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Capa ilustrativa do programa sobre Acessibilidade

Transcrição Mamilos 58

Jornalismo de peito aberto

27.fev.2016

A transcrição do Mamilos 58 é fruto do trabalho voluntário de Robson Bravo, Jessica Correa, Vanessa Dante Santos, Thiago Alvarenga, Fernando Edson de Souza, Juliana Claudino, Ju Wallauer e Paulo Rená

A transcrição dessa semana começou apenas a partir da Teta, mas semana que vem já transcreveremos o programa inteiro. Críticas ou sugestões, podem ser enviadas para [email protected]

Participantes: Juliana Wallauer; Cris Bartis; Fernando Scalabrini; Katya Hemelrijk; Deputada Mara Gabrilli; Luiz Numeriano; Alexia

Início:
Juliana – Vamos falar de acessibilidade. Mas primeiro vamos apresentar quem que veio até aqui, numa quarta-feira chuvosa em São Paulo de caos, e que assim, muito, muito, muito se falou por essa pauta especifica de “gente, mas porque que vocês não abrem uma exceção e fazem por skype”. Era segunda-feira a noite e a gente procurando por pessoas que eram portadoras de deficiência, que falassem super bem, que estivessem em São Paulo e que pudessem vir na quarta-feira às nove da noite gravar presencialmente com a gente. Era uma missão impossível. Mas nada é impossível para os melhores ouvintes, que indicaram um monte de gente. E aí é aquela corrente do bem maravilhosa de pessoas que querem se ajudar; e querem ver a coisa pronta; e bem-feita; e levar informação pra todo mundo. Então a gente conseguiu, é importante agradecer muito ao Fernando Scalabrini que está aqui. Fernando, se apresente, por favor:
Quem você é? Daonde você vem? Do quê você se alimenta?

Fernando – Bom, obrigado, primeiro, pelo convite. Vim até aqui com o maior prazer. Eu sou Fernando Scalabrini, tenho 35 anos de idade, Sou pai de uma dupla dinâmica chamada Luca e Léo, hoje sou editor e host do podcast Papo Acessível e desenvolvedor gráfico de profissão, afastado, consultor em acessibilidade e tecnologias assistivas.

Juliana – Muito bem. É importante você falar que você é deficiente visual.

Fernando – Exato, sou deficiente visual com baixa visão. Eu brinco que não é baixa visão, já é “nano visão”.

Juliana – Muito bem. Quem também vai se apresentar agora é a Katya.

Katya – Oi, gente. Eu sou a Katya, sou cadeirante. Não tenho lesão, tenho um problema congênito chamado Osteogênese Imperfeita, que é mais conhecido como “ossos de vidro”. Eu brinco que esse ano eu estou fazendo trinta e nove anos extras, que os médicos me deram só um ano de vida, acho que eles erraram um pouquinho. Esse ano eu faço “quarentinha”, uma idade boa para a mulher, eu estou curtindo. Hoje eu sou coordenadora de comunicação de uma empresa de cosméticos, estou começando a carreira de palestrante e no que precisam da minha ajuda em consultoria de acessibilidade, as vezes pedem dicas, eu estou sempre a disposição para ajudar.

Juliana – Super a disposição, tanto que aceitou o convite às quatro e meia da tarde para vir gravar hoje a noite. Deixou tudo que ela tinha para fazer; filho; casa; marido; cachorro e veio gravar com a gente. Só pra ajudar todo mundo a entender melhor sobre esse assunto que é super importante.
Então vamos lá que a pauta é grande, Cris, sobre o que que a gente vai falar?

Cris – então, a gente organizou isso aqui com alguns estepes, e pensando um pouco nessa introdução e até no que ajudou a suscitar esse tema, a Luciana, uma usuária de Facebook, foi ao supermercado com o seu filho, que tem uma deficiência, chegando lá ela se surpreendeu que tinha um carrinho especial que permitia que ele fosse transportado com conforto ali durante as compras. Ela acabou tirando uma foto, ela postou a foto no supermercado concorrente, que é o Mambo, ela estava no Pão de Açúcar e postou na página no Mambo falando que ela costuma frequentá-lo e pedindo que eles comprassem um carrinho semelhante. E aí a história repercutiu pra caramba e a grande virada aconteceu porque o Mambo respondeu, disse que iria, sim, providenciar e que avisaria pra ela quando chegasse o carrinho, só que aí o mais bacana é que o Pão de Açúcar entrou na conversa, é concorrente, e ele se ofereceu para passar o contato do fornecedor para que o Mambo pudesse comprar o carrinho. Então foi uma conversa super produtiva, as pessoas ficaram tipo “ah, que bom que também servem para coisas boas, as redes sociais”, e ela escreveu falando:
Obrigada por todo apoio que recebemos. Só assim esse país vai pra frente, com cooperação e solidariedade. Meu filho nem pode mais comer, só algumas papinhas, pois, por causa da evolução da doença dele teve de fazer uma gastrostomia. Mas só de passear entre as gôndolas e ajudar a escolher frutas que conhece, ver pessoas, poder ser incluído num mundo onde ainda temos que aprender a apreciar as diferenças foi simplesmente maravilhoso. Com este ato de amor, de pensar no outro, eu espero que ele possa se espalhar por todos os cantos desse país. Isso se chama “empatia” e sem ela não podemos viver.

Juliana – Gente, parece que a gente roterizou isso para o programa, né? Está muito Mamileiro o texto dela. É muito bonito, porque geralmente o que você vê quando alguém coloca um pedido ou faz uma denuncia que, por exemplo, o lugar que eu frequento com meus amigos não está acessível, gostaria que fosse. Sempre tem respostas justificando, ou evasivas; ou ignoram, então ver publicamente, primeiro: se comprometer. Não tem explicação, não tem fuga, não tem nada, simplesmente “que legal, vamos providenciar. Você vai ser a primeira pessoa que eu vou avisar quando a gente providenciar” e mais legal ainda é o concorrente falar “olha, tá fechado, exclusivo, é o primeiro carrinho do Brasil que tem isso. Mas a gente vai te dar o contato para você também poder ter”. “Não é só meu, eu não quero que seja ‘olha como eu sou legal’ que só aqui você tem acessibilidade, não. Eu quero que em todos os lugares tenha.” e isso é muito legal.

Cris – E foi a gentileza que chamou muito a atenção e foi uma coisa super bacana. Mas quando a gente olha esse universo mais de fora, o que que a gente vê, Juliana?

Juliana – De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a gente tem aproximadamente quinze porcento de pessoas com deficiência na população global. Em um país com grande desigualdade como o Brasil o número acaba sendo um pouco maior em função do baixo acesso a saúde pública. Quinze porcento da população global são, aproximadamente, um bilhão de seres humanos. Então se estima que sejam quarenta e cinco milhões de pessoas com deficiência só no Brasil. E aí você fala assim “bom, se uma em cada sete pessoas tem deficiência, como é que a gente não vê essas pessoas na rua quando a gente vai trabalhar? Por quê que essa estatística não bate com a experiência que a gente tem? Por quê que a gente não convive? No lugar que a gente se encontra, a gente não encontra essas pessoas no trabalho; na rua; no bar; no restaurante; no cinema; por quê não encontra essas pessoas todas?”

Cris – Porquê a gente começa falando sobre oferta versus demanda, a gente não tem uma cidade, uma estrutura preparada para receber essas pessoas, nem na maioria dos lugares que a gente frequenta. Então o normativo acaba fugindo um pouco disso e aí essas pessoas acabam tendo limitado seu direito de ir e vir.

Juliana – Primeira pergunta para a Katya é:
Não tem rampa porque não tem cadeirante frequentando o restaurante ou não tem cadeirante frequentando restaurante porque não tem rampa?

Katya – Quem nasceu primeiro, né, o ovo ou a galinha? Na verdade, eu acho que a gente vem de uma sociedade e de uma cultura não-acessível. Então a gente não tem um histórico como os países de fora, europeus ou americanos que tiveram guerras e que tiveram que se adequar a isso antes da gente. A gente hoje luta por uma sociedade mais acessível, então as pessoas acabam fazendo pela lei, por passar por umas vergonhas desnecessárias quando passam por situações constrangedoras em restaurantes. Muitas vezes tem acesso, só que a porta de acesso tem uma gôndola de sorvetes da Kibon na frente. “oi, como é que eu vou entrar?”. Ah, mas tem o elevador. Sim, tem o elevador, a lei mandou, mas falta consciência. Eu acho que a gente está num processo de conscientização dessa cultura, de acessibilidade. Que é diferente da adaptação, a adaptação é aquela coisa “mambembe” que você põe aquela “rampinha rapel”, você pega a cordinha, puxa para conseguir subir e precisa de um atrás e um na frente para não capotar. Isso não é acessível, isso é adaptado e aí é a mesma coisa que subir degrau. Muitas vezes eu até prefiro subir degrau. É mais seguro, o degrau está lá, montadinho, inteiro, né?

Cris – Não vai cair, né?

Katya – Não vai sair, não vai escorregar, não vai sair do lugar. Então eu acho que essa cultura de acessibilidade é recente, infelizmente as coisas no Brasil acontecem por causa de uma lei, então a consequência é a conscientização. Então agora com um pouco mais de gente na rua, com um pouco mais de amostra dessa população que antes era restrita eu acho que os estabelecimentos comerciais vão começar a se adequar por um pouco mais de consciência.

