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A startup que quer traduzir o idioma das baleias

No SXSW, o biólogo marinho David Gruber explicou como cientistas estão decifrando a comunicação dos cachalotes — e o que isso muda para o futuro do planeta

por Carlos Merigo

Em 2020, David Gruber ganhou US$ 33 milhões do TED Audacious para fazer algo que a maioria dos cientistas consideraria audacioso demais: traduzir a linguagem de baleias. Cinco anos depois, ele veio ao SXSW dizer que está funcionando.

O projeto se chama CETI — Cetacean Translation Initiative. A sigla é intencional: uma homenagem ao SETI, o programa de busca por inteligência extraterrestre. “Somos os exploradores interterrestres”, disse Gruber no painel mediado por Nathan Lump, editor-chefe da National Geographic.

“Enquanto o SETI procura vida lá fora, a gente está olhando aqui dentro. E acreditamos que as duas buscas estão conectadas — a tecnologia que estamos desenvolvendo aqui vai ser o nosso treinamento para quando eventualmente encontrarmos um alienígena.”

Por que importa: a comunicação interespecífica soa como ficção científica até você ver os dados. O CETI publicou um paper na Nature em 2024 mostrando que os cachalotes possuem um alfabeto fonético e o utilizam de forma contextual e combinatória — exatamente como os humanos fazem com a linguagem. Dos mais de dois milhões de espécies descritas na Terra, nenhuma chegou tão perto de nós nesse aspecto. E isso muda a conversa sobre direitos animais, conservação e o que chamamos de inteligência.

A escala do projeto: Cinquenta cientistas. Oito disciplinas. Algo inédito na história da ciência: robóticos, linguistas, especialistas em machine learning, cientistas de redes complexas, biólogos marinhos, acústicos subaquáticos e criptógrafos trabalhando juntos no mesmo problema. Roger Payne, o pesquisador que descobriu que baleias cantam na década de 1970, foi consultor fundador. Kevin Ryan, chefe do departamento de linguística de Harvard, foi convencido a participar depois de assistir a um workshop confidencial. “Ele me perguntou como passou a carreira toda sem trabalhar com um linguista”, contou Gruber.

A pesquisa de campo acontece em Dominica, no Caribe, onde entre 200 e 400 cachalotes vivem em unidades matrilineares de até quatro gerações. Shane Garrow, explorador da National Geographic, estuda esse grupo há mais de 20 anos e conhece cada animal pelo nome.

O que já descobriram: Cachalotes se comunicam em cliques — sons que chegam a 212 decibéis, o dobro do barulho de um avião decolando. Por décadas, pesquisadores acreditavam que havia apenas 30 padrões de comunicação próxima. O CETI está mostrando que a estrutura é muito mais complexa. O paper de 2024 confirmou que as baleias desenvolveram vogais de forma independente dos humanos, usando uma arquitetura sonora radicalmente diferente: o som sai pelo topo da cabeça, passa por um óleo que amplifica, atravessa estruturas chamadas de “junk” pelos baleeiros — e pode ser focado ou aberto em banda larga. Um próximo paper, sobre fonologia dos clicks de cachalotes, deve sair em semanas nos Proceedings of the Royal Society.

As orcas foram ainda mais longe: têm duas gargantas, duas fontes vocais funcionando simultaneamente. O animal com maior cérebro do planeta, 18 libras de tecido neural, pode ter mais complexidade vocal do que qualquer ser humano.

Nas entrelinhas: Gruber foi enfático em um ponto: não basta jogar IA no problema.

“Toda semana alguém do Vale do Silício diz ‘vamos jogar IA nessa questão’. Mas você não pode jogar IA em algo que não entende.”

No CETI, quem lidera o projeto são pessoas apaixonadas por animais, não engenheiros em busca de métricas. A pergunta que orienta cada decisão é simples: isso beneficia a baleia?

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David Gruber, explorador e fundador do Projeto CETI, e Nathan Lump, editor da NatGeo

A dimensão legal também está no radar. Em parceria com o programa “More Than Human Life” da NYU School of Law, o CETI está mapeando o impacto potencial das suas descobertas sobre direitos legais de animais. Se pudermos provar que baleias têm linguagem complexa, estrutura social e transferência de conhecimento intergeracional — e já temos evidências disso —, o arcabouço jurídico que as trata como recursos naturais precisa ser revisado.

O próximo passo: O CETI está captando US$ 50 milhões com a National Geographic para os próximos cinco anos. Gruber vê um caminho claro até a tradução efetiva, mas admite que não existe manual para o momento em que isso acontecer. “É como o pouso na Lua. Você pode plotar a trajetória, mas não sabe exatamente como vai ser quando chegar lá.”

Quando perguntado o que diria a uma baleia se pudesse, Gruber desviou por um momento — e depois contou sobre pinchy, uma baleia-avó que o olhou nos olhos à superfície durante um mergulho e depois foi embora lentamente.

“Eu me senti muito sozinho. Ela vai fazer o que quer pela próxima hora, e eu não tenho como compartilhar nada com ela.”

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