Imagem: Nadja Klier © 2020 Paramount Pictures

A alma de “Sem Remorso” é um protagonista que funciona como dispositivo de gênero

Michael B. Jordan é alma e corpo de filme de Stefano Sollima

por Matheus Fiore

A última década foi bem interessante para os blockbusters de ação. Muitos filmes conseguiram ser bem sucedidos não por inovar, mas por serem extremamente competentes em tudo que se propõem e, mais do que isso, por resgatarem algumas tradições cinematográficas que vez ou outra parecem ter sido esquecidas. O último “Missão Impossível”, por exemplo, resgata com Tom Cruise uma fisicalidade de execução que remete diretamente a Buster Keaton, bem como o segundo filme da trilogia “John Wick” – que não por acaso traz em seu pôster mais famoso uma referência a Harold Lloyd e abre com uma cena do mesmo Keaton.

Entretanto, uma característica poucas vezes falada dessas grandes obras é a forma como seus protagonistas são usados enquanto dispositivos de gênero. São homens-máquina que personificam a ação, que a ativam. O John Wick de Keanu Reeves parece sempre uma besta aguardando o estímulo externo para ligar seu modo assassino – e há inclusive um filme construído inteiro em cima dessa ideia de homem-dispositivo, o ótimo “O Hóspede”. “Sem Remorso”, novo lançamento do Amazon Prime Video dirigido pelo italiano Stefano Sollima, é mais um desses grandes exemplares de ação que manipulam o herói como dispositivo, mas com um diferencial: aqui, o próprio protagonista reconhece e entende esse papel. 

O diretor Stefano Sollima (à esquerda) orienta Brett Gelman no set

A sinopse é a mais simples possível. Inspirado na obra do popular Tom Clancy, “Sem Remorso” apresenta um militar de operações especiais, John Kelly (Michael B. Jordan) que, após voltar de uma missão secreta, vê seus companheiros serem assassinados juntamente à esposa grávida. Único sobrevivente dos ataques, Kelly vê sua vida pessoal desmoronar e, tomado pelo desejo por vingança, faz de tudo para encontrar, entender e punir os responsáveis pelo massacre.

Com essa premissa, Sollima estrutura seu filme sobre grandes sequências: um carro em chamas, um avião em queda, um prédio como campo de batalha. Cada uma dessas cenas traz seu valor por motivos distintos, e o mais interessante é ver como em todas elas o dispositivo é sempre o próprio John Kelly. Desde as cenas em que o personagem gera o conflito, até nas sequências em que apenas reage aos estímulos, a constante é que Kelly vai, de uma forma ou de outra, assumir o protagonismo do espaço. 

O personagem sempre domina o ambiente e o molda de acordo com suas pretensões. Em uma das melhores passagens de “Sem Remorso”, Kelly vê que está prestes a ser atacado por um grupo de inimigos e, mesmo encurralado em uma cela, consegue inverter a lógica da cena para que não seja o ameaçado, mas a ameaça. Um homem-máquina que nunca retrocede ou hesita, apenas age por puro instinto de sobrevivência e desejo por vingança. Nessas cenas, é interessante ainda como Sollima sempre estabelece uma tensão prévia para que o espectador se encontre apreensivo diante do que virá. A preparação para o combate recebe da montagem, da música e dos demais elementos técnicos a mesma atenção que o próprio combate em si.

Créditos: Nadja Klier © 2020 Paramount Pictures
O mais interessante é ver como em todas as cenas o dispositivo é sempre o próprio John Kelly

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Essa estruturação dos set pieces faz com que o suspense seja tão relevante na trama política quanto nos momentos de apreensão e risco de vida que o personagem experimenta. Não surpreende que Sollima seja o escolhido, por exemplo, para levar aos cinemas uma adaptação da franquia de jogos “Call of Duty”, já que o cineasta parece sempre tratar essas sequências como fases de um jogo, nas quais o personagem precisa buscar por recursos antes de entrar na ação e então enfrentar os capangas e o chefe final.

O que chama atenção é como Sollima consegue alinhar a ideia de personagem-dispositivo aos interesses do conteúdo político da obra. Se a conclusão de Kelly e de seus companheiros é de que o governo americano usa seus militares como peões para fins econômicos – em um diálogo, um personagem importante afirma como o grande ganho da Segunda Guerra foi o crescimento econômico dos Estados Unidos –, o protagonista e vários outros personagens chave assumem esse papel ao agirem e pensarem como armas descartáveis em uma guerra. 

Créditos: Nadja Klier © 2020 Paramount Pictures
Sollima consegue alinhar a ideia de personagem-dispositivo aos interesses do conteúdo político da obra

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Em sua obra “A Mise-en-scène no Cinema”, Luiz Carlos de Oliveira Júnior fala sobre como na política dos autores da Cahiers du Cinema trata a moral e a ideologia de um filme como algo intimamente ligado à forma fílmica empregada. Um filme pode ser político, mas ele só é bom de fato se essa política estiver no discurso, e o discurso precisa ir além de um roteiro quando se fala de uma obra audiovisual. O discurso precisa também estar presente na estética, e é exatamente o que Sollima faz ao reconhecer como o governo americano usa soldados como dispositivos e fazê-los se comportarem exatamente assim. Mas não meramente dispositivos como ideias, também como gatilhos para que o gênero funcione. A ação de “Sem Remorso” sempre depende da aceitação de John Kelly como esse dispositivo.

No livro de Luiz Carlos, há uma citação que diz que “O que define um grande filme, o que impõe um grande tema, o que faz com que chegue uma mensagem, é a verdade de sua mise-en-scène”. Se pensarmos na afirmação, é até lógico reconhecer que “Sem Remorso” é um grande filme. Mas não por suas cenas de ação excelentes, mas por seu autor ser capaz de arranjá-las como uma confirmação do conteúdo político do filme. O tema não justifica a obra, ele é chancelado por sua estética, ele e a ação se retroalimentam, ao ponto de não serem raros os momentos em que John Kelly, baleado e cansado de continuar se movendo, continua atirando e matando, assumindo seu papel como homem-máquina, protagonista-dispositivo e peão de guerra.

“Sem Remorso” estreia no Amazon Prime Video na próxima sexta-feira, 30 de abril

nota do crítico

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