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Grammy 2020 consagra Billie Eilish, mas levanta polêmicas sobre falta de diversidade (de novo)

Histórico problemático do prêmio respinga em edição de justos reconhecimentos, mas poucos momentos de brilho

por Soraia Alves

Em uma noite de poucas surpresas (para não dizer nenhuma), o Grammy 2020 concedeu a Billie Eilish as honras dos prêmios mais cobiçados do evento, incluindo Álbum do Ano, Gravação do Ano, Música do Ano e Artista Revelação – além de mais duas categorias, somando 6 vitórias das 7 indicações que recebeu por “When We Fall Asleep, Where Do We Go?”.

A consagração da jovem cantora de 18 anos, porém, esbarrou em novos questionamentos sobre a falta de diversidade no Grammy, especialmente em relação ao espaço concedido aos artistas negros. Não que Billie não tenha merecido o reconhecimento – ela realmente é das melhores revelações do pop nos últimos tempos – mas os anos de preconceitos velados na premiação acabaram respingando aqui.

Não é novidade que o público tem sido mais crítico em relação às premiações da indústria cultural. Episódios como o “Oscar so white”, em 2016, ou as recentes reclamações também sobre racismo no BAFTA mostram que os espectadores estão atentos aos padrões elitistas, sexistas, racistas e xenófobos que tais premiações ainda reproduzem.

Com o Grammy não é diferente. Há uma reclamação geral sobre as escolhas que a Academia de Gravação faz para os destaques musicais de cada ano. Dois casos, em especial, são sempre lembrados para atestar o conservadorismo do evento: em 2016, o pop certinho de Taylor Swift em “1989” superou um dos melhores álbuns de Rap da história, “To Pimp a Butterfly”, de Kendrick Lamar na categoria de Álbum do Ano; no ano seguinte, Adele venceu a mesma categoria com o disco “25” e em seu próprio discurso de agradecimento ressaltou que o prêmio deveria ter ido para Beyoncé por “Lemonade”, de fato um dos trabalhos mais relevantes da década.

Tais injustiças já cometidas pela premiação ecoam novamente em 2020, mesmo que no ano passado o Grammy tenha apresentado sua edição mais representativa nesses 62 anos da premiação, com o reconhecimento de “This is America”, de Childish Gambino, Cardi B como a primeira mulher a levar a categoria Melhor Álbum de Rap com um trabalho solo e uma cerimônia dominada por apresentações de mulheres.

O problema é que essa “fórmula” já foi vista antes, exatamente em eventos que foram considerados preconceituosos. Depois da chuva de críticas, uma edição mais representativa é realizada e temos uma pequena sensação de “novos tempos estão começando”; aos poucos, porém, as edições voltam a ser o que sempre foram: elitistas, sexistas, racistas e xenófobos.

O Grammy 2020 também não foi nada memorável em suas apresentações, que apesar de serem todas boas não trouxeram muitos destaques. Entre eles, vale citar a volta emocionada de Demi Lovato ao palcos, a participação do Run DMC ao lado do Aerosmith (num raro momento em que o Rock foi lembrado na premiação) e, claro, as apresentações de Lizzo e Tyler, the Creator, dois artistas que foram merecidamente premiados na noite.

Com 8 indicações no total, Lizzo levou 3 delas: Melhor Performance Pop Solo (porTruth Hurts”), Melhor Performance Tradicional de R&B (porJerome”) e Melhor Álbum de Música Urbana (porCuz I Love You”). Já Tyler ganhou como Melhor Álbum de Rap, com o sensacional “Igor”.

Vale citar ainda que a espanhola Rosalía também aparece entre os vencedores na categoria Melhor Álbum Latino de Rock, Música Urbana ou Alternativa pelo trabalho “El Mal Querer”. Beyoncé ganhou em Melhor Filme Musical com “Homecoming”, e o gramofone de Melhor Clipe ficou com “Old Town Road”, de Lil Nas X e Billy Ray Cyrus. Se pensarmos no tamanho da premiação, os destaques são mesmo muito poucos.

No geral, o Grammy 2020 lembrou bastante a edição de 2018: apesar das indicações apontarem para uma maior diversidade, alguns privilégios continuam sendo premiados.

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