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Imagem: Kelia Anne MacCluskey/Interscope

Em “Happier Than Ever”, Billie Eilish cresce, em todos os sentidos, e mostra porque é o destaque de sua geração

Álbum é corajoso por expor mais da cantora e por mostrar que ela e o irmão dificilmente vão passar o resto da vida fazendo o mesmo som que os fizeram famosos

por Soraia Alves

Com o sucesso da estreia “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?”, muita coisa entra em jogo para Billie Eilish com o lançamento do segundo álbum, “Happier Than Ever”. A artista foi a grande expoente do movimento bedroom pop, influenciando inúmeros jovens artistas a abusarem do grave nas batidas, dos sussurros nos vocais e do sarcasmo para abordar temas comuns da adolescência. A fórmula rendeu à cantora 6 Grammys (das 7 indicações que recebeu), além de catapultá-la ao status de estrela da música pop. Um grande peso foi jogado em suas costas, como ela mesmo diz na faixa que abre o novo trabalho, “Getting Older”. Tudo isso a levou a explorar, em síntese, duas temáticas bem comuns do cancioneiro pop mundial: amadurecer e reclamar da fama. O resultado poderia ser um clichê completo, lírica e sonoramente, visto que também seria muito fácil para a cantora apenas manter a base musical certeira do primeiro disco. E é por todos esses flertes com o que poderia dar errado, mas não deu, que “Happier Than Ever” é um álbum ainda mais inovador que seu antecessor.


Billie Eilish deixa as ironias de lado para falar da vida de forma mais direta. O começo suave com a base de piano em “Getting Older” camufla uma letra sobre as consequência da fama, mostradas de um forma que gera empatia por quem ouve. Já com a segunda música, “I Didn’t Change My Number”, a colagem de trilhas eletrônicas feita por seu irmão e companheiro Finneas acena para um hip hop moderno, num resultado bem interessante. Essa pluralidade vai seguir por todo o disco, e é, sem dúvidas, sem maior destaque, ainda que ao mirar na Bossa Nova com “Billie Bossa Nova”, o resultado seja mais semelhante a uma inspiração vinda de Shawn Mendes e Camila Cabello em “Señorita”. O “equívoco” é logo ofuscado pela quase jazzística “My Future”, que é das canções mais bonitas que Billie Eilish já fez: “Estou apaixonada pelo meu futuro”, canta Billie suavemente. A levada traz à mente um pop com bases de Soul e Jazz muito característico dos anos 2000, de cantoras como Corinne Bailey Rae e Norah Jones.

Depois de uma enxurrada de hits com o álbum antecessor, Billie não parece preocupada em repetir o modelo. “Happier Than Ever” tem poucas músicas que identificamos como hits de pronto. Mas a sexy “Oxytocin” cumpre o papel de “vai tocar muito festas à fora”. Aqui, mais uma vez o trabalho de Finneas merece destaque com a mixagem latejante, quase como se representasse a própria atuação do hormônio Ocitocina no corpo feminino. A belíssima introdução emulando um coral a capella em “Goldwing” traz versos do Rigue Veda (Livro dos Hinos Hindu), e apesar do conceito diferentão, as multi-tracks não deixam de levar a música para um campo de quase hit também.



É por todos esses flertes com o que poderia dar errado, mas não deu, que “Happier Than Ever” é um álbum ainda mais inovador que seu antecessor

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Para não dizer que Billie não jogou em lugar seguro em momento algum, “Lost Cause” é uma faixa “familiar demais”. Não que isso seja um problema, veja bem. É apenas a mais conectada ao debut da cantora. Ainda que seja fácil de ouvir, assim como a balada “Halley’s Comet”, é quase “um pecado” interromper as experimentações diferenciadas que vinham seguindo, mesmo que, em suas particularidades, as canções também brilhem. “Therefore I Am” também é a Billie que já conhecemos. É quase um fan service quando comparada ao restante do álbum.

A produção inteligente combina o manifesto “Not My Responsability”, texto que a cantora apresentava em seus shows pré-pandemia, quase como uma grande introdução para “Overheated”, a segunda melhor música do álbum. A base eletrônica com camadas de batidas do hip hop remete facilmente ao trabalho de Thom Yorke. Já a inspiração para “NDA” só pode vir da obra de Trent Reznor.



A base eletrônica com camadas de batidas do hip hop em “Overheated” remete facilmente ao trabalho de Thom Yorke. Já a inspiração para “NDA” só pode vir da obra de Trent Reznor

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Mas “Overheated” só não é a melhor música de “Happier Than Ever” porque a faixa-título é uma surpresa enorme. Surpresa mesmo, porque ela tem uma mudança de tom que vai de ukelele para uma explosão de guitarras distorcidas e bateria no melhor estilo rock-pop de cantar em arenas. Quem diria, Billie Eilish também se rendeu ao revival do rock adolescente dos anos 2000. Ou esse seria mesmo o zeitgeist da música em 2021?

De qualquer forma, ainda que “Happier Than Ever” tenha suas faixas “puláveis” com o tempo (e o maior número de audições por parte do ouvinte), é um álbum corajoso, seja por expor mais de Billie Eilish – inclusive vocalmente-, ou por mostrar que ela e o irmão dificilmente vão passar o resto da vida fazendo o mesmo som que os fez famosos. É um passo audacioso, mas visivelmente feito com muita segurança. Do contrário, o resultado não seria tão bom.

nota do crítico

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