Juliana – É, mas na pergunta surge também, deixe-me passar um pouco para o Fernando, por exemplo, o restaurante vai pensar o seguinte “porque eu vou fazer meu cardápio em Braille? Eu nunca recebi um cego aqui. Pra que?” parece uma dúvida cabível quando você é uma pessoa de negócios que tem recusos escassos e necessidades limitadas. “Então muitas coisas eu gostaria de fazer, mas não consigo fazer tudo, então vou priorizar. Como eu nunca tive um cego vindo aqui, eu não vou fazer o cardápio em Braille”.

Fernando – É, porque também existe uma cultura de que a pessoa com deficiência não é consumidora, né? Então sempre tem aquele estereótipo, vamos falar, do deficiente visual, o estereótipo do “ceguinho coitado com a canequinha na mão e ocúlos escuros”. Então aquele estereótipo não consome; não vai no restaurante; não faz; não acontece. Então tem esse problema do estereótipo numa cultura que já está encrostada nas pessoas e faz o cara pensar desse jeito.
Pra que que eu vou ter o cardápio em Braille?
Assim, eu quero chamar a atenção também de vocês falarem quarenta e cinco mihões de pessoas com deficiência no Brasil. São pessoas com algum tipo de deficiência, vou dar um exemplo do nosso podcast:
Nós temos cinco pessoas com deficiências diferentes. Todos visuais. Porém eu com uma “nano visão”, como eu brinquei. Uma baixa-visão que já não é mais prática. Tem um baixa-visão com vinte por cento da visão, que já não precisa mais de bengala. Tem um que é cego, outro que enxerga dez porcento, então é difícil. O que tem vinte porcento não precisa do cardápio em Braille. Eu, que tenho “nano visão”, não leio Braille. Então é difícil também você adaptar tudo isso por causa da cultura que se tem que, assim, “o cara não vai consumir, né?”. Você até pensa assim “se não vai consumir, pra que eu vou me esforçar?”. Só que assim, hoje, a tecnologia está aí pra ajudar muito mais do que só um cardápio em Braille. Porque não um Ipad? Porque Não um aplicativo? Porque não, sabe, muito mais coisas do que apenas ter um cardápio em Braille e tudo mais.

Juliana – Perfeito. Aí, pra tentar descobrir esse “ovo e a galinha”, quem que veio primeiro, pra tentar desamarrar esse nó. Um jeito que a gente tem é a gente começar a conversar sobre a diferença entre lesão e deficiência.

Fernando – Exato.

Juliana – E aí, Katya, fala um pouco pra gente. Porque até estudar para essa pauta eu nunca tinha escutado sobre isso. Qual a diferença de lesão e deficiência? Ou particularidade, característica, né? Porque você pode ter nascido, por exemplo, no seu caso, você não teve uma lesão. É uma característica sua, você nasceu assim.

Juliana – Qual a diferença entre lesão e deficiência? Ou particularidades, características, né, porque você pode ter nascido, por exemplo, no seu caso você não teve uma lesão, é uma característica sua, você nasceu assim.

Kátya Eu acho que assim, um lesionado ele passa a ser um deficiente físico a partir de um momento de ruptura na vida dele, né, então o lesionado teve um acidente, aconteceu alguma coisa que rompeu aquele momento, e que ele passa ali a viver ali uma outra realidade, tem deficientes físicos que nascem com a deficiência, então eu falo que e até mais fácil, né, me ponho no papel de que eu só conheço um lado da vida, eu aprendi a fazer tudo desse jeito, então talvez a minha percepção das coisas e da simplicidades das coisas que muitas vezes eu vejo, seja porque eu tenho um backstage de anos ali nesta situação, e eu não conheço um outro lado, então eu acho que a diferença entre a lesão e deficiência, a deficiência a gente tem milhares, a lesão e bem particular, e ai a gente precisa entender que tipo de lesão que a gente está falando, se ela é uma física, ou uma lesão social, mesmo, de entender que são consumidores, eu posso não enxergar, eu posso não ouvir, eu posso não andar, mas eu consumo, eu posso trabalhar, eu estudo, eu tenho opinião, então eu acho que independente de qual e a deficiência, e qual é a procedência dela, somos todos portadores de alguma necessidade especial, e ai como a gente estava conversando, pra mim a cadeira é uma extensão do meu corpo, então quando a minha cadeira risca eu quero morrer, é como se a minha roupa rasgasse, sabe (risos), e aí você fala “poxa…”

Fernando – e tem também a lesão temporária, basta você aí que está ouvindo quebrar uma perna pra você saber como que é, ter um pouquinho de uma experiência de um deficiente e tudo mais, então a lesão pode ser temporária também, e a deficiência que acaba sendo mais definitiva, ou definitiva até achar uma cura, então existe esse lado também.

Juliana – Eu queria falar a diferença que hoje assim, a gente vem de um paradoxo que é médico, já separar as pessoas e categorizar as pessoas de acordo com diferentes tipo de… então como você mesmo estava falando, tem 20% de visão, não tem visão, ou o outro surdo, ou ele é… então você vai separando as pessoas por condições medicas, então uma outra visão que a gente tem que e o modelo social de enxergar a deficiência como um modelo não medico, mais social, que é enxergar o seguinte: as pessoas podem ter lesões, ou características como: eu nasci com uma característica que eu não vou conseguir caminhar com as minhas pernas, eu preciso de uma cadeira de rodas, ou eu nasci com uma característica que eu não vou enxergar, ou não vou ouvir, mas isso não tem intrinsicamente em si, uma deficiência, porque eu vou conseguir, se o mundo estiver adaptado para isso, eu vou conseguir andar da mesma maneira, eu vou conseguir fazer todas as funções sociais que eu faria se eu visse, se eu andasse com as minhas pernas, enfim, é tudo uma questão de se o mundo esta adaptado pra isso ou não, então a deficiência não está em mim, a deficiência está na sociedade, está no ambiente. Eu tenho uma lesão, eu tenho uma característica, eu tenho o jeito que eu sou, se eu vou funcionar ou não depende menos de mim do que do ambiente que e oferecido pra mim.

Kátya Eu acho que hoje, a gente também não tinha um país tão velho, como a gente tá ficando, então os idosos são os futuros deficientes físicos, futuros portadores de uma mobilidade reduzida, e que consumiram e que estiveram ativamente na sociedade, que estudaram, que trabalharam, então se a sociedade estiver preparada para atender qualquer tipo de mobilidade reduzida, seja ela qual for, ela vai atender não só aqueles que nasceram com ela, aqueles que adquiriram no meio do caminho da vida, como aqueles que estão terminando a vida de uma forma um pouco mais saudável, um pouco mais viva.

Cris eu acho que todos nós em algum momento, ou no início, ou no final da vida, tem essa percepção de precisar de adequação pra atendimento. Quando você é criança, acontece isso também, você não alcança as coisas e tudo mais, você tem dificuldade de se locomover, e também quando você e muito idoso, então na verdade e muito estranho que a gente tenha isso no princípio e no meio da vida, e as pessoas que tem ao longo da vida inteira, gente, parece que a gente simplesmente esquece, rola sim um apagão durante a vida adulta e volta a precisar disso mais pro final da vida.

Fernando – Pelo o que vocês falaram, é correto, é certo, é muito bonito, mas o seu Zé que tem o boteco na esquina, ele precisa entender o que ele vai ganhar com isso, então a partir do momento que você tem uma forma de educar o seu Zé que tem o boteco, o seu Mario que tem a mercearia, o que ele vai ganhar com isso, ele se adapta.

Juliana – Então, mas o que eu acho é o seguinte, que é um pouco isso que a cris está trazendo; até hoje a gente não fez as coisas serem acessíveis, porque assim, se a gente der um passo atrás, o que você falou, que os outros países sao mais bem preparados, assim, independente na historia do mundo, a gente tem uma evolução no modo de enxergar a pessoas com deficiência, então assim, se antes a gente simplesmente eliminava, então, tribos primitivas e tal e você simplesmente eliminava, há pouquíssimo tempo, se teve uma nova maneira de lidar com isso que foi esconder, que a gente ainda está nessa fase, de esconder, deixa em casa

Fernando
– Bastante, aliás

Juliana – então é assim, deixa em casa, e ai por isso que o seu zé ao precisa fazer o boteco, porque as pessoas estão em casa e ele não está nem vendo que elas existem,

Fernando – exatamente

Juliana – e a gente muda pra esse modelo, que é de enxergar assim, gente, espera, só um pouquinho, não é que essas pessoas estão com defeitos, e que essas pessoas não são funcionais, e portanto são deficientes e por isso elas carecem de coisas para poder funcionar, a gente simplesmente enxerga que o mundo foi feito para um cidadão padrão, vai, que o tamanho médio de tudo, enfim, ele é uma média, que é uma média que a gente sabe que não existe, então o mundo foi conformado de uma tal maneira, que ninguém se encaixa 100%, 100% das vezes, né, e a gente ficava confortável de não adaptar para particularidades porque a gente pensava assim “gente, é uma minoria, né?”

