As habilidades que vão importar na era pós-IA
No SXSW, pesquisadores propõem um mapa das competências que líderes precisarão desenvolver na próxima década
No SXSW 2026, uma apresentação sobre inteligência artificial tentou responder a uma pergunta menos óbvia do que “qual ferramenta usar”: quais habilidades humanas continuam valiosas quando máquinas fazem cada vez mais do trabalho cognitivo.
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No keynote “Skills You’ll Need to Succeed in the Post-AI Age”, os pesquisadores Kai Riemer e Sandra Peter, da Universidade de Sydney, apresentaram um mapa das competências que devem ganhar importância ao longo da próxima década. A base é o relatório The 2026 Skills Horizon, construído a partir de conversas com mais de 150 líderes globais, de CEOs a chefes de estado.
A conclusão central é que estamos entrando em um período que eles chamam de “década da desorientação” — uma fase marcada por mudanças simultâneas e difíceis de prever.

O mundo deixou de evoluir por “tendências”
Durante décadas, executivos se acostumaram a pensar em megatrends: tendências estruturais que apontavam para direções relativamente claras. Segundo os pesquisadores, esse modelo já não explica o momento atual.
O que existe agora são deslocamentos estruturais, mudanças que acontecem ao mesmo tempo e em direções diferentes, criando um ambiente permanente de incerteza.
O relatório identifica cinco grandes transformações:
- Mudança de valores (Values shift)
Expectativas sobre trabalho, carreira e propósito se fragmentaram entre gerações. - Mudança tecnológica (Technology shift)
A tecnologia é cada vez mais poderosa, mas seu impacto real ainda é imprevisível. - Mudança de responsabilidade (Accountability shift)
Empresas passam a responder não apenas por suas ações diretas, mas por todo o ecossistema em que operam. - Mudança de confiança (Trust shift)
A confiança em instituições, governos e empresas está em queda. - Mudança energética (Energy shift)
A infraestrutura energética necessária para sustentar a economia digital se torna um fator estratégico. 2026-skills-horizon
O resultado é o que os autores descrevem como incerteza ambiente: uma sensação constante de instabilidade que afeta decisões de liderança, estratégia e carreira.
O desafio agora é equilibrar tensões
Nesse cenário, liderar deixa de ser escolher entre alternativas. Passa a ser equilibrar forças opostas.
O relatório chama essas tensões de “clashes”, que podemos traduzir como conflitos estruturais. Eles aparecem de forma recorrente nas organizações.
• Política organizacional vs. pessoas
Empresas precisam de processos e padronização. Mas as pessoas nunca tiveram expectativas tão diferentes sobre como trabalhar: flexibilidade, autonomia, propósito e ferramentas.
Quanto mais liberdade individual, mais difícil coordenar o conjunto.
• Eficiência vs. especialização
A IA promete produtividade. Mas existe um risco embutido: delegar tarefas cognitivas demais para máquinas pode enfraquecer a expertise humana.
Se a tecnologia resolve tarefas complexas, profissionais iniciantes podem perder oportunidades de desenvolver julgamento e experiência.
• Capacidade vs. controle
A IA amplia as capacidades das organizações. Ao mesmo tempo, aumenta riscos relacionados a segurança, privacidade e governança.
O desafio é aproveitar o potencial da tecnologia sem perder controle sobre decisões e responsabilidades.
• Abundância vs. atenção
A tecnologia criou abundância de informação. O recurso escasso agora é atenção humana.
Executivos relatam que cada vez mais seu trabalho envolve interpretar sinais contraditórios e tomar decisões em meio à complexidade.
Um mapa de habilidades
Para navegar esse cenário, os pesquisadores criaram o Skills Horizon, um modelo que organiza habilidades em três camadas.
Base produtiva: competências essenciais para operar no presente.
Habilidades em desenvolvimento: capacidades que estão ganhando importância nas organizações.
Habilidades emergentes: competências que devem se tornar críticas nos próximos anos.
Entre os temas que aparecem com força estão:
- alfabetização tecnológica e em IA
- pensamento sistêmico
- gestão de complexidade
- colaboração entre áreas e culturas
- construção de confiança organizacional
- resolução de problemas em larga escala
O relatório também identifica áreas onde diferentes competências começam a convergir, especialmente em três frentes: tecnologia, complexidade e trabalho coletivo.
O perfil do líder que emerge
No final da apresentação, os pesquisadores descrevem o tipo de liderança que tende a prosperar nesse ambiente. Eles chamam esse perfil de líder com os pés no chão — ou grounded leader.
Não é alguém que tenta prever o futuro com precisão. É alguém que consegue:
- aprender rapidamente
- desaprender quando necessário
- lidar com ambiguidade
- equilibrar forças contraditórias dentro da organização
Em um mundo de mudança acelerada, liderança passa menos por ter respostas definitivas e mais por manter clareza em meio à incerteza.
A real: Grande parte da conversa sobre IA ainda gira em torno de ferramentas. Qual modelo usar. Qual prompt escrever. Qual tarefa automatizar.
A discussão trazida na conversa aponta para outro nível do problema.
A tecnologia pode acelerar transformações. Mas a capacidade de interpretar, decidir e equilibrar tensões continua sendo profundamente humana.

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