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Protestos da equipe sobre morte de Eric Garner prejudicaram campanha de “Selma” no Oscar, diz David Oyelowo

Cinebiografia sobre as manifestações comandadas por Martin Luther King na época só conseguiu indicações a Melhor Filme e Canção Original na premiação

por Pedro Strazza

Na história recente do Oscar, uma das histórias mais esquisitas que surgiu no curso das últimas edições foi a passagem de “Selma: Uma Luta Pela Igualdade” pela premiação. Embora o longa tenha conquistado uma indicação ao prêmio de Melhor Filme, a produção comandada por Ava DuVernay não foi lembrada em nenhuma outra categoria além de Melhor Canção Original, de onde saiu vencedora com a faixa “Glory”.

O resultado obviamente gerou um mal estar já em 2015 e precedeu o “Oscars So White” que eclodiria na premiação no ano seguinte, mas desde então ninguém conseguia explicar o que teria levado o corpo de votantes a excluir o filme de outras categorias mesmo mantendo-o na briga pela principal estatueta da noite. Isso, pelo menos, até David Oyelowo verbalizar na noite desta quinta-feira (4) a causa para um cenário tão sem pé nem cabeça: repressão, e neste caso em torno dos protestos feitos pela equipe na época à morte de Eric Garner.

Responsável por viver o ativista Martin Luther King no filme, o ator fez a revelação durante uma sessão de perguntas e respostas online realizada pelo Screen Daily, onde aproveitou uma discussão sobre a polêmica atual do “BAFTA So White” para relembrar a trajetória de “Selma” nas premiações. O lançamento do longa coincidiu na época com o momento dos protestos sobre a morte de Garner, cidadão que foi assassinado em praça pública pela polícia de Nova York no momento de sua prisão, e todo o time criativo se manifestou na premiere contra a injustiça em torno do caso.

“Eu lembro que na estreia de ‘Selma’ a gente usava em protesto as camisas pretas com o ‘I Can’t Breathe'” relembrou o artista, fazendo referência a um dos slogans do movimento, tirado das últimas palavras de Garner antes de sua morte por estrangulamento; “Membros da Academia ligaram pro estúdio e para nossos produtores dizendo ‘Como eles ousam fazer isso? Por que eles estão mexendo nessa M-E-R-D-A?’ e ‘Nós não vamos votar naquele filme porque nós não achamos que eles estão certos de fazer aquilo'”. Oyelowo ainda acusou os votantes da premiação de usar “seu privilégio para barrar um filme por conta daquilo que eles valorizavam no mundo”.

Quem já confirmou a veracidade da história é DuVernay, que em seu perfil no Twitter retuitou a notícia com o comentário “História real”. Vale lembrar que assim como Oyelowo a diretora foi uma das prejudicadas na história, perdendo uma indicação histórica a categoria de direção – que nunca em sua trajetória nomeou uma cineasta negra.

Além do Oscar, Oyelowo também fez comentários bastante críticos ao BAFTA, especialmente pela premiação parecer buscar nos últimos anos ser a “versão inglesa” do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. O ator chegou a sugerir que a cerimônia acontecesse numa data mais distante do Oscar, comentando que a indústria audiovisual britânica “tem uma identidade muito específica” e que deveria ser mais independente em relação à estadunidense: “Isto é algo que nós deveríamos estar pensando neste momento: quem somos enquanto a indústria britânica, não apenas uma parada na trajetória do Oscar” afirmou o ator no evento.

Vale acrescentar ainda que a discussão sobre Hollywood e racismo anda quente no noticiário graças a um discurso recente feito pelo ator John Boyega durante manifestações contra a injustiça sobre a morte de George Floyd no Reino Unido. Na ocasião, o ator que foi um dos protagonistas da nova trilogia de “Star Wars” chegou a confessar um temor de perder a carreira na indústria devido a seu posicionamento na questão.

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