9 filmes de 2017 que você talvez não tenha visto (mas deveria)

Lista tem cinco filmes disponíveis na Netflix, destaques de festivais importantes e possíveis candidatos ao Oscar

por Virgílio Souza

Ao longo de 2017, o B9 cobriu mais de quarenta estreias com críticas individuais, entrevistou figuras como Andy Serkis, Luc Besson e Laurent Cantet em suas passagens pelo Brasil e acompanhou parte da seleção do Festival do Rio, com destaque para o novo filme de Guillermo Del Toro, “A Forma da Água”, que desembarca em fevereiro no país.

O ano marcou ainda a chegada do Cinemático, podcast em que Carlos Merigo, Matheus Fiore, Robson Bravo e eu — além de convidados especiais — discutimos os lançamentos semanais nos cinemas e plataformas de streaming. No ar desde maio, já colocamos em pauta 35 filmes e debatemos vários outros pelo caminho.

Ainda assim, decidimos trazer outros nove destaques que chegaram ao Brasil no período. Após cada comentário (sem spoilers), indicamos os caminhos para encontrar aqueles que estão disponíveis oficialmente. O conjunto é diverso e cheio de surpresas que passaram sem tanto alarde pelo apertado calendário nacional. Confira, monte sua programação e aproveite para deixar suas dicas nos comentários!

“Bom Comportamento”

Um dos principais sucessos de 2017 no cinema de ação, “Bom Comportamento” tem uma vibração bem particular. No conjunto, o filme dos irmãos Josh e Benny Safdie é tão intenso quanto qualquer clipe de trinta segundos retirado de contexto — uma característica que levou o ator Robert Pattinson a comparar a experiência de assistir ao longa a um ataque de pânico de quase duas horas de duração.

Decidida a assumir riscos, a dupla de diretores coloca seu protagonista, o imparável Connie, nas situações mais absurdas para garantir a segurança do irmão, Nick, vivido com realismo impressionante pelo mais novo dos Safdie. Uma história que começa com a fuga de um consultório psiquiátrico e um desastroso assalto a banco consegue tomar caminhos ainda mais arriscados, adotando soluções narrativas originais e criando um senso de imersão e adrenalina raro no panorama atual do cinema americano.

Tudo isso graças também à trilha sonora de Daniel Lopatin (que na carreira de música eletrônica assume o pseudônimo Oneohtrix Point Never) e ao movimento constante impresso na fotografia analógica de Sean Price Williams (do também ótimo e surpreendentemente contido “Marjorie Prime”, ainda sem lançamento nacional). Para encerrar, Iggy Pop ainda brilha com uma narração feita sob medida para a trama, dando voz às sensações que o longa havia comunicado por meio de imagens.

Com passagem breve pelos cinemas brasileiros entre outubro e novembro, mesmo após a repercussão positiva no Festival de Cannes e o buzz formado desde então, “Bom Comportamento” está disponível para aluguel e compra em diferentes plataformas. É razoável imaginar que o próximo projeto de seus realizadores, uma nova versão do sucesso oitentista “48 Horas”, faça ainda mais barulho quando for lançado.

 

“Na Praia à Noite Sozinha”

Hong Sang-soo é um veterano na lista. Lembrado em 2016 por “Certo Agora, Errado Antes”, ele agora aparece com “Na Praia à Noite Sozinha” — o único de seus três ótimos filmes deste ano lançado no circuito comercial brasileiro até o momento. Sua abordagem é geralmente simples, mantendo constantes certas dinâmicas de texto e de câmera enquanto acompanha os encontros de seus personagens. No fundo, porém, o diretor vem se entregando tanto a experimentações formais (inversões na estrutura da trama, cenas que se repetem com novos significados, segmentos divididos de maneira bastante particular) quanto a sentimentos cada vez mais intensos e encorpados (vários deles com forte carga autobiográfica).

Entre os elementos que permanecem no centro das atenções está Kim Min-hee. Aqui, ela interpreta uma atriz que vaga entre a Alemanha e a Coreia do Sul refletindo sobre seu relacionamento com um homem casado no país de origem. Bastante direta e responsável por levar o filme até terrenos pouco explorados anteriormente pelo cineasta, sua performance foi premiada no último Festival de Berlim. O filme, que estreou no início de outubro no Brasil, segue sem previsão de lançamento em outras plataformas.

