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Extinção em massa, clima e dinossauros: o que os fósseis ensinam sobre o futuro da humanidade
No SXSW, o paleontólogo que descobriu o maior dinossauro do mundo e um médico-cientista usaram 66 milhões de anos de história para falar sobre o presente (e o alerta é urgente)
O estudo dos dinossauros não é nostalgia científica. É o único registro real de como civilizações biológicas dominantes desaparecem.
Kenneth Lacovara leva anos tentando fazer as pessoas entenderem isso. Ele é o paleontólogo que descobriu o Dreadnoughtus — 85 pés de comprimento, dois andares e meio de altura, 65 toneladas, o peso de 13 elefantes africanos. Um animal que não temia nada, literalmente: o nome significa “não teme nada”. Lacovara passou cinco temporadas de campo na Patagônia para desenterrá-lo, vivendo em barraca num lugar sem estrada de acesso.
No SXSW2026, ao lado do médico e cientista William Li, ele foi ao palco não para falar sobre dinossauros. Foi para falar sobre nós.
Por que importa: Lacovara passou as últimas duas décadas caminhando pelo que chama de “cemitério do último apocalipse” — um sítio em New Jersey com mais de 100 mil fósseis representando mais de 100 espécies extintas, cada uma vítima literal do impacto do asteroide de 66 milhões de anos atrás. Ninguém no mundo tem mais contato físico com o que acontece quando uma civilização biológica dominante desaparece. E o que ele está vendo nos dados do presente o assusta.
A escala que muda tudo: Imagine a história da Terra comprimida num livro de 1000 páginas. Os dinossauros — que você imagina como imensamente antigos — aparecem na página 8. A espécie humana, com seus 300 mil anos, está na última linha do livro. Nossa civilização inteira, 10 mil anos de história, é a última palavra dessa última linha.
“Se eu te der um livro de 1000 páginas e pedir para ler só a última palavra e me contar sobre o que é a história, você não vai ter muito sucesso”, disse Lacovara. “Tudo está no passado profundo. É lá que estão as respostas.”
E o passado profundo tem um padrão claro: houve cinco extinções em massa anteriores, definidas como a perda de mais de 75% de todas as espécies. Todas foram crises climáticas. A última foi uma crise climática instantânea, causada pelo impacto de um asteroide. As quatro anteriores foram, simplesmente, crises de CO₂.
“O clima é o maior assassino na história do nosso planeta. E o que estamos fazendo hoje é usar a atmosfera da Terra como lixeira.”
Kenneth Lacovara e WIlliam Li no SXSW 2026
Somos o asteroide: O CO₂ na atmosfera está hoje em 425 partes por milhão. O planeta não via esse nível há cerca de 3,5 milhões de anos, quando os ancestrais mais próximos do ser humano mal começavam a surgir. Mais do que o valor absoluto, o que alarma os geólogos é a velocidade da mudança.
A Era do Petróleo tem 160 anos. É a vida de um carvalho. Nenhum organismo consegue se adaptar a mudanças ambientais drásticas dentro de uma única geração, a evolução não funciona assim. Para um dinossauro atingido por um asteroide ou para uma espécie que vê seu habitat transformado em 160 anos, o efeito biológico é o mesmo: instantâneo.
“Nesse cenário, nós somos o asteroide.”
Os números confirmam. Desde 1970, o planeta perdeu 73% de toda a vida selvagem. Na América Latina, o número chega a 95%. A taxa atual de extinção está entre 10 mil e 100 mil vezes acima da taxa natural de fundo. Uma espécie não gera manchete quando desaparece, ela simplesmente some, e biólogos debatem por 30 anos se está realmente extinta. Mas o efeito cumulativo está visível.
“Nenhum de nós é fotossintético. Não sobrevivemos sem essas outras criaturas.”
O ponto cego: Por que não agimos com a urgência que os dados exigem? Lacovara tem uma hipótese evolucionária: humanos, como todos os animais, desenvolveram a capacidade de notar ameaças imediatas — predadores, alimento, perigo físico. Não desenvolvemos a capacidade de perceber ameaças que se desdobram em décadas ou que estão dispersas pelo planeta.
“São ameaças intelectuais. Lógicas. Mas ameaças ainda assim. E precisamos usar as partes inteligentes do nosso cérebro para nos alarmar suficientemente.”
A politização da ciência climática agrava o problema. Não faz muito tempo, Newt Gingrich e Hillary Clinton gravaram um PSA juntos sobre responsabilidade climática. Isso hoje seria impensável. “Não existem termômetros democratas e termômetros republicanos. Existem termômetros”, disse Lacovara. “Ficamos bons em usá-los nos últimos 500 anos.”
Edelman Fossil Park & Museum
O que o passado também ensina: Nem tudo é apocalipse. A pandemia ofereceu um experimento involuntário: quando paramos de dirigir, voar e operar a maioria das atividades industriais por alguns meses, cientistas observaram recuperação ambiental mais rápida do que o esperado. O planeta, quando aliviado, responde.
Lacovara construiu o Edelman Fossil Park & Museum, em New Jersey — um dos maiores complexos carbono neutro dos Estados Unidos, com 72 poços geotérmicos de 75 metros de profundidade suprindo toda a energia de aquecimento e resfriamento. Quando conversou com os arquitetos pela primeira vez, a primeira frase foi: “Nenhum combustível fóssil no parque de fósseis.”
A tese do museu é simples e antiga: pessoas protegem o que amam. Amam o que conhecem. Por isso toda criança que visita o parque sai com um fóssil de 66 milhões de anos que encontrou com as próprias mãos.
“Naquele momento, ela viu algo que nenhum humano tinha visto antes. Sabe o nome que damos para pessoas assim? Exploradores.”
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