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Os melhores álbuns internacionais de 2020

Ainda que a produção cultural de 2020 tenha sido ainda mais importante que em anos anteriores, há sempre aqueles trabalhos que se destacam. Confira!

por Soraia Alves

Dizer que 2020 foi um ano difícil é chover no molhado. A pandemia de Covid-19 afetou absolutamente o mundo todo, incluindo todas as áreas da indústria do entretenimento. De lançamentos adiados ao aproveitamento físico de espaços culturais, tudo foi modificado por conta do coronavírus. O confinamento em casa, porém, evidenciou a importância da cultura até mesmo para quem sempre manteve um discurso de desvalorização da mesma.

Foram as produções culturais que nos ajudaram a ocupar o tempo, manter a sanidade e nos divertir, mesmo em um ano no qual a palavra diversão não fez muito sentindo. Entretenimento virou sinônimo de salvação, para muito além de apenas um passatempo. Por isso, antes de ser uma avaliação dos conteúdos produzidos ao longo do ano, qualquer lista ou retrospectiva de 2020 deve ser um agradecimento aos filmes, séries, músicas, podcasts, vídeos, ilustrações, memes e todo o tipo de arte lançada neste ano crítico.

2020 também modificou nossa forma de consumo dos produtos culturais. O período foi marcado por ótimos lançamentos do universo pop, que infelizmente não puderam ser aproveitados em seu habitat natural: as pistas de dança. Shows e festivais foram transformados em lives, muitos lançamentos foram adiados e até as plataformas de streaming viram diferença no comportamento de consumo de seus usuários, sem picos de audição em horários de deslocamento diário, por exemplo.

A quarentena ainda influenciou trabalhos diversos, da canção “Living In A Ghost Town” lançada pelos Rolling Stones a álbuns inteiros como How I’m Feeling Now, de Charli XCX, e “Folklore”, de Taylor Swift. Porém, ainda que a produção cultural deste ano tenha sido ainda mais importante que em anos anteriores, há sempre aqueles trabalhos que se destacam. Assim, confira o top dos melhores álbuns internacionais de 2020 do B9:

10º. Fleet Foxes – “Shore”

O quarto álbum do Fleet Foxes entra no grupo de trabalhos que começaram a ser produzidos antes da pandemia, mas que trazem angústias e ansiedades que afloraram com a crise global. Porém, a temática de “Shore” é mais sobre celebração que lamentação. É realmente sobre entender a iminência da morte e ser grato à vida no hoje. Tudo isso é transmitido através de arranjos ricos, quase sempre crescentes e que combinam diferentes camadas de forma emocional, o que é bem representado em “Can I Believe You”. O álbum não perde essas características mesmo nos momentos mais melancólicos como em “I’m Not My Season”, transformando perturbação em ternura de forma notável.

9º. The Chicks – “Gaslighter

O trio Dixie Chicks agora é The Chicks, e “Gasligther” é o melhor trabalho do grupo até agora. Enquanto aborda o fim do casamento entre Natalie Maines e o ator Adrian Pasdar, o álbum é também a jornada de libertação de Natalie. As faixas exploram muito além do country de forma moderna e dinâmica, especialmente na politizada “March March”, enquanto o peso de ter vivido um relacionamento abusivo é mostrado através da delicadeza necessária para tratar do assunto, como em “Everybody Loves You”. A produção de Jack Antonoff traz frescor desde a abertura do álbum, e confere ao trio uma multiplicidade sonora exuberante e digna da celebração de novos horizontes.

8º. Lady Gaga – “Chromatica”

A volta de Lady Gaga ao pop dançante veio com uma explosão eurodance dos anos 90, cheia de hits viciantes e clipes icônicos. Apesar do resgate ao pop mais raiz da cantora, “Chromatica” traz novas experimentações para Gaga, além de parcerias que mostram seu olhar atento ao mercado musical, especialmente no feat com o fenômeno do K-pop, Blackpink. Se “Stupid Love” e “Rain On Me” grudam na mente para serem cantaroladas no chuveiro, “Sine From Above” (com Elton John) é aquela canção que “faltou curtir na balada”. Aliás, a única coisa ruim sobre “Chromatica” é que ele saiu justamente em um ano no qual não pudemos dançar cada faixa na companhia dos amigos.

7º. The Weeknd – “After Hours”

A música mais ouvida de 2020 no Spotify veio deste álbum: “Blinding Lights”. Já a grande injustiça da seleção de indicados ao Grammy 2021 é justamente a ausência de After Hours”, trabalho que traz um interessante equilíbrio entre o que The Weeknd produz e o que as rádios querem. O synthpop oitentista vem carregado de melancolia e remorsos, além de um isolamento no qual o cantor havia se colocado antes mesmo da quarentena. Esse é um álbum para audições repetidas, a fim de explorar as muitas camadas sonoras em meio a ecos e aos vocais frescos de faixas como “Faith”, “Scared to Live” e a brilhante “After Hours”.

6º. Perfume Genius – “Set My Heart on Fire Immediately”

Todos os trabalhos de Mike Hadreas até aqui não são exatamente fáceis. Sua evolução como Perfume Genius é rebuscada, intensa e ímpar, por isso seus álbuns também são requintados. Em “Set My Heart on Fire Immediately”, seu quinto disco, um novo patamar de sensibilidade é alcançado desde a primeira e belíssima canção do trabalho, “Whole Life”, passando por pérolas como “Jason” e “Some Dream”. De trilhas ao piano a arranjos eletrônicos, tudo encaixa de uma forma que obrigatoriamente precisa ser elogiada. Num trabalho que fala tanto sobre a vulnerabilidade do corpo e a desconexão de nós mesmos, o sentimento é de que chegamos um pouco mais humanos ao final do álbum.