Fernando – exato

Juliana – “Azar, né?” não vai dar pra todo mundo, paciência, né, a gente vai pegar 80% das pessoas nessa média aí, e o resto, gente, paciência, não deu pra vocês, a gente volta outra hora. Quando você percebe que essa minoria uma hora vai ser você, fatalmente, ou alguém que você gosta muito, ai o seu Zé passa a se preocupar, porque de verdade, ele não dá a mínima pra você, mas para a Lurdes, a filha da comadre, ele dá.

Fernando – Ah, com certeza

Juliana – e ele não quer a Lurdes lá, sabe, parada num canto, não sei o quê. A vida é melhor quando a gente pode todo mundo participar dela, né, pra todo mundo, que é uma conversa que a gente tem com o mamilos de que assim, a gente se submete a viver em sociedade, que tem um custo grande, pra gente, justamente para que não seja assim, quem corre mais que foge dos lobos e quem corre menos seja comido pelos lobos, a ideia de viver em sociedade, é que a gente justamente se adapte para todo mundo ficar protegido, né

Cris – é nessa evolução desse pensamento, que a gente entra com esse conceito do capacitismo, ou combate a isso, que é o preconceito contra pessoas com deficiência, a ju já tocou um pouco nisso, que é essas diferenças, então assim na verdade, a pessoa não esta com defeito, ela tem uma característica intrínseca, isso não faz dessa pessoa menos capaz numa série de outras coisas, então quando a gente fala sobre capacitismo, a gente está colocando em cheque a capacidade de alguém, e isso que acaba colocando essas pessoas nesse lugar de sombra, nesse lugar de guardado, porque a gente pré supõe que ela não será capaz.

Fernando – é, ela não deixa a pessoa incapaz, porém ela tem uma limitação. Eis uma grande diferença entre ter uma limitação e ser incapaz, uma grande diferença. Quando eu estava fazendo o curso de orientação e mobilidade, eu fiz o curso em 2009 com a professora Vera, eu fazendo o curso de orientação e mobilidade, andando na rua, peguei metrô, tal, em um dado momento eu virei pra ela e perguntei: “professora, algum deficiente que a senhora conheça (deficiente visual, tá?) ele é realmente independente, existe algum cego totalmente independente?”

Cris – tipo o Demolidor? (risos)

Fernando – Exato (risos) tipo o demolidor, quem dera, né? (risos) aí ela virou pra mim e disse: “meu filho, ontem eu tive que ir pra zona leste (a gente estava na zona norte) tive que ir na zona leste com o meu marido, você sabe quantas vezes ele parou pra perguntar no caminho?” e ai eu falei “não” e aí ela disse “no mínimo, cinco vezes, você acha mesmo que existe algum ser humano independente na face da terra?:
Cris – Ai, muito bom

Fernando – Não existe!

Juliana – Lógico! A gente vive o tempo inteiro, depende das habilidades um dos outros

Fernando – sem dúvidas

Juliana – para sobreviver, eu falo tipo, a torneira está pingando, tá dando vazamento na torneira, se não vier o encanador, acabou a sua casa, a casa do vizinho, a casa do… a gente não… a gente não tem todas as habilidades, né

Kátya – e eu acho assim, que todo mundo, tem algum tipo de redução de mobilidade, ou de deficiência, né, a nossa é a aparente, a nossa é um monstro, eu tenho uma cadeira, ele mostra que ele tem um aparelho, eu mostro que tem uma bengala, mas tem muita gente que a deficiência não é aparente, então a pessoa parece perfeitinha, mas ela é mais cega do que um cego, né, ela faz menos coisas que um cadeirante, então e porque que ela faz menos coisas que um cadeirante, porque ela sai menos? Porque ela se esconde? Então assim, eu acho que é um momento da gente refletir muito sobre isso sabe, o que é uma estrutura física, impede que as pessoas que estão com a cabeça boa, de querer sair e viver em uma sociedade normal, então eu tive muitos problemas para me entrosar com deficientes físicos, como geral, porque, eu falo isso, e eu falo com tristeza, porque assim, me fazia mal, eu ia conversar com as pessoas, elas me deixavam tristes, e aí quando eu descobri o teatro…

Kátya – Não, e eu acho que assim, todo mundo tem algum tipo de redução de mobilidade ou deficiência, né? A nossa é aparente.

Juliana – Sim

Fernando – Sim, sim.

Kátya – A nossa, eu mostro que tenho uma cadeira, ele mostra que ele tem um aparelho, ou mostra que tem uma bengala.

Fernando – Exato.

Kátya – Mas tem muita gente que a deficiência não é aparente, né?

Fernando – Exatamente!

Kátya – Então a pessoa parece perfeitinha, mas ela é mais cega do que um cego. Ela faz menos coisas que um cadeirante.

Fernando – Sim, sim…

Kátya – E por que que ela faz menos coisas? Por que que ela sai menos? Por que ela se esconde?!! Então assim, eu acho que é o momento da gente refletir muito sobre isso, sabe? O que que uma estrutura física impede das pessoas que estão com a cabeça boa, né?

Juliana – Sim

Kátya – De querer sair viver numa sociedade normal. Então, eu tive muito problema pra me entrosar com deficientes físicos no geral, e eu falo isso e falo com tristeza, porque assim, me fazia mal. Eu ia, conversava com as pessoas e elas me deixavam tristes. E íam, quando eu descobri o teatro, há treze anos atrás onde eu conhecia a Tábata e aí eu falei, bom, quem quer subir no palco pelo menos tá com a cabeça boa, né?

(Risos)

Kátya – Tá a fim de querer botar aquilo pra fora, sabe? E foi lá que eu encontrei um grupo …. sensacional. E eu falei, olha como tem pessoas e pessoas em condições …em todas as condições, né? Então, não é porque é cadeirante que é tadinho…
Fernando: Exato.

Kátya – … que não pode, que é incapaz. Ou porque é cego que…Ô, judiação, que não vai conseguir atravessar a rua.Não!!!

Fernando – Exatamente!

Kátya – É a mesma coisa, ele falou, o meu marido…se ele sair daqui pra ir até a zona leste, ele não pergunta porque ele é orgulhoso…
(Risos)

Juliana – É, eu achei estranho esse homem!

(Risos)

Juliana – Achei um pouco estranho esse homem…. (Risos)

Kátya – Não pergunta! Mas, viva o waze!!!

(Risos)

Kátya – Porque … é o aplicativo, né? Porque assim, ele vai se perder mais do que um cego que sabe o caminho.

Fernando – Sim, sim.

Juliana – Sim

Kátya – Então assim, é muito do ponto de vista.E do meio em que você está envolvido, né? Então, eu como cresci com uma mãe super… “vai, se vira nega que você tem de de ir pra vida”, eu fiquei super independente. Agora, se ela tivesse falado “tadinha da minha filha, tem ossos de vidro, vai quebrar!, não vou fazer nada, põe na gôndola!”

(Risos)

Cris – E nós mães já somos assim com os filhos ( )

Fernando – Era isso que eu ia falar!

(Risos)

Kátya – Pois é!!

(Risos)

Fernando – Era isso que eu ia falar! Porque você já tem assim… eu sou pai de dois filhos, né? Dois moleques … você já tem a tendência a colocar seus filhos numa bolha. Aí você imagina se um dos seus filhos tem uma deficiência? Então essa bolha ela se dobra! A tendência é colocar ainda mais na bolha. Só que quanto mais você coloca na bolha, pior você faz pro pra criança, adolescente, pro adulto e tudo mais. Então o que a Katya falou agora dos cadeirantes, que ela frequentava e a deixava triste acontece também com os cegos. E assim, eu vou fazer uma crítica aqui. Me perdoem a crítica, mas muitas instituições fazem com que o cego vire coitadinho. Por quê? Porque é o almoço na instituição pra falar especificamente, somente, da deficiência, do que acontece, quando acontece. Tratando o cego, o cego adulto, estou dizendo, como uma criança, né? Como incapaz, como a gente estava falando agora.

Juliana – É a medicalização. É reduzir o indivíduo à sua condição médica.

Fernando – Exatamente! Só se trata disso

Juliana – É não enxergar ele como uma pessoa, por isso pessoa com deficiência. A pessoa vem na frente. Ela é uma pessoa antes de tudo!

Fernando – Exatamente!

Juliana – E aí assim… a gente estava conversando um pouquinho antes de gravar e eu queria que você falasse no ar… Cego é tudo bonzinho? É tudo santo?

(Risos)

Fernando – De jeito nenhum!

Juliana – Porque parece que a deficiência santifica já, né? < ironia >

(Risos)

Fernando – Olha eu conheço…

Juliana – É só boa gente? Não tem um mal caráter? Não tem? < ironia >

Fernando – Então…

Juliana – Ficou cego já melhora o caráter na hora? < ironia >

Fernando – É igual velhinho, né?

(Risos)

Fernando – Você vê um velhinho você já fala “ai que bonzinho!”….

(Risos)

Fernando – Pode ser o maior filho da puta…. Mas é um bonzinho!

(Risos)

Juliana – Mas ele é mal caráter por ser cego ou ele é mal caráter por ser uma pessoa mal caráter e não tem nada a ver com a deficiência dele?

Kátya – Normalmente não tem nada, né?