 

“Uma Mulher Fantástica”

Outro trabalho com uma protagonista memorável exibido nas salas alemãs no início do ano, “Uma Mulher Fantástica” segue na disputa pelo Oscar de melhor longa estrangeiro como representante do Chile. A jovem Daniela Vega é dona de uma das performances mais magnéticas da temporada, ocupando com firmeza praticamente todos os planos do filme para transmitir emoções complexas e sempre genuínas. Ela interpreta Marina, uma mulher transexual que precisa enfrentar o preconceito da família de seu companheiro, Orlando, depois que ele morre subitamente.

O roteiro às vezes parece um pouco truncado, em especial nos trechos em que decide se afastar da realidade, mas a atriz (originalmente cantora lírica) logo retoma o controle, com tempo para entregar o plano final perfeito para sua trajetória. Comentamos com mais detalhes o filme de Sebastian Lelio na edição 19 do Cinemático, no início de setembro. O longa permaneceu em cartaz em pelo menos duas salas em São Paulo e no Rio de Janeiro até a última semana do ano, comprovando a acolhida do público.

 

“My Happy Family”

Tabus sociais também são parte essencial de “My Happy Family”, longa georgiano lançado no Festival de Sundance e recém-incluído no catálogo brasileiro da Netflix. Na trama, Manana (Ia Shugliashvili) gera reações acaloradas de todo lado quando opta pelo divórcio, deixando a casa em que vive com a família para levar uma vida independente em um apartamento num bairro afastado.

No início, o filme de Nana Ekvtimishvili, que co-dirige ao lado do alemão Simon Groß, tem força pela habilidade de transmitir o desconforto da personagem principal com o próprio cotidiano. A trama começa perto de seu aniversário, data que seus parentes fingem celebrar sem que a matriarca jamais seja o objeto de seus olhares ou preocupações — em certos trechos ela até se mantém isolada, fora de quadro.

Quando a realidade muda de figura é que a direção encontra seus melhores momentos, dando ênfase não apenas às consequências sociais externas à família (o lugar onde ela decide viver, os comentários dos vizinhos), como também às dinâmicas entre pessoas antes muito próximas (especialmente mães e filhas). O resultado é um retrato complexo que a direção engrandece pelo tom sincero de sua abordagem, interessada em usar os elementos do entorno para valorizar a construção da protagonista em vez de mantê-la perdida em meio a questões mais amplas.

 

“Columbus”

“Eu penso no cinema como a arte do tempo e na arquitetura como a arte do espaço”. A frase sintetiza as principais ideias que guiam a estreia na direção de longas do sul-coreano Kogonada, antes um aclamado vídeo-ensaísta com publicações na Criterion Collection e na revista Sight & Sound — seus trabalhos no formato podem ser encontrados aqui.

Também lançado em Sundance, “Columbus” estabelece uma relação clara entre forma e discurso desde o primeiro plano. A frieza e o distanciamento dos edifícios que aparecem meticulosamente compostos em tela, assim como os amplos espaços vazios entre os personagens e as estruturas que os abrigam, servem de representação para a maneira como o protagonista Jin interage com o mundo à sua volta. Estacionado em Indiana em função do estado de coma em que o pai se encontra, ele tenta se manter de pé enquanto ensaia conexões improváveis com outras pessoas.

John Cho, em ótimo papel dramático, é quem coloca as coisas em movimento mesmo quando todo plano fixo teima em se prolongar. Em determinado momento, o espectador mais inquieto pode implorar para se libertar dessas amarras, da rigidez do tripé e de tanta exatidão no modo de filmar, mas a paciência dá recompensas valiosas mais adiante. “Columbus” estreou no Brasil há três meses e segue indisponível oficialmente em outras plataformas no país.

 

“Era o Hotel Cambridge”

O filme dirigido por Eliane Caffé é um daqueles exemplos claros de obra capaz de abordar questões fundamentais da atualidade sem perder de vista a própria construção como cinema. A trama se desenrola num prédio da região central da cidade de São Paulo, onde refugiados estrangeiros e “refugiados brasileiros no Brasil”, como um personagem os define, lutam pelo direito a moradia e enfrentam uma ordem de despejo iminente. O elenco é composto de atores profissionais e habitantes daquele local, que se confundem pela naturalidade com que agem e são filmados, além da forma como suas tramas se enlaçam.

