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Marcas mais valiosas do mundo: quatro passam de US$ 1 trilhão e IA redesenha o ranking

Google retoma liderança pela primeira vez desde 2018 no ranking Kantar Brandz; ChatGPT cresce 285%, Nike e Louis Vuitton despencam

por Carlos Merigo

Pela primeira vez na história, quatro marcas valem mais de US$ 1 trilhão ao mesmo tempo. Google (US$ 1,5 tri), Apple (US$ 1,4 tri), Microsoft (US$ 1,1 tri) e Amazon (US$ 1 tri). O ranking Kantar BrandZ 2026 das 100 marcas mais valiosas do mundo totalizou US$ 13,1 trilhões — alta de 22%.

O Google reassumiu o topo pela primeira vez desde 2018, interrompendo quatro anos consecutivos de liderança da Apple. Crescimento de 57%. O que mudou: integração acelerada de IA nos produtos, busca interativa e investimento massivo em infraestrutura. A Apple, com +6%, ficou em segundo. A diferença entre as duas taxas de crescimento conta a história do ano: quem integrou IA no core do negócio acelerou. Quem não, estagnou.

O top 10:

Pos.MarcaValorVar.
1GoogleUS$ 1,48 tri+57%
2AppleUS$ 1,38 tri+6%
3MicrosoftUS$ 1,11 tri+26%
4AmazonUS$ 1,02 tri+18%
5NVIDIAUS$ 815 bi+60%
6FacebookUS$ 367 bi+22%
7InstagramUS$ 286 bi+25%
8TencentUS$ 252 bi+45%
9OracleUS$ 236 bi+10%
10McDonald’sUS$ 235 bi+6%

McDonald’s é a única marca pré-digital no top 10. Fundada em 1940. Todas as outras são tech ou plataforma.

 Chart, Plot, Diagram, Disk, Plan

IA redesenhou o mapa — dos dois lados

Os maiores crescimentos do ranking:

MarcaCrescimentoPosição
ChatGPT+285%15º
YouTube+89%14º
Intel+85%40º
VMware+79%33º
Siemens+68%44º
Samsung+67%61º
AMD+61%28º
NVIDIA+60%
Google+57%

O ChatGPT lidera com folga, um dos maiores avanços já registrados na história do BrandZ. O relatório nota que a marca investiu pesado em construção de marca via mídia de massa e está se posicionando como canal de publicidade. O Claude, da Anthropic, estreou diretamente na 27ª posição, avaliada em US$ 96,6 bilhões, o newcomer mais valioso do ano.

YouTube a +89% é o segundo maior crescimento. Saltou de 26º pra 14º. Combina brand equity com inovação em IA, mesma receita do Google.

Mas a IA que constrói valor de um lado destrói do outro. As quedas mais dramáticas do ranking são de marcas de serviço tecnológico cujo trabalho está sendo commoditizado pela IA:

MarcaQuedaPosições perdidas
Accenture-56%-44
Tata Consultancy-43%-37
Adobe-37%-28
Salesforce-19%-11

Accenture perdeu mais da metade do seu valor de marca em um ano. Adobe, que era sinônimo de ferramenta criativa profissional, perdeu mais de um terço. Quando a IA faz o que a consultoria vendia e o que o software oferecia, o valor migra de quem prestava o serviço pra quem fornece a infraestrutura.

NVIDIA em 5º lugar (US$ 815 bi, +60%) é a prova: a empresa que fabrica os chips vale mais que Facebook e Instagram juntos.

Martin Guerrieria, head do Kantar BrandZ, escreveu a frase que define o ano: “A batalha da IA generativa não será decidida por qual modelo é mais inteligente. Será decidida por qual marca as pessoas escolhem.”

O relatório mostra que o ChatGPT domina em brand equity nos EUA, França, Brasil e Índia. A maioria dos concorrentes — Claude, Gemini, Copilot, Perplexity — está agrupada na faixa baixa de diferenciação percebida. São intercambiáveis na cabeça do consumidor. O ChatGPT já virou marca. Os outros ainda são produtos.


As inversões que contam história

Zara ultrapassou Nike em vestuário. Mas a história é mais dramática do que a inversão sugere. A Nike não apenas foi ultrapassada, despencou. Caiu 17%, perdeu 18 posições (de 51º pra 69º). É queda ativa de valor, não estagnação. A Zara (66º, US$ 44 bi, +18%) agora é a marca de vestuário mais valiosa do mundo. A Adidas está logo atrás, em 4º no setor. O ranking de vestuário por inteiro caiu 5%, mas Zara cresceu. A categoria encolheu. A Zara expandiu dentro dela.

Hermès ultrapassou Louis Vuitton em luxo. Mesma dinâmica. A LV não apenas ficou pra trás, caiu 22% e perdeu 15 posições (de 17º pra 32º). A Chanel caiu 15%. A categoria luxo inteira recuou 8%. A Hermès (22º, US$ 113 bi, +3%) cresceu onde todo mundo caiu. O relatório explica: anos de aumento de preço criaram uma lacuna de confiança. O consumidor de luxo duvida que as marcas valem o que cobram. A exceção é a Hermès, que mantém escassez, craft e experiência de loja como prioridades em vez de expansão agressiva.

Instagram e Facebook separados no top 10. A Meta tem duas marcas entre as sete mais valiosas. Instagram em 7º (US$ 286 bi, +25%). Facebook em 6º (US$ 367 bi, +22%). Instagram crescendo mais rápido confirma onde está o momentum. Juntas valem US$ 653 bilhões.


América Latina, China e o resto

O Mercado Livre é a única marca latino-americana no ranking. 49º lugar, US$ 54,9 bilhões, +10%. O valor inclui Mercado Pago. Consolidou posição integrando marketplace, fintech e mídia de varejo. Nenhuma outra marca da região aparece nas 100 mais valiosas.

Marcas chinesas representam 23% do ranking. Tencent em 8º (US$ 252 bi, +45%). Alibaba em 19º (US$ 122 bi, +51%). Xiaomi estreou em 81º (US$ 32 bi, +48%). ICBC em 57º (+49%). O padrão chinês: velocidade de execução e capacidade de antecipar comportamento do consumidor.

No setor de álcool, Corona lidera como a cerveja mais valiosa do mundo no ranking de álcool. E o Brasil coloca duas marcas entre as 20 cervejas mais valiosas do planeta: Brahma em 9º e Skol em 12º. A AB InBev, que cobrimos intensamente nessa temporada de Copa — Stella, Budweiser, Brahma, Corona, Michelob Ultra — tem oito marcas no top 20 de álcool. O portfólio que opera na Copa com territórios distintos é o mesmo que domina o ranking de valor.

A categoria Media & Entertainment cresceu 40% — a maior alta entre todos os setores. Google, Facebook, Instagram, YouTube, Netflix e TikTok concentram valor no topo. O setor automotivo cresceu 14%, puxado por vendas de elétricos antecipando fim de créditos fiscais. O setor de álcool caiu 7%, pressionado pela moderação de consumo nos EUA e Europa.

Por que importa: O BrandZ 2026 é o primeiro ranking global que reflete o impacto completo da IA generativa no valor das empresas e o retrato tem dois lados. As marcas que cresceram mais rápido são as que integraram IA como capacidade central. As que mais caíram são as que vendiam serviços que a IA está commoditizando. A Kantar crava que “a batalha não será decidida por qual modelo é mais inteligente, mas por qual marca as pessoas escolhem”. É o argumento mais forte que o marketing pode usar pra justificar investimento em marca num mundo que parece dominado por tecnologia.

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