(Risos)

Fernando – Nada a ver, nada a ver (Risos). Ele é mal caráter porque ele é uma pessoa, ele é um ser humano e isso está intrínseco nele.

Juliana – (Risos) Tá vendo? Ele é uma pessoa!

Cris – O que eu percebo é que quando se chega à uma definição mesmo de deficiência e ela é irreversível, de ter essa limitação, geralmente, só tem duas caixinhas. Ou o cara é o coitado, ou o cara é o herói.

Fernando – isso!! Ou é o Demolidor…

(Risos)

Fernando – … Ou é o coitadinho, né?

Cris – Só tem duas caixinhas, né? A Juliana até colocou “é a pessoa com deficiência” . Tirou o “pessoa” fica só isso, e cabe essas duas caixinhas. Eu queria que vocês falassem um pouquinho disso. Desse mito do herói também, né? Eu acho que o primeiro é o coitadinho. Pensou no cego, pensou no cara com o óculinhos e com o negocinho pedindo ajuda…

Fernando – …É, canequinha…

Cris – É… pensou na pessoa ali, tadinha, está na rua e aí você já coloca ela nessa caixinha, né? O que acaba enfatizando uma coisa muito ruim, né? Um estereótipo muito …limitando horrores.

Juliana – Diminuindo, né? Limitando demais.

Fernando – É. Infelizmente, é isso mesmo. Eu costumo brincar que eu só tenho uma deficiência visual. Só isso, não tem nada além disso.É o caso da Katya também. Só tem uma deficiência. Acabou, não tem nada atém disso. Então, o que você falou é muito real. Ou o cara é um coitado, é uma criança que você… sei lá … Vocês já devem ter ouvido Geraldo Magela brincar com isso, o que é verdade. Você entra, sei lá… num consultório dentário, aí vem a secretaria < imitando voz de criança > “Oi, tudo bem? Você quer uma aguínha? ”

(Risos)

Cris – Tudo no diminutivo!

(Risos)

Kátya – E quando passa a mão na sua cabeça?!!!

(Risos – todos falam ao mesmo tempo)

Fernando – Ai, caramba….

Cris – Que ódio! (Risos)

Fernando – Aí vira pra quem está com você e fala assim : “Tão bonito, né? “. Pô, mas se eu fosse feio não ia ser deficiente?

Cris – Já não basta ser deficiente você ainda quer que eu seja feio?

Fernando – Exatamente.

(Risos)

Juliana – Mas você sabe que teve um dos nosso maiores escritores que fez isso, né? Ele falou… o Machado de Assis, ele falou “Por que côxa se bela e por que bela se côxa? “

(Risos)

Juliana – Então isso já vem de muito tempo atrás … “Tão bonito, que judiaria ser cego, né? …”

Fernando – Exatamente! Ou vira-se isso, ou o cara começa a se destacar… Eu vou citar um que se destaca bastante que u gosto muito dele que chama Lucas Radaelli. Ele tá no Google, é engenheiro de software e tudo mais. Então assim… “Ow…sério mesmo que o cego pode fazer isso?! O cara é engenheiro de software?!! Como que pode?!!! “

(Risos)

Fernando – Aí esse vira o herói. Ou ele é o coitado ou ele é o herói.

Juliana – Qual é problema Katya, dessa… por que que é um preconceito essa aproximação com herói?

Kátya – Pela nossa parte?

Juliana – Sim. Por que isso ofende? Por que isso é ruim?

Kátya – Eu acho que a gente não se ofende, na verdade a gente quer se igualar, né? A gente quer viver com igualdade.

Juliana – Mas é por isso que ofende…

Kátya – E aí eu não sou… herói do quê? !!!Ou as pessoas olham não pra você, olham pra, normalmente, quem está te acompanhando “É um exemplo, né, de superação? Ai, tão pequenininha e tão forte…”

Fernando – É …exatamente

(Risos)

Juliana – Hello, eu estou aqui! < ironia >

Kátya – Aí… primeiro, fala comigo, né? E depois, parece que você não está lá, eu sou casada com um não cadeirante, meu marido não é cadeirante.

Fernando – Puxa, mas como é que pode isso?!! < ironia >

(Risos)

Kátya – Como é que pode?! < ironia >

(Risos)

Kátya – COMO?!!!

(Risos)

Kátya – “É sue irmão?” Não.” É seu primo? “ Não. “É seu amigo?” Não, é meu marido! < ironia >

Juliana – Tenta primeiro a resposta mais fácil, né?

(Risos)

Kátya – E eu ainda tenho dois filhos!

Cris – E olha pra você e diz “Meninaaaa, você é terrível, heim?! “

(Risos)

Fernando – É. Exato!

Kátya – A gente foi num casamento uma vez, e isso marcou muito, a gente estava no casamento e era de uma pessoa que trabalhava com meu marido. E uma das meninas que trabalhava com ele chegou e falou assim “Até ela conseguiu casar! “
< espanto>

Kátya – Na minha frente!!
< espanto>

Katya : Sou sortuda, né? Consegui casar!! < ironia >
(Risos)

Cris – Eu acho que você deveria ter falado com ela “Por isso, né gata?

Kátya – Você não conseguiu exatamente por isso… < ironia >
(Risos)

Juliana – Ai que vergonha pela pessoa… gente do céu!

Kátya – Então eu acho que isso da gente ser uma superação incomoda porque a gente que ter uma vida normal.

Fernando – Exato.

Kátya – Então, quando eu resolvi ter filhos e eu não quis arriscar porque meu problema é biológico-congênito e eu resolvi adotar, era uma coisa muito resolvida na minha cabeça. E aí, eu falei…bom, se o cara um dia quiser ficar comigo ele vai ter de entender essa situação e quando eu conheci o Ricardo e sempre fui muito aberta e sempre falei muito claro isso com ele, ele falou pra mim que pai é quem cuida, é quem cria, não é quem põe no mundo.

Fernando – Sim.

Kátya – Então quando sai, eu uma cadeirante, pequenininha, tortinha e gordinha, meu marido loiro de olho azul, verde..né? Alto… e dois filhos negros… É a família Allien passeando no shopping.

(Risos)

Fernando – É, sim, chama atenção.

Kátya – Né? E as pessoas ficam também.. “Ai, é seu filho?!!! Parabéns, viu? “ E eu fico “Oi? Por quê?”

Cris – É… vira Cavaleiros Templários…

Juliana – Isso é outro capítulo….

Fernando – Isso….

Cris – A pessoa olha pra você como se você fosse um ser sobrenatural…

Kátya – …Sobrenatural… < concordando>

Cris – E isso também incomoda muito.

Fernando – Exatamente. Quando você vira pra uma pessoa e fala assim “Olha eu tenho um podcast”, “A você tem um podcast? Legal” , “Eu vou editar o podcast.” “Hã?!!! Como que é? Você edita? Mas como você edita um podcast?”< espanto > “Ué, como todo mundo edita! “ “Mas como você faz? “…. Assim, tudo bem, existe a curiosidade, que é normal, que é natural. Mas existe também aquele negócio da surpresa por você conseguir fazer isso… é o que mata. É isso que mata, sabe? “ Como pode um cego fazer isso?!!! “< ironia >. Então não é só a curiosidade de ah, como você faz, como você não faz… não…é a surpresa. “Nossa! O cara é advogado! Meu Deus, como ele conseguiu?!!”< ironia > Isso que é foda, entendeu?

Juliana – O que eu acho que é mais complicado desse paradoxo do herói, também é que assim, quando eu te chamo de herói por fazer coisas simples, que são de funcionar na sociedade, né? O que eu estou querendo dizer? A sociedade não foi feita pensando em você, você é um herói porque você consegue viver nela mesmo assim, e eu paro por aí. Ou seja, eu não vou fazer a sociedade te atender. Entendeu? Porque, pô, você é herói, né?

Fernando – Exato.

Juliana – Você consegue, né? < ironia >

Fernando – Você supera, né? < ironia >

Juliana – A gente não precisa mudar nada, não é mesmo? < ironia >

Fernando – Aliás, você falou disso e me lembrou de Joseph Climber, né?

(Risos)

Juliana – Exatamente.Não precisa mudar a realidade, a gente só tem heróis.

Fernando – O cara se adapta, né? No fim ele virou um pedaço de papel e se adaptou, né?
(Risos)

Cris – Exatamente. E aí a gente entra em mais uma etapa da discussão que a gente falou aqui, sobre esses mitos. E a gente começa entra também na forma de trata esse assunto. O assistencialismo versus a acessibilidade. Até pra gente entender que são duas caixas, o que funciona e o que não funciona nisso.

Juliana – Porque é mais ou menos o que o Fernando estava falando, que é a questão que ele tem com as entidades, de que quais sejam as pessoas com deficiência, que vão, ao invés de tentar enxergar aqui…olha, vocês têm essas particularidades, cada um tem a sua, e a sociedade tem de ser feito a pra que todo mundo possa conviver e todo mundo possa ter acesso às coisas. É diferente de você falar de assistencialismo, que é falar que a gente precisa de ajuda, né?
Thiago Alvarenga – 41:00-50:59

Cris Bartis: Vamos ouvir!

