Stacey Schroeder, mas por uma demanda “superior”, uma necessidade de tornar “Sonic” a obra mais palatável possível para o grande público. O longa esvazia qualquer dramaticidade em prol de cenas que funcionem apenas como humor e, no caminho para isso, se torna uma obra opaca.

Muitos defenderiam uma obra do tipo com o argumento de que se trata de um filme para crianças. Ora, filmes infantis também podem ter alguma complexidade temática. A saga “Toy Story” está aí, há anos debatendo temas como abandono, família e empoderamento pessoal, sem que deixe de oferecer entretenimento de qualidade. No caso de “Sonic”, o que temos é apenas um filme bastante genérico, que ocasionalmente é salvo pelos surtos de Jim Carrey ou pelo humor de seu protagonista, mas que jamais tem a coragem de se entregar ao fantástico.

Em “Sonic: O Filme”, o fantástico e o irreal existem apenas para ser domesticados pelo mundo real. É uma obra que apresenta como vitória para um ser de outra dimensão, se tornar um bichinho de estimação. Ironicamente, o Sonic do filme encerra sua jornada fazendo o oposto do que o Sonic dos jogos de Master System, já que este último libertava um grupo de animais ao final de cada fase.

nota do crítico

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