Netflix redesenha app mobile com feed vertical de clipes personalizados chamado “Clips”
Nova experiência personaliza no nível do clipe individual, não apenas do título; plataforma diz que sucesso é o usuário encontrar algo e assistir, não rolar indefinidamente
A Netflix colocou um TikTok dentro da Netflix. Chama-se “Clips.”.
O app mobile da plataforma ganhou redesign completo com um feed vertical de vídeos curtos no centro da experiência. Cenas de séries, momentos de filmes, bastidores, conteúdo de programas ao vivo — tudo personalizado e rolável verticalmente, como o usuário já faz no TikTok e no Reels do Instagram. Pode adicionar à lista, compartilhar com amigos ou tocar pra ir direto pro conteúdo completo.
A novidade já está disponível nos EUA, Reino Unido, Austrália, Canadá, Índia e outros mercados. Chega ao Brasil nos próximos meses.
Elizabeth Stone, Chief Product and Technology Officer da Netflix, enquadrou como experiência pra “momentos entre uma tarefa e outra, para descobrir um título novo ou ver algo engraçado rapidinho.” O celular não substitui a TV. Alimenta o que você vai assistir na TV mais tarde.
A personalização é o que separa o Clips de um TikTok genérico. A Netflix não personaliza apenas quais títulos aparecem no feed. Personaliza quais clipes de cada título você vê. Duas pessoas que amam o mesmo filme veem cenas diferentes. Uma vê bastidores, a outra vê o momento ao vivo. A máquina de recomendação construída em duas décadas pra sugerir títulos agora sugere momentos dentro dos títulos.
A navegação do app inteiro mudou. Barra no topo organizada por tipos de entretenimento. Barra inferior com busca, lista salva e acesso direto ao feed de Clips. A reformulação segue a linha do redesign recente da experiência em TVs, o primeiro em mais de uma década.

A tensão central dessa mudança é conceitual. A Netflix adota o formato que o TikTok popularizou — o feed vertical de scroll — mas diz que o objetivo é o oposto do TikTok.
Em apresentação exclusiva à imprensa, quando perguntei se o objetivo da mudança é aumentar o tempo de uso na plataforma ou ajudar as pessoas a encontrar conteúdo, a equipe de produto foi direta:
“Não queremos que o usuário role indefinidamente. Isso seria um sinal ruim pra nós. Queremos que você encontre algo, adicione à lista e assista.”
↳ Traduzindo: o feed existe pra te tirar do feed. Sucesso é ação (adicionar, assistir), não retenção (rolar sem parar).
A promessa é elegante. A pergunta é se o formato permite. Quando você coloca um feed vertical de vídeos curtos num app, o comportamento do usuário segue a intenção do designer ou segue o padrão que o formato já treinou? As pessoas já sabem o que fazer com scroll vertical. Rolam. A Netflix está apostando que consegue usar a mecânica sem herdar o vício.
A máquina de recomendação de duas décadas agora sugere momentos, não títulos
A evolução de produto contextualiza a chegada. A Netflix vem experimentando com vídeo vertical há oito anos. Começou com Previews (prévias horizontais numa fileira). Depois veio Fast Laughs (feed vertical de momentos engraçados). Agora Clips (feed vertical personalizado do catálogo inteiro). Cada versão ensinou algo sobre como o usuário usa vídeo curto pra descobrir conteúdo longo.
Kim Ho, lead product designer de mobile da Netflix, que lidera a inovação de phone e tablet há oito anos, explicou que o design foi moldado por feedback direto de usuários ao redor do mundo:
“Eles nos disseram que queriam uma experiência construída pra forma como usam seus celulares. Queriam curtir Netflix em mais momentos do dia. E queriam se conectar com as histórias que amam através de descoberta, compartilhamento e fandom.”
Nos testes, quando o propósito do feed ficava claro pro usuário, o engajamento positivo aparecia: as pessoas encontravam conteúdo, adicionavam à lista e voltavam pra usar o feed como ferramenta de descoberta.
Próximos passos: coleções temáticas de clipes por gênero (podcasts, reality TV, bastidores), integração de conteúdo ao vivo e funcionalidades como pausar, avançar e rebobinar com preview de thumbnail. Conteúdo exclusivo produzido pelas equipes de marketing e social da Netflix — bastidores com elencos, entrevistas — também entra no feed.
Perguntei também se a Netflix vai produzir conteúdo exclusivo pro formato. A resposta: sim, já existe material de bastidores e entrevistas produzido pelas equipes internas, e clipes de podcasts entram no feed futuramente.
Por que importa: A Netflix está fazendo a mudança mais arriscada da sua experiência mobile. Arriscada porque o formato que escolheu — feed vertical de vídeos curtos — já tem dono na cabeça do consumidor: TikTok. E o TikTok treinou bilhões de pessoas a rolar indefinidamente. A Netflix diz que quer o oposto: que você role pra encontrar, não pra se perder. Mas a história recente da tecnologia mostra que formatos carregam comportamento. E-mail virou ansiedade. Notificação virou interrupção. Feed vertical virou transe. A Netflix está apostando que consegue ser a exceção.

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