Há um senso de urgência marcante, sobretudo no ato inicial e quando a batalha em questão se aproxima do desfecho — violento e cruel, ainda que não definitivo. No segmento do meio, o destaque é o convívio nem sempre harmônico entre os moradores, que precisam conciliar perspectivas distintas sobre o mundo dentro de um cotidiano desgastante, fruto do completo abandono por parte dos órgãos responsáveis. Aqui e ali, porém, sobra espaço para momentos de ternura, nos quais personagens se conectam também por meio das diferenças e pelos meios dos quais dispõem.

“Era o Hotel Cambridge” foi lançado nos cinemas em março e agora faz parte da programação do Canal Brasil.

 

“Strong Island”

Seguindo entre os documentários, poucas produções dessa temporada devem ser tão poderosas quanto essa. O projeto é parte da vida pessoal de seu diretor, Yance Ford, há mais e 25 anos, e o ponto de partida não poderia ser mais trágico: a morte do irmão, William, em 1992. De modo a compreender como o sistema permitiu que um homem negro como ele fosse brutalmente assassinado por um sujeito branco, para em seguida falhar em promover qualquer sombra de justiça, o cineasta embarca em uma investigação sobre racismo institucional que extrapola o contexto social e atinge em cheio o coração de sua família.

Mais novo exemplo do olhar afiado da Netflix para filmes no formato, o documentário já foi citado no quadro “Qual é a Boa?” de um episódio passado do podcast. A capacidade de permanência da história de Ford, no entanto, obriga a segunda recomendação. No Oscar da categoria, “Strong Island” avançou à pré-lista de 15 títulos e continua no páreo pelo prêmio.

 

“Your Name”

Para os fãs de anime, “Your Name” não é um fenômeno tão recente assim. O longa de Makoto Shinkai tem sido destaque desde meados de 2016, quando começou a colecionar recordes de bilheteria em seu país natal — até que, na virada do ano, ultrapassou “A Viagem de Chihiro” e se tornou o filme japonês (não somente a animação) de maior arrecadação no planeta em todos os tempos.

O que se vê na tela é convencional em termos estéticos, mas fisga o espectador já nos primeiros minutos de projeção. Na trama, um rapaz e uma garota que vivem em cidades diferentes do Japão trocam de corpos e passam a se comunicar. A dinâmica entre eles pode parecer óbvia à primeira vista, mas a maneira como Shinkai adiciona camadas a esse vínculo formado da noite para o dia surpreende. Igualmente inesperadas, as viradas do roteiro ainda tratam de oferecer ao espectador vasto material para reflexão.

Deixe de lado as comparações constantes com produções do celebrado Studio Ghibli, sempre difíceis de corresponder, e encare sem medo: “Your Name” tem o pacote completo e está disponível na Netflix desde outubro.

 

“Jogo Perigoso”

De todas as adaptações de Stephen King produzidas para o cinema e a televisão nos últimos tempos, essa talvez seja uma das melhores e menos comentadas. Carla Gugino interpreta Jessie, uma mulher que tenta apimentar a relação com o marido (Bruce Greenwood) durante estadia em um casarão isolado, mas acaba em apuros, algemada à cabeceira da cama, depois que ele sofre um ataque cardíaco.

Quem dirige o thriller é o americano Mike Flanagan, nome em ascensão no campo do terror nos últimos anos graças a filmes como “Hush: A Morte Ouve” e “Ouija: Origem do Mal”. Ele tem sucesso ao articular os elementos de suspense psicológico e a história central de resistência física. Seus flashbacks causam estranhamento no início, muito porque o aspecto mais empolgante do longa é a superação desses obstáculos imediatos colocados diante da protagonista. No entanto, os desvios de rota se encaixam na proposta geral aos poucos e ajudam a construir uma experiência de suspense tão forte quanto os melhores exemplares recentes do gênero.

“Jogo Perigoso”, tradução do original “Gerald’s Game”, está disponível na Netflix.

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