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Afinal, pode ou não mudar as cores da bandeira antifascista?

Com crescimento do movimento nas redes socais, bandeira ganhou novas cores para representar diferentes grupos; historiadores explicam se a customização é válida

por Soraia Alves

O último fim de semana foi marcado pelo início de protestos brasileiros mais encorpados contra o fascismo. A ascensão de movimentos fascistas e neonazistas no país vem ganhando força há alguns anos, especialmente instigados pela extrema direita bolsonarista. Além do ato contra o Supremo Tribunal Federal realizado na madrugada de domingo (31) pelo grupo “Os 300 do Brasil”, liderado por Sara Winter e que replicou sem modéstia a estética da Ku Klux Klan, também houve no domingo a presença de símbolos neonazistas na manifestação realizada na Avenida Paulista a favor do presidente Jair Bolsonaro.

Estimulados pelos protestos de torcidas organizadas a favor da democracia e pela crescente das manifestações nos Estados Unidos contra o racismo, que chegaram a arrancar uma promessa de Donald Trump de classificar grupos antifascistas como organizações terroristas, muitos usuários de redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter aderiram aos avatares militantes, cujo símbolo mais usado é a bandeira antifascista, que originalmente apresenta as cores preto, vermelho e branco.

Empresas, marcas, páginas e muitos grupos profissionais aderiram à onda e, consequentemente, uma grande customização das bandeiras acabou acontecendo – além de muitos memes, é claro. Isso gerou algumas discussões sobre uma possível despolitização causada pelos avatares, o que na verdade causaria um efeito contrário ao idealizado. Então, afinal, pode ou não mudar as cores da bandeira antifascista?

Originalmente toda vermelha, a bandeira ganhou adaptações chegando ao modo como a conhecemos hoje. De acordo com Carlos Eduardo Lima, jornalista e doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense, os significados nasceram dentro de uma tradição europeia. Nesse contexto, o preto está ligado à defesa da liberdade de posicionamentos e pensamentos, o vermelho aparece representando os movimentos de luta de classes, e o branco pode variar entre a representação do Humanismo e da tradição cristã progressista.

Embora a customização das bandeiras possa causar uma aparente perda desses significados originais, especialmente quando essas adaptações estão ligadas ao capitalismo impregnado na representação de profissões, a pauta a ser debatida é maior que a deturpação de um movimento de uma bandeira, como ressalta Taís Temporim de Almeida, professora de educação básica, especialista em História, Cultura e Poder: “É inegável que a identificação visual é muito importante. Se houve essa alteração da bandeira original, tal qual sua colorização ou mudança de tons, significa que tem mais gente pensando igual e querendo opinar, querendo se posicionar e isso é importante”, diz Taís, que também é mestranda na Faculdade de Educação da UNICAMP.

O fascismo está presente em outros lugares além da Europa do século XX, como temos visto diariamente. Sendo assim, é totalmente válida a proliferação de bandeiras antifascistas aplicadas ao contexto complexo do século XXI: “É ótimo as pessoas adaptarem a mensagem às suas próprias realidades, seja ela pessoal, seja ela de classe colocando a sua profissão, ou até fazendo brincadeiras, mas ainda assim transmitindo a mensagem. A discussão de cor só atrapalha a disseminação da mensagem original, que é justamente a gente se posicionar contra o fascismo”, enfatiza Carlos Eduardo Lima.

Portanto, pode mudar as cores da bandeira antifascista sim.

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