Deputada Mara Gabrilli: É até importante que haja conscientização, mas a acessibilidade é um direito. E é um direito de todas as pessoas porque um dia todos seremos idosos e com certeza a gente quer envelhecer com dignidade, poder frequentar os lugares, poder ir e vir com autonomia e segurança. Então quando a gente fala de acessibilidade, estamos falando de um direito da população, que infelizmente durante muito tempo não se contemplou e não se fez a acessibilidade como deveria ser feito. É uma coisa que já deveria existir para todos, não se trata de um direito da pessoa com deficiência é um direito da população em geral, porque todo mundo está sujeito a ter uma mobilidade reduzida, a de repente ter uma audição reduzida, uma visão reduzida ou mesmo uma forma de raciocinar mais lenta. E é pra todas as pessoas que se faz a acessibilidade.
Se a gente tem a acessibilidade, se a gente tem um desenho universal, que é um conceito que contempla uma diversidade humana, seja numa edificação, seja num serviço, seja num produto. A gente está fazendo com que toda a população tenha mais conforto, mais autonomia e mais segurança, nos serviços, nos produtos e nas edificações.

Juliana Wallauer – Fala um pouquinho sobre a lei da acessibilidade pra gente Mara…

Deputada Mara Gabrilli – Olha, até 2014, o que a gente tinha eram algumas legislações. E tinha um decreto federal conhecido como “o decreto da acessibilidade”, que garante a acessibilidade nos imóveis, no transporte, acessibilidade de várias formas. Porém, como era decreto, e decreto não se pune, não tem multa, não tem autuação, e o que aconteceu foi que a partir do dia dois de janeiro deste ano entrou em vigor a Lei brasileira de inclusão (LBI – Lei 13.146/15) que eu tive a honra de ser a relatora e que trouxe 150 artigos que garantem direitos as pessoas com deficiência. Algo que é muito diferente de um assistencialismo, porque o assistencialismo curiosamente é você oferecer para aquele que não tem capacidade, e na verdade a acessibilidade significa você oferecer a possibilidade de qualquer pessoa exercer a cidadania.
Então agora com a Lei brasileira de inclusão a gente tem direito na educação, no trabalho, no esporte, na cultura, na saúde, no transporte e na infraestrutura urbana e direito a pesquisa científica e várias questões que farão com que haja essa mudança de visão, essa conscientização que você mesma mencionou, então na verdade é a legislação vindo para agregar e para impulsionar a conscientização. Um dia teremos acessibilidade e ninguém vai reparar que aquela acessibilidade foi feita porque passará a ser parte do universo de todas as pessoas.

Juliana – Isso hoje está na lei? Isso já é um direito? Pois quando andamos na rua, a gente não vê esse universo que você descreveu. O que é isso? Existe um prazo para os estabelecimentos comerciais e os órgãos públicos se adaptarem? Como funciona isso?

Deputada Mara Gabrilli: Isso já estava na legislação, já estava no nosso decreto federal. Em 2008, expirou o prazo de edificações públicas e privadas no Brasil, de fazerem a acessibilidade, mas não tinha autuação e a partir de agora com o a Lei brasileira de inclusão quem não fizer vai pagar por isso, e mais, na lei brasileira de inclusão, aconteceu uma mudança da legislação de calçadas do Brasil inteiro, de todos os municípios. O que vai acontecer agora, o poder público tem que se responsabilizar, tem que liberar o processo e os prefeitos deverão apresentar cronograma de adequação de calçadas. E se não cumprir, isso vai tipificar improbidade administrativa. Acho que vai ser a primeira vez no Brasil que o próprio poder público será punido se não fizer calçada, e isso é uma forma de fazer uma transformação nesse país afinal de contas é a via pública do pedestre que diz respeito a toda população, não só para aqueles que têm algum tipo de deficiência. E une um serviço a outro, tem que ter sinergia nos embarques de transporte. A lei entrou em vigor em janeiro, então pouco a pouco, a gente vai começar a ver essa mudança acontecer.

Juliana – Para a gente entrar nessa conversa sobre acessibilidade, a primeira coisa que precisamos conversar, antes de ter estrutura arquitetônica pronta, o que a gente precisa é ter pessoas prontas. Então vamos falar um pouquinho sobre como as pessoas podem se preparar para essa convivência, como a gente estava “segregado”, como estávamos “escondidos”, “separados”, a gente ainda não sabe muito bem como conviver. Então a gente tem duas entrevistas para fazer, vou chamar primeiro a Alexia, ela vai se apresentar e vai falar um pouco pra vocês sobre como a gente pode se relacionar com pessoas que tem deficiência auditiva.

Alexia: Olá, eu sou Alexia, tenho 21 anos, estudo áudio e dou aula e tenho perda auditiva bilateral progressiva. A questão da convivência com as pessoas que tem algum grau de perda auditiva é uma questão bastante complicada porque depende muito do tipo de perda auditiva. Mas uma das coisas que acabam incomodando a questão da acessibilidade, por exemplo, é a questão do compartilhamento de vídeos que não existem legendas nesses materiais todos. Inclusive existe uma teoria que em 99% desses tipos de mídia não temos legenda. A outra questão é que as pessoas em ambientes sociais elas não tendem a manter um contato visual com deficientes auditivos e isso é uma coisa muito importante para a gente saber se a pessoa está falando com a gente ou não. Outra coisa que complica bastante é quando as pessoas mudam a forma de falar, achando que a gente precisa de movimentos lentos da boca ou voz muito alta, talvez esse não seja o caso. A gente precisa que a pessoa fale de uma forma mais normal. Na sala de aula tem a questão de os professores falarem muito de frente para lousa, ou seja, de costas para os alunos, isso é um problema bastante grave da acessibilidade por conta da questão de você não ter visibilidade dos lábios do professor e de você não ter condições de ouvir bem o professor. Outra questão também é que muita gente ignora a existência da perda auditiva, por exemplo, comigo as pessoas partem do princípio que está tudo bem comigo e que não precisa fazer nada, só pelo fato de eu conseguir falar e ouvir relativamente bem.

Juliana – A segunda pergunta é como a gente pode fazer quando a gente encontra uma pessoa com deficiência auditiva, como que a gente pode fazer nessa primeira abordagem.

Alexia: Depende muito da situação que você encontra, por exemplo, eu só estou usando o computador e eu não tenho visibilidade no meu ambiente o ideal é, por exemplo, você apagar as luzes e fazer um pisca-pisca com a luz para sinalizar que tem alguém no ambiente ou então tocar de uma forma bem suave, pois a pessoa com deficiência costuma ter uma sensibilidade um pouco maior em relação ao toque, consegue se assustar com esses toques inesperados. Numa situação de rua, a gente tem sempre que manter contato visual e de preferência evitar gestos ou mão na frente da boca porque primeiro você não sabe se a pessoa lê lábios e segundo você não vai saber o quão bem ela ouve. Acho que esses são os assuntos mais importantes de como você pode abordar uma pessoa. E tem mais uma questão que eu já comentei, da fala, muitas pessoas quando veem que elas estão conversando com uma pessoa deficiente auditiva, elas tendem justamente a mudar a forma da fala e fazem um movimento muito mais aberto, o que não são movimentos naturais, ou elas falam muito mais alto, o que acaba alterando também a fala, o entendimento delas, ou então, com alguma luz forte atrás delas que dificulta nossa visibilidade do rosto.
Então, essencialmente é isso, você ter um bom contato visual, tomar cuidado para não assustar a pessoa e ter uma boa visibilidade dos lábios, do rosto, porque a gente costuma ser muito visual, tendo uma boa visibilidade do rosto a gente sabe se a pessoa está estressada, preocupada, porque a gente não vai conseguir diferenciar essa pequena nuance na voz que indica se alguém está estressado, preocupado, chorando, essa coisa toda… O básico seria isso, existem outras coisas também, mas quando você é bem mais amigo dessa pessoa e você entende melhor o quadro de perda auditiva dela.

Cris Bartis : Agora a gente vai ouvir um pouquinho do Luiz que é uma pessoa pequena, e ele vai conversar um pouco sobre a etiqueta e o dia-a-dia das pessoas que tem essa deficiência.

Luiz Numeriano: Meu nome é Luiz Numeriano, eu sou anão há trinta anos (risos), dou palestra e sou formado pela Escola de circo de São Paulo, tenho quatro anos de escola de circo, sou instrutor de rapel, paraquedista, sou técnico em segurança do trabalho e hoje trabalho como bancário. Represento a Associação Gente Pequena do Brasil e os grupos Acondroplasia Sem Preconceito e Acondroplasia, no Face; o Acondro, no WhatsApp. Totalizando mais de 800 anões dentro desses grupos. Bom, esse sou eu.

Juliana – Muito bem! Luiz, a pergunta que eu vou te fazer é: Qual é a maior dificuldade que os anões encontram no relacionamento com as pessoas?

Luiz: Ser levado a sério!
O Nanismo sempre esteve associado historicamente ao humor, à graça, e as pessoas se mantiveram apenas nesse link. Anão é muito mais do que isso. Ser anão é ter que encarar todo esse humor e virar ele a meu favor. Ser anão é ter que entender que a sociedade vai em achar engraçado e eu preciso ser levado a sério acima disso. Essas são nossas maiores dificuldades.
Além de programas de humor que enfatizam essa característica, esses tem sido nossos problemas sociais. Nós somos anões mas somos advogados, nós somos anões mas somos médicos, nós somos anões mas somos bancários, técnicos de segurança, engenheiros e isso é esquecido por que primeiro nós somos anões pra depois ser isso.

