Novo clipe de Charli XCX usa deepfakes como figurantes

Artista reverteu para o bem tecnologia antes popularizada (e achincalhada) por sua aplicação no pornô de celebridades

por Pedro Strazza

A cantora pop britânica Charli XCX lançou hoje no YouTube o clipe oficial de “1999”, canção saudosista dos anos 90 que ela interpreta junto do também cantor e youtuber australiano Troye Sivan. E entre as diversas homenagens que a artista faz a produtos e eventos culturais do fim dos anos 90 – que incluem reconstruções de cenas de filmes como “Titanic” e “Beleza Americana”, cenas de clipes do Eminem e até cosplay de Steve Jobs – a que ela faz às Spice Girls acaba se destacando pelo uso de uma tecnologia controversa: o deepfake.

Isso porque Charli e a equipe por trás do clipe resolveu usar dos algoritmos que permitem que você “cole” o rosto de uma pessoa no corpo de outra para fazer com que a cantora pudesse incorporar todo o celebrado quinteto pop em dois momentos do vídeo. A técnica, vale dizer, também foi usada para fazer com que Sivan interpretasse todos os Backstreet Boys de uma vez em “1999”. Confira acima.

Em entrevista ao The Verge, o chefe criativo do estúdio responsável pelo vídeo – o Pomp&Clout – e diretor do projeto Ryan Staake afirma que o uso da tecnologia se deu em parte por motivos práticos, pois por conta da agenda dos dois artistas não havia tempo para vesti-los e filmá-los individualmente como todos os integrantes dos dois grupos. “Foi uma solução pragmática, de certa forma. Mas depois começamos a brincar com a bizarrice e a estética da coisa.” diz o executivo; “Foi uma dessas coisas que são parte da diversão em ver como funciona. Tipo, será que dava para usarmos esta ferramenta de falso pornô de celebridade em um clipe musical legítimo?”.

Staake se refere, no caso, a toda a polêmica gerada em torno do deepfake no primeiro semestre deste ano, quando o algoritmo começou a ser usado intensamente para fabricação de falsa pornografia de celebridades. Além de diversas empresas como o PornHub e o Twitter instituírem a proibição da publicação destes vídeos em suas plataformas, o próprio Sindicato de Atores de Hollywood decidiu anunciar medidas para proteger seus profissionais de terem sua reputação manchada pela tecnologia.

Apesar de todo o uso negativo destes algoritmos, a Pomp&Clout decidiu mostrar que também é possível usar o deepfake para o bem, mesmo que numa proposta muito bobinha de recriar um grupo musical aposentado da forma mais tosca possível. Segundo Staake, ele e sua equipe pegaram uma programação bem básica da tecnologia em alguns fóruns do Reddit e apenas mexeram nela para melhorar a resolução e a edição das imagens. A parte mais chata, pelo visto, foi só criar diferentes rostos para cada um dos bailarinos, o que resultou no divertido processo de filmar o rosto de Charli XCX e Troye Sivan fazendo as caretas mais estranhas várias e várias vezes. Você pode conferir abaixo o antes e depois dos efeitos abaixo.

No mais, fique com o trauma de que agora não só tem gente com nostalgia do ano de 1999, mas também cantando sobre isso.

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