5º. Phoebe Bridgers – “Punisher”

Em seu segundo álbum, Phoebe Bridgers brinca com letras extremamente individuais para mostrar que, na verdade, nada do que vivemos em nosso íntimo é exclusivo. Relatando detalhadamente cenas e sentimentos, a cantora nos coloca numa posição de empatia e até mesmo de identificação: se você nunca brigou inutilmente com alguém por John Lennon, como ela canta em “Moon Song”, talvez tenha sido por outro artista. Entre arranjos primorosos, como na belíssima “Halloween”, é estranho pensar que Bridgers parece o tempo todo escrever sobre desesperança Mas é nesse encontro de frustrações que também vemos que não há exclusividade nem no sofrimento. Estamos todos no mesmo barco, reclamando sem parar e esperando que tudo melhore um dia, mesmo que isso signifique o fim de tudo o que conhecemos, como ela propõe.

4º. Bob Dylan – “Rough and Rowdy Ways”

Embora seja o 39º álbum de Bob Dylan, “Rough and Rowdy Ways” é o trabalho mais pessoal do cantor em muitos anos, trazendo uma visão mais poética e literária sobre a vida, ainda que a morte esteja sempre rondando suas letras. É uma ode a todas as transformações culturais que nos trouxerem até aqui. As faixas longas, como grandes capítulos de uma história, dão o tom de um belo livro de memórias musicado, que explora em guitarras e pianos do blues, as décadas de mudanças e acontecimentos que agora parecem tão distantes. Dylan, porém, não se perde em suas memórias e por isso mesmo canta: “Eu sou o último dos melhores, você pode enterrar o resto”. 

3º. Thundercat – “It Is What It Is”

O quarto álbum de Thundercat (Stephen Bruner) segue a linha de canções profundas e existenciais embaladas por uma trilha cheia de influências ricas, do soul ao hip hop. É um trabalho delicado e dinâmico ao mesmo tempo, e carregado de uma carga emocional extra por tratar de como Bruner tem lidado com a morte de seu amigo, Mac Miller. A riqueza de influências e participações especiais torna o a audição irônica, uma vez que ela é divertida como uma jazz fusion psicodélica, mesmo tratando de temas tão intensos – “I Love Louis Cole”, “Black Qualls” e “How Sway” são ótimos exemplos disso. Já faixas como “Dragonball Durag” e “Fair Chance” agregam ainda mais sutileza a esse disco genial.

2º. Run the Jewels – “RTJ4

Em 2020, toda a potência do Run the Jewels ganhou ainda mais proporções. Num ano tão politizado, marcado por protestos como o Black Lives Matter, Killer Mile e El-P cantam de forma visceral sobre temas que ultrapassam a denúncia e se somam ao que os livros de história abordarão: brutalidade policial, supremacia racial, armas, discurso de ódio, redes sociais, corrupção e tantos outras coisas que não deixaram de existir por conta da pandemia.

Com um hip hop direto e uma produção primorosa, “RTJ4” é um recorte dos Estados Unidos de hoje, o que não deixa de respingar no que vivemos pelo lado de cá da América. Faixas como “Out of Sight”, “Walking in the Snow” e “Ju$t” são essenciais. A última, inclusive, conta com a participação de Zack de la Rocha (RATM) e Pharrell Wlliams. Se 2020 falou muito sobre resiliência e ressignificação, o Run the Jewels vem pra lembrar que denúncia e luta não podem ser esquecidas.

1º. Dua Lipa – “Future Nostalgia”; Fiona Apple – “Fetch the Bolt Cutters

Por quê escolher apenas um álbum do ano quando dois trabalhos marcaram 2020, cada um a sua maneira? Enquanto Dua Lipa, com “Future Nostalgia”, foi um raro caso de sucesso total entre crítica e público, a excentricidade de Fiona Apple em “Fetch the Bolt Cutters” é caos mesclado à resiliência, e propõe uma reflexão sincera sobre nossas próprias hipocrisias e sentimentos controversos.

São trabalhos totalmente distintos, mas que se encontram ao representarem a criatividade de mulheres modernas. Dua Lipa bebe da fonte cristalina do pop com influências de nomes clássicos como Madonna, Prince, Gloria Gaynor e Nile Rodgers, mas também absorve tudo de melhor que referências mais jovens como Robyn e Lilly Allen já entregaram. Com isso, “Future Nostalgia”, como o nome já diz, é o puro creme do pop retrô que remete à disco music, com toques de new wave, syntyhpop e o eletrônico moderno. Foi delicioso poder contar neste com faixas como “Physical”, “Levitating” e “Pretty Please”.

Já Fiona Apple bebe de suas próprias inquietações, nas quais até os latidos de seus cachorros se tornam parte das canções. Como resultado temos um álbum conceitual, que perturba, quebra padrões sonoros a todo momento e escancara a masculinidade tóxica enquanto expõe sentimentos e intimidade. De Joni Mitchell a Yoko Ono, Fiona consegue representar tantas mulheres brilhantes que vieram antes dela, e que nem sempre foram classificadas assim. É um trabalho incrivelmente plural, extravagante e essencial.

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