Juliana – Perfeito. Me fala um pouco sobre etiqueta, digamos assim, social. O que é muito chato de perguntar, o que a gente deve evitar fazer e como que a gente deveria se aproximar quando a gente conversa com um anão?

Luiz: Vamos lá! Isso é muito delicado. Por que? Me vem a cabeça mundo, e isso é muito complexo. Hoje, em outros países do mundo, usam a expressão pra falar anão. Nos EUA usam o little people, o México e a Espanha (os países de língua espanhola) estão usando tala baja, mas, anão ainda no Brasil é pejorativo.
Nossa grande dificuldade é que ao falar com a gente as pessoas não nos identificam como profissionais, e isso é uma gafe. As pessoas vão falar sempre com um gracejo, com uma piada, com uma gracinha.
Bom, aceito situações e acho até legal citar, de chegar num lugar, eu era professor de segurança do trabalho de um curso, e meus alunos estarem la na sala e não saberem que eu era o professor. E eu conversando com eles, de repente uma menina interrompe e diz: cadê o professor que não chega? Ai ela repete, e eu pergunto: como assim? Ela pergunta: O professor não vem, não? Ai eu falo: gente, deixa eu explicar, eu sou o professor.
Bom, a maior gafe está em tratar-nos como se fossemos crianças, como se fossemos infantilizados. Como se fossemos a quem das posições que ocupamos. Cada pequena tem uma característica. Tem os pequenos que não gostam de ser tratados como anões e outros que usaram o anão como uma marca. Então, é muito sutil isso, por que cada cabeça você tem uma pensamento distinto. É muito delicado. Eu sou um educador, então se uma pessoa vier me perguntar, eu irei responder, mas existem meios e meios de fazer essa pergunta. Um cara uma vez chegou pra mim e perguntou se eu era pequinês. Eu expliquei que pequinês era raça de cachorro. Ai ele disse: Então, você é daquela raça nanica. Eu disse: isso é banana. Eu sou anão. Eu possuo nanismo.

Juliana – Perfeito.

Luiz: A você é portador. Não, eu não porto nanismo, se eu pudesse eu deixava ele em casa, mas eu tenho que trazer ele comigo eu sou um anão. Eu tenho nanismo, eu sou uma pessoa com nanismo.
Então, politicamente correto é o obvio muitas vezes. Mas ele protege o meio social, ele protege a minha posição social, minha colocação em meio a sociedade e eu a quero. Eu quero que a sociedade entenda que além de ser engraçado, eu sou mais do que isso.
Então se você me diz: sobre piada. As pessoas devem achar que nós somos surdos, por que eu acabo de passar e a pessoa faz uma piada atrás de mim. Somos anões, mas não somos surdos. Não somos credos mas percebemos a situação. Isso é muito delicado.
A NBR 9050 que regulariza os espaços públicos dentro do Brasil, de espaço acessível, mas não me enxerga.

Juliana – Porque não te enxerga?

Luiz: Ela não é citada para nós. A gente usa banheiro como cadeirante. Lembrando que cadeirante tem braços compridos, nós não. Então muitas vezes eles abaixam a pia, mas não tem proximidade, eu não alcanço. Eu estou cansado de ter que subir em caixa eletrônico para poder apertar, e ser repreendido por segurança por que eu estou agindo errado. Ai a sociedade me vê errado por que eu subi no caixa eletrônico? Mas a culpa é minha que preciso subir para usar? Ou a culpa é dos bancos que não fizeram me enxergando?
Acham que eu me adaptar ao ambiente é correto, não que eu não seja contribuinte daquele espaço, não que eu estou pagando, por que o supermercado não está me fazendo um favor de me dar o acesso. Eu estou pagando. Eu sou tão cliente quanto os outros!

Juliana – Agora, Kátia, fala um pouco pra mim sobre etiquetas de como lidar com cadeirante? (risos) Tipo, o que não fazer por exemplo, como sair dando dicas de cardápio e nutricionista quando só eu só queria uma ajuda para servir o meu prato, por exemplo. (risos)

Kátya – Olha, tem coisas que são muito comuns, né? Acho que a primeira coisa, co qualquer um, seja com cadeirante ou não, é naturalidade. Então, perguntar se ok, se não ok, se precisa de ajuda ou se não precisa. E entender que se você falar não, não é uma ofensa. Por que muitas vezes você não precisa de ajuda, e que se sim, como ela pode te ajudar, por que as pessoas na super boa vontade tentam te ajudar e acabam “causando”. Eu falo que tudo que a gente faz devagar da tempo de consertar no caminho. Vai me ajudar a subir um degrau, eu falo: devagar, vamos lá! (risos) Tem que pedir por que se não eles acham que já são ninjas na cadeira. Homem então tem uma vontade de pilotar alguma coisa! (risos) E sai correndo com a cadeira. Eu falo: então moço, vai devagar, só um pouquinho porque o chão não é muito liso, a gente vai trupicar. Então eu acho que isso é uma coisa, perguntar é a melhor forma.

Juliana – Não inserir que você precisa de ajuda o tempo inteiro. Te dar o direito de autonomia e não ficar ofendido pelo fato de você não querer ajuda por que você gosta de ser autônomo, por que todo mundo gosta. E quando ajudar, perguntar: como você quer ajuda?

Kátya – Eu acho que isso traz um diálogo muito saudável, por que acabam que as pessoas se habituam a tratar as pessoas que tem alguma necessidade de uma forma natural. Mas acontece né? Tenho amigas, que somos super intimas, que penduram a bolsa na minha cadeira e quando eu vou andar com a cadeira ela trava. (risos)
Ai eu falo: quem foi dessa vez? (em tom de brincadeira) Ai ela olha: Desculpa, desculpa! Fui só pegar uma bebidinha. Elas já sabem até que elas estão erradas, mas é uma escolha, mais prático, esta ali, esta pronto. As vezes você está parado num lugar e começa a andar sozinho, ai olha pra trás tem uma pessoa apoiada na sua cadeira. E você fala:entao, vamos cair nós dois daqui a pouco né? (risos)

Juliana – Amigo, a minha cadeira sou eu, no caso. Você estaria apoiado em mim? Não né!?

Kátya – Ou quando você está andando no seu ritmo, devagar, e ai vem uma pessoa e resolve te ajudar pra você ir mais rápido. E começa a andar mais rápido, quando olha para trás tem alguém te empurrando. Aí você fala:Oi, prazer, Kátia. Porque muitas vezes você não conhece a pessoa. Ela só quer te ajudar. Então você esta vendo uma vitrine com calma, e você passa. Porque a pessoa foi te dar uma “forcinha”.
Então, a gente entende que tem muitas pessoas que vão na intenção de ajudar, mas é a mesma coisa que eu pegasse a pessoa pela mão e saísse correndo com ela.

Juliana – Desagradável, né gente? Pensa duas vezes.

Kátya – Antes de abordar, pergunta se quer ajuda, se põe no lugar dela. É empatia.
Eu falo que se todo mundo agisse com a naturalidade de uma criança, porque as crianças vem em perguntar direto: tia, por que você é pequenininha? Porque você não cresceu? Aí eu falo assim: porque a tia não comeu arroz e feijão quando era pequena, e ai eu fiquei pequenininha! Você come arroz e feijão? (risos) Ele responde: como, como! Há então você vai ficar grandão. Então, assim é com essa naturalidade, com essa inocência que eles vem perguntar, e que qualquer um poderia vir perguntar. O que precisa, como posso te ajudar. Ou até uma curiosidade, as pessoas morrem de curiosidade, está ok. É através da dúvida, da curiosidade sanada que a gente fala que as pessoas vão aprendendo. Então é o diálogo sincero. Eu acho que é isso!

Cris – Fernando, alguém grita com você por que você é cego?

Fernando – Hein? não escutei Cris! (risos)

Cris – Rola isso? (risos)

Fernando – É, este é um problema. O gritar é um problema, e tratar como criança também é um problema. Então, assim, o deficiente visual, tem a questão das nomenclaturas, você é portador de várias coisas. Eu gostaria de deixar tudo isso em casa, já que estou portando eu poderia deixar tudo isso em casa. E eu brinco, eu sou portador de uma deficiência visual e portador de uma imagem corporal alternativa. Ou seja, eu sou gordo! (risos)

Cris – As pessoas se perdem um pouco nisso, não é? Como eu vou falar, como eu vou chamar adequadamente sem ofender e qual o jeito certo de falar? Fernando, você é o que?

Fernando – Eu sou cego! Simplesmente assim. Eu sou baixa visão, por que eu não sou totalmente cego, eu divido entre cego e baixa visão. O politicamente correto acabou atrapalhando muito as pessoas nesse sentido, Então o cara tem medo de chamar, ele fica confuso. O que você é? É um portador de necessidade especial?

Cris – Eu já ouvi: gerador de necessidade. Eu não vou chamar uma pessoa de gerador, desculpa!

Fernando: É realmente, gerador de necessidade eu nunca tinha ouvido ainda.

Cris – Eu já ouvi, eu falei que não vou chamar alguém de gerador.

Juliana – Deficiente Físico, né?

Kátya – Então, pode chamar a gente pelo nome, está tudo bem! (risos)

Fernando – Eu também acho. Então, muito do que a Kátia falou, serve também para os deficientes visuais. Assim, deficiente visual designa que todo mundo que tenha algum tipo de deficiência, não é? Então o cara que tem miopia, ele é deficiente visual.

Juliana – Eu sou super.

Fernando – Então, bem vindo ao clube!

Cris – Você chega na casa da Juliana ela tem que apertar tanto o olho pra entender o que tá acontecendo.

Juliana – Eu tenho 11 graus, é muita coisa.

Fernando – Eu acho que muito do que a Kátia falou é questão de perguntar. A naturalidade, a curiosidade surge, com certeza, acho que é normal. E perguntar…. Oi, tudo bem? Posso te ajudar? É o que ela falou, se eu falar que não, não é uma ofensa, não é pessoal. É porque realmente não precisa de ajuda, sabe? E no caso do deficiente visual, do baixa visão ou do cego é sempre tocar na pessoa. Mas tocar, gente não é dar um empurrão na pessoa.

(Cris ri)

Kátya – Nem fazer um carinho, né?
(todos riem)

Juliana – Não se aproveita. Só porque o moço é bonito ficar passando a mão, também não é assim, ta?

(Fernando ri)

Juliana – Só encosta, só, devagarinho.

Fernando – Exato. (risos)

Juliana – Sem assustar também de preferência.

Fernando – Exatamente.

Cris – Eu já ouvi o Geraldo Magela falando sobre isso, que é o cego que faz stand up comedy. E ele fala de algumas situações desse tipo. Que a pessoa é cega e o correto é que ou você pegue a mão da pessoa e coloque no seu ombro ou que ela segure o seu cotovelo porque daí ela sente o movimento do seu corpo e consegue.

Fernando – Isso.

Cris – Ele falou que muita gente vem e pega ele pelo braço e sai puxando ele.

Fernando – Sim, sim, acontece com ele, acontece com todo mundo. Acontece comigo de chegar num banco (comercial, não de praça, banco de dinheiro). A pessoa diz: senta aqui um pouquinho. Daí a pessoa te pega, imagina a cena: você de bengala, de frente pra pessoa, ela te pega pelos ombros, de frente pra você e começa a empurrar pra trás, pra você sentar.

Ju e Cris – aaaaaai

Fernando – Aí você vai indo de ré enquanto a pessoa fica: vai, vai, só mais um pouquinho pra trás, vai indo.

Cris – Tipo flanelinha

Fernando – Isso, a pessoa fica te estacionando no lugar.

Cris – Ai meu Deus

Fernando – Então assim, seria muito mais fácil se a pessoa chegando pro deficiente visual toca de leve no ombro e pergunta: “Oi tudo bem? Quer ajuda”. E também muito importante é se identificar. Por que? Se você for funcionário do metrô (tudo bem que você já está treinado pra isso mas tô só dando um exemplo): Oi tudo bem eu sou o Wagner, funcionário do metrô. Eu não vou adivinhar se você é funcionário do metrô ou não. Oi tudo bem, eu trabalho aqui, você precisa de ajuda? Oi tudo bem eu trabalho aqui nesse restaurante, você precisa de ajuda? E tocando sempre no ombro de leve.

Cris – Sem apalpar né? Não vem com intimidade.

Fernando – É, nesse primeiro momento não.
(risos de todos)

Fernando – Depois pode até ser, mas nesse primeiro momento não. (risos) E também outra coisa: vai ajudar a pessoa… eu até escrevi um post sobre isso no site, toca no braço da pessoa pra ela poder se ajeitar. Pra alguns é mais fácil no cotovelo, pra outros no ombro, depende da altura de ambos. Eu tenho 1,8m se uma pessoa de 1,6 for me ajudar é mais fácil eu colocar a mão no ombro do que me abaixar pra colocar a mão no cotovelo. Então tem várias formas. O importante é ter naturalidade, se identificar. Se tá conversando, avisa a pessoa que não enxerga que você vai sair do local. Várias vezes eu tô conversando: “então Cris eu tava ontem lá no shopping, não sei o que… (pausa)… Cris?

Cris ri e Kátia imita grilos

Cris – Meu marido reclama isso e eu falo: Conversa comigo enquanto eu tô em pé. Porque se eu deitar eu vou dormir. Então às vezes rola uma bola de feno… quando ele fala Cris e eu já fui (risos)

Fernando – O constrangedor é o seguinte, é que a pessoa da mesa ao lado avisa você: Olha, a pessoa saiu.

Cris – Ai que ódio.

Juliana – Você tá falando sozinho, tá? Ai que situação.

Cris – Eu me passaria pela pessoa só pra não ter que te avisar.

(todos riem)

Cris – continuaria a conversa.

Fernando – Outra coisa: não é porque eu não enxergo que eu não vou olhar pra você. Então não converse comigo ziguezagueando, sabe? As vezes você conversa com a pessoa, e tá vendo ela a dois metros pra direita, depois 3m pra esquerda, depois atrás de mim… quer dizer… não é porque eu não enxergo que eu não tô olhando pra você. Pela tua voz eu sei onde você tá. É chato eu estar falando com você de frente e de repente você falar atrás de mim. Você fica completamente perdido. São coisas simples que claro que só quem convive vai pegar a manha. Mas perguntar realmente não ofende.

Juliana – Uma coisa que é difícil a gente perder é que a gente gesticula muito falando né? E aí a gente faz alguma coisa que não faz sentido pra quem não tá olhando, né?

Cris – Fernando a Juliana já fez uns três joinhas pra você, eu tenho que contar isso.

Juliana ri (muito)

Cris – Ela já te encorajou várias vezes.

Juliana – Eu tô fazendo sim com a cabeça, eu bato palma quando você fala alguma coisa que tá bem direitinho na pauta. Tá adiantando muito, você tá indo super bem, viu Fernando, nossa comunicação tá ótima aqui.

Fernando – (risos) Onde fica a lanchonete Ju? Ali!

Juliana – Isso! Essa é boa.

Fernando – Isso mata. Eu só tenho essa deficiência mas eu realmente não enxergo. Então não adianta você falar pra mim que fica ali. Então fala: à direita, à esquerda, isso é importante.

Cris – Eu acho que entra até um pouquinho nessa coisa da inclusão voltando ao Geraldo um outro vídeo que eu vi dele. Ele tava assistindo televisão e diz ele que o cara fala: “sensacional, essa máquina maravilhosa que vai mudar sua vida… E ele… mas o que que é gente, não vai falar o que que é? Ela é incrível, e vai facilitar o dia a dia. E ele pensa, mas gente, não vai mesmo falar o que é? Tudo bem, daqui a pouco vai falar o telefone e eu ligo pra lá pra perguntar o que é. E o cara fala: ligue agora para o telefone que está no seu vídeo. Eu não acredito, vou ficar sem saber o que é!!! Então assim, não é tão difícil.

Fernando – Não, não é. E assim, eu falei um pouquinho mais cedo da questão de maquininha touch. Que existe maquininha totalmente touch e o cego que se lasque. Eu fico pensando: como é que pode, um projeto em 2015, um engenheiro. Imagina, você faz um brainstorm, você senta, vamos fazer uma maquininha assim… Cara, não passou um minuto pela cabeça que gente que não enxerga poderia usar? Eu acho incrível isso. Então muito vem da história do ovo e da galinha de que se a gente não reinvindicar e não ensinar as pessoas, elas não vão aprender. Então você Juliana, você Cris, vocês não são obrigadas a saber que vocês precisam fazer isso ou aquilo pra mim. Você não são OBRIGADAS a saber. Seria bom se soubesse. Então cabe a mim não só esperar que vocês saibam, mas cabe a mim também ensinar. Olha esse jeito que você tá fazendo é errado. Eu brinquei com a Cris quando eu entrei aqui: relaxa o braço. Porque muita gente

Cris – Eu já fui toda pimpona falar ó eu sei como é que faz, e ele: assim, você pode relaxar o braço
(risos)

Juliana – Não é academia não, tá, não tá fazendo tríceps aqui.

Fernando – Porque as vezes a pessoa te dá o braço pra segurar e fica parecendo a galinha de asa aberta.
(risos)

Fernando – E você fala: relaxa o braço. Então cabe também a gente ensinar. Cabe também à Kátia ensinar. Cabe você que tá ouvindo e tem deficiência ensinar também. Vai passando de pessoa pra pessoa e vai aprendendo. Não é difícil. pergunte, pergunte. Não faz mal perguntar.

Cris – A máxima perguntar não ofende é a melhor coisa.

Fernando – É a melhor coisa, não ofende. Eu vou explicar, eu vou falar, e acabou. Quer ajudar e não sabe como fazer, toca no ombro, oi tudo bem, meu nome é fulano, você precisa de ajuda? Sim! Olha eu não sei como fazer você me ensina? Pronto! Acabou a história.

Kátya – E olha, só lembrando, como a Ju disse: Todo cego é bonzinho? Não, tem uns bem mal criadinhos também tá gente. Então assim, nem todo cadeirante também é bonzinho. Tem gente que vai perguntar com toda a boa vontade do mundo e aí o lado de cá faz a gente passar vergonha alheia e também é bem grosso. Então assim, não desiste, tá? São pessoas comuns que devem ter acordado de mau humor, dormido de calça jeans, enfim… mas que existem pessoas educadas que acordaram de bom humor e pessoas que acordaram de mau humor naquele dia.

Cris – É aquilo que vocês falaram, ou a pessoa é grossa e ponto. Mas aí não é porque ela tem a deficiência, é porque ela é grossa.

Juliana – Não gente então eu agora vou falar aqui nesse programa em nome das pessoas que tem uma deficiência de bom humor
(risos)

Juliana – Eu nasci com uma deficiência, faltou a educação e a fineza, então vocês tem que ter paciência também com a minha deficiência.
(risos)

Cris – E quando a gente fala de inclusão digital a gente tá falando isso pra quem? A gente colocou algumas situações aqui até pra gente entender do que a gente tá falando. O objetivo primário aqui é tornar conteúdo na internet acessível. A gente tá falando de pessoas com deficiência visual, auditiva, motora e que precisa disso. E você fala poxa como que são essas situações? A gente trouxe algumas histórias aqui. Uma mulher cega usando um leitor de tela que pesquisa restituição de imposto de renda no site da Receita Federal.

Fernando – Coitada.
(risos)

Cris – Um cego, sem braços que tá procurando sua ex professora no sistema de busca utilizado em um programa de reconhecimento de voz pra comando de computador. Um homem com paralisia cerebral com grande dificuldade motora que só utiliza o dedo pra teclar enquanto atualiza seu perfil numa rede social. Ou um homem com deficiência motora que usa um mouse adaptado para fazer compras em loja virtual.

Fernando – É, muitas coisas são resolvidas (vou puxar a sardinha pro… a brasa pra minha sardinha, né).

Juliana – Sim.

Fernando – Muitas coisas são resolvidas com… ações simples. Por exemplo: você etiquetar as coisas no teu site ou no teu aplicativo. Existe um campo lá que você pode descrever aquela imagem. Assim, não precisa ser muito desenvolvedor ou muito hard user pra perceber isso. Você tem um site, você vai publicar uma imagem, você pode perceber que, lá, né… embaixo ali tem um campo de descrição. Não custa nada descrever o quê que é a imagem. Quando um leitor de tela passar por ali ele vai identificar a imagem.
Quando você desenvolve um aplicativo tanto para iPhone, Android. Eu vou, eu vou falar de Android e iPhone porque é o que eu conheço. O Windows Phone eu não uso, não conheço.
É muito fácil você etiquetar aqueles botões. Então existem alguns aplicativos que você pega e você usa o voice over com o iPhone, você começa a varrer (chama de “varrer”) a tela, né, você só ouve assim: “botão”, “botão”, “botão”, “botão”, “botão”, “botão”, “botão”, “botão”, “botão”. Você fala: “Que legal, tem 58 botões aqui!”.

Cris – Aaai…

Fernando – E o cara não… não etiquetou os botões. Por quê é tudo imagem. E não custava nada o cara colocar no label ali “botão” o quê que é o botão. É simples!
Claro que, voltando à questão das limitações,
Obviamente o cara não vai conseguir fazer um angry birds totalmente acessível. É difícil, eu sei que é difícil, né. Mas um aplicativo que tem um botão aqui, um menu, um voltar, um fechar: é fácil de fazer. Então. E existe esse… não é por falta de empenho.

Juliana – Não é que vai ficar mil vezes mais caro.

Fernando – Não!

Juliana – Vai demorar o dobro do tempo, né.

Fernando – De jeito nenhum!

Juliana – Ah Cris, ela entende bastante de usabilidade. E eu fico imaginando que, assim, as coisas que a gente viu agora estudando pra pauta, é de bater com a cabeça na parede.

Fernando – Sim!

Juliana – Porquê não tem a ver com… só apenas com leitor de tela. Mas, né. Mas, assim, é até uma questão de lógica, né .

Cris – É, e a gente tem até coisas mais simples, que é aumentar o contraste.

Fernando – Isso!

Cris – Ou aumentar a letra.

Fernando – Isso! Isso, exatamente .

Cris – Que são pra pessoas que ainda têm… têm baixa visão.

Fernando – Sim, sim.

Cris – Ah, outra assim que… o que a gente tem que entender, que na verdade agente já tem uma norma muito importante, muito completa pra isso, que é o w3c.

Fernando – Exatamente! Eu ia falar isso.

Cris – E a gente tem a leitura disso pro Brasil, né, Fernando, que é o emag.

Fernando – É. Hum.

Cris – E é bastante completo, isso.

Fernando – É, o conteúdo, Cris, o conteúdo tá bem disponível, isso que, isso é que é o pior. Você, né, pior entre aspas. Que pra quem não faz, né. Que o conteúdo tá disponível. Então você fala assim, “pô, mas o Goo… o Android é do Google, e o Google não se preocupa?” Se preocupa, sim. E tem um guia de acessibilidade lá pra você se desenvolver de acordo com aquilo lá. Não custa mais caro. “Ah, então a Apple é, é ela que é culpada?” Não, tem lá um guia, tem um guide lá de acessibilidade que você pode seguir se você seguir você vai tornar o aplicativo acessível. Tem o w3c. O conteúdo tá disponível.

Cris – Inclusive no Brasil, os sites do governo federal, é obrigado a seguir essa lei de acessibilidade. É claro que passa coisa batido.

Fernando – Claro!

Cris – Mas dentro do que eles contratam você tem que entregar os códigos dentro daquele processo pra facilitar essa acessibilidade. Mais pessoas tendo acesso, tudo o mais. E isso, a gente tem um pouco dessa visão, e eu costumo sempre dar esse exemplo quando eu tô conversando sobre sites, que: bebe bastante num dia e no outro dia naquela ressaca maravilhosa tenta usar aqueles menus que você precisa caminhar, parar em cima, ir para o lado.

Juliana – Nossa, mas nem…

Fernando – Isso!

Juliana – Eu não preciso nem beber pra não conseguir.

Cris – Hahahaha.

Juliana – Nó, como irrita aquilo. Porquê o que acontece…

Kátya – hora que você vai clicar, escapa.

Juliana – Isso. Exato.

Cris – Então você imagina isso…

Juliana – Que coisa irritante.

Cris – … pruma pessoa idosa, uma pessoa muito idosa.

Fernando – Sim.

Cris – Uma pessoa que tem dificuldade motora. Um leitor visual.

Fernando – Baixa visão.

Cris – Então até você fala “mas é tão bonito!”.

Fernando – Isso.

Cris – Mas num funciona. Então você deve ter alguma coisa assim na sua casa que você comprou que é linda e não funciona.

Fernando – Sim.

Cris – Então quando você tá falando isso, né, sites de acesso, essa cultura é bastante forte nos Estados Unidos. Inclusive muitas pessoas que têm alguma deficiência namoram online porque os sites de namoro nos Estados Unidos são extremamente acessíveis.

Fernando – Sim.

Cris – E as pessoas conseguem manter relacionamentos aí, paquera total, porque permite, ferramenta é fácil de usar.

Fernando – WhatsApp: é totalmente acessível. Agora, Telegram: não é acessível. Isso tô falando no iPhone. Qual é a dificuldade, você entra no Telegram, você tem lá “botão”, “botão”, “botão”. Aí tem outro botão, você fala 35, 29, 14, 15: que cazzo é isso?!
Aí você entra no WhatsApp totalmente acessível: você vai usar o quê? Então, assim, qual é a dificuldade? Eu não entendo qual é a dificuldade. Então, assim, a dificuldade talvez seja aquilo que a gente falou antes: é, a gente não reivindica o suficiente, a pessoa… não me passa pela cabeça que vão precisar disso, né. Então, assim. Não é difícil, não custa mais caro.
Você que tá me ouvindo, que desenvolve, que tem projeto, ou site, ou aplicativo, tudo o mais, tem o guia de acessibilidade, tá aí, fácil pra ser usado, não vai custar mais caro. E você vai ganhar um consumidor.
Porque quando a gente acha um aplicativo, um site, um serviço que funciona, que faz questão de incluir a gente, a gente fica fiel.

Cris – É, a gente viu muito isso também passando batido pra deficiência auditiva, porquê a pessoa fala assim “ai, mas o vídeo é em português, não precisa de legenda”. Aí você fala “então, deixa eu te contar uma coisa, tem gente que precisa ler”. Então é esse, esse olhar inclusivo mesmo que traz mais consumidores, mais pessoas. E é legal esse um “alô, publicitários”, né l. Então, assim, a gente tá levando mais consumidores pros clientes também quando a gente pensa em incluir essa parcela enorme da população que fica tanto de fora.

Juliana – É, o que eu achei interessante quando a gente tava montando essa pauta, o que eu não sabia é que menos de 4% dos sites de serviço público no Brasil podem ser considerados acessíveis.

Fernando – Isso.

Juliana – Nem… a gente num tá nem falando da totalidade dos sites, né.

Fernando – Exato.

Juliana – E é importante falar assim, oh, OK, a gente num tá nem falando só pra pessoas com deficiência visual. A gente tá falando, como a Cris tava dando o exemplo, pessoas com dificuldade motora. A gente tá