O CEO da Netflix realmente acredita que “Roma” ajudou “Parasita” a levar o Oscar

Ted Sarandos ainda comenta que "Okja" ajudou a tornar o público mais receptivo a produções coreanas, três anos antes da consagração de Bong Joon-ho

por Pedro Strazza

Pode parecer, mas daqui alguns dias já deve fazer seis meses que “Parasita” surpreendeu o mundo e levou para casa o tão cobiçado Oscar de Melhor Filme, tornando-se o primeiro filme falado em língua não-inglesa a vencer a principal estatueta da cerimônia. O feito histórico é e a culminação de uma longa jornada da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para abraçar a produção global da sétima arte – que em outras ocasiões chegou a nomear outros projetos “internacionais” ao prêmio principal, ainda fora os ingleses nunca tenha chegado às vias de fato.

Daí a pensar que alguns dos filmes neste processo tenham sido responsáveis diretos pelo sucesso do longa de Bong Joon-ho é um pulo e tanto, mas Ted Sarandos decidiu abraçar o conceito mesmo assim e tomar para si certa responsabilidade pela trajetória bem sucedida da produção na temporada de premiações do início do ano. Em uma longa entrevista à Variety, o diretor de conteúdo recém-promovido a co-CEO da Netflix disse que a companhia teve participação fundamental para o triunfo de “Parasita” – cuja distribuição nos EUA ficou a cargo da Neon – por conta da participação extensa de “Roma”, de Alfonso Cuarón, na temporada anterior.

“Eu acredito que ‘Roma’ tenha muito a ver com [a vitória de] ‘Parasita’ este ano.” afirma o executivo na matéria, que mencionou ainda a maior presença da produção mexicana no Oscar de 2019 em relação a passagem do atual campeão (que foi lembrado em “apenas” 6 categorias): “Eu acho que a ideia de que um filme estrangeiro tenha conseguido 10 indicações e vencido três, além de ultrapassar as categorias das premiações para filmes internacionais, realmente ajudou a abrir a porta para que ‘Parasita’ tenha sido tão bem sucedido como foi”. Sarandos ainda comenta que a Netflix também foi fundamental ao lançar o “Okja” do próprio Bong três anos antes, tornando o público mais “receptivo” a projetos de origem sul-coreana.

As declarações de Sarandos não são totalmente infundadas. Além de “Roma” ter marcado a primeira ocasião em que o serviço de streaming esteve presente na categoria de Melhor Filme, a Netflix também fez um investimento altíssimo na busca para que o projeto fosse coroado com a estatueta, gastando em torno de US$ 20 milhões só em publicidade e campanha – um que acabou sabotado pela má relação da empresa com o circuito exibidor e o conservadorismo de uma parcela dos votantes, que elegeu “Green Book” no fim.

Dizer que a Netflix teve sua parcela de importância na conquista de “Parasita” é um exagero também, porém, dado que não apenas o filme de Cuarón não é o único antecessor que se encaixa no padrão internacional como a própria Academia já havia reconhecido no páreo principal outro longa de origem asiática em 2000, com “O Tigre e o Dragão” de Ang Lee – que em outras duas ocasiões saiu com prêmios de direção na cerimônia. É também uma forma de diminuir o brilhantismo da campanha da Neon, que soube trabalhar a explosão de popularidade crescente da produção e direcioná-la para dentro do andamento da temporada, mantendo a candidatura do filme fortalecida até o momento da votação.

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