“Os 7 de Chicago” sabe qual história quer contar, mas não como contá-la

Segundo trabalho de Aaron Sorkin como diretor traz mesmos problemas de sua estreia no comando

por Matheus Fiore

A história dos sete de Chicago é um marco jurídico e social nos Estados Unidos. Os réus foram acusados pelo governo americano de conspirar e incitar rebelião durante protestos contra a Guerra do Vietnã, e o evento marcou um confronto que teve como personagens centrais todo o sistema jurídico americano, a força policial, os Panteras Negras e os hippies. Coube a Aaron Sorkin – roteirista vencedor do Oscar por seu trabalho no fantástico “A Rede Social” – capitanear o filme que leva ao cinema (ou ao streaming, no caso, mas ainda como cinema) essa história tão importante para os estadunidenses.

Sorkin é um grande roteirista. Não só por seu trabalho em “A Rede Social”, mas também por “Questão de Honra” e “Steve Jobs” – este primeiro que é outro filme de tribunal, aliás – o roteirista já provou ser capaz de construir boas bases textuais para que os diretores façam, com elas, grandes filmes. Mas como diretor, Sorkin assim como Charlie Kaufman ainda engatinha. Seu primeiro filme na cadeira de direção, “A Grande Jogada”, é bastante problemático, principalmente pela dificuldade de Sorkin de apresentar o olhar artístico tão necessário para que ele seja o que um diretor precisa ser: o regente de toda a obra. 

O diretor, afinal, é o artista cuja visão de mundo reflete no filme, e Sorkin, assim como Kaufman, ainda parece longe de ter o preparo para imprimir qualquer olhar para as histórias que conta. Seu novo filme, “Os 7 de Chicago”, é a prova disso. O filme se debruça sobre a clássica estrutura de trama de tribunal, acompanhando o julgamento e alternando as audiências do processo com flashbacks que reconstroem os acontecimentos prévios. Durante esse processo, Sorkin tenta analisar as tensões políticas e raciais e como elas norteiam não só as ideologias dos personagens, mas também o sistema jurídico.

Aaron Sorkin (à direita) orienta Jeremy Strong no set

“Os 7 de Chicago” busca sempre levar as discussões jurídicas ao limite para mostrar como, ao fim, não são as bases legais que servem de alicerce para a grande discussão. É algo muito mais simples e humano: questões como o racismo, por exemplo. É nesses momentos quando as estruturas políticas e sociais falham que Sorkin encontra as motivações por trás de seus personagens e estuda como os réus conseguem trazer para a frente do debate as questões que antes habitavam apenas o inconsciente de figuras como o juiz Julius Hoffman.

Esses momentos, porém, são muito isolados e um tanto quanto “lavados”. Sorkin, como já disse, é um roteirista fantástico, mas um diretor ainda mediano. Não há qualquer construção dramática em torno do filme, que parece saltar de discussão em discussão, de explicação para explicação, e acaba recorrendo sempre à verborragia e à literalidade dos diálogos para desenvolver esse estudo sociopolítico. Como resultado, “Os 7 de Chicago” não só não explora bem o potencial temático que ali existe, como também o sufoca. As discussões nunca saem da superfície justamente por existirem apenas na boca dos personagens, nunca na estética do filme.

O filme sempre leva discussões jurídicas ao limite para mostrar como estas não servem de alicerce para a grande discussão

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Há uma dificuldade imensa em transformar as ideias basilares do roteiro em algo minimamente cinematográfico, essencialmente imagético. O diretor parece ser daquele grupo de pessoas equivocadíssimas que acreditam que o roteiro seja a alma do filme – felizmente, não é. Por isso, o drama de “Os 7…” se resume às discussões de advogados, juízes e réus, mas jamais é transformado em forma. O longa não possui qualquer aspiração audiovisual. Na maior parte o tempo, falta qualquer olhar que faça com que o longa pareça algo além de uma série televisiva construída apenas por planos e contraplanos. 

Há aqui e ali bons momentos, porém. O que o filme escolhe mostrar e ocultar, por exemplo, é algo a se observar com atenção: um confronto entre os hippies e a polícia é tratado como o grande momento dramático do filme – mesmo que Sorkin não apresente nada muito além de um slow-motion para cenas de violência –, mas o assassinato de um membro dos Panteras Negras acontece totalmente fora do nosso campo de visão. Simplesmente não é filmado, e a escolha é fantástica porque reitera como a sociedade americana tende a olhar com menos atenção para os crimes raciais, mesmo que estes sejam mais severos. Entretanto, escolhas boas como essa acabam sendo sempre características isoladas, que não ajudam o filme a construir uma coesão dramática. São cenas que se apresentam como segmentos interessantes para comentarmos sobre a montagem, mas que não repercutem muito dentro da própria narrativa – não por acaso, o personagem responsável por personificar todo o movimento dos Panteras Negras simplesmente desaparece da trama em certo ponto.

Algumas boas escolhas acabam sendo características isoladas que não constroem uma coesão dramática

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Sorkin e sua câmera acabam sempre preocupados demais em filmar rostos, mas o diretor não consegue extrair muito deles. Afinal, ao estarem tão limitados a simplesmente seguir com as muitas falas e não apresentar qualquer humanidade ou complexidade, é difícil que os atores entreguem algo além de estereótipos pouco aproveitáveis para seus personagens.”Os 7 de Chicago”, então, é um filme que parece limpo demais. Parece não ter um diretor minimamente capaz de transformar em narrativa audiovisual suas boas ideias textuais. É um filme que, assim como “A Grande Jogada”, serve muito bem para dissertarmos por horas sobre como um bom roteiro nunca foi e nunca será o suficiente para se fazer um grande filme. 

Porque filmar um evento histórico tão importante quanto o julgamento de Chicago não basta, é preciso ter algo a dizer sobre ele. E não me refiro a um discurso ideológico, pois o filme possui um, mesmo que este esteja mastigado e truncado demais, e sim a uma voz estética. Um olhar capaz de nos comover, seja pela humanização dos personagens, pela dramatização do julgamento ou pelo estudo da corrupção das instituições. No fim, “Os 7 de Chicago” parece um filme genérico de tribunal, que tem como diferencial ter uma história melhor do que a maioria das outras. 

nota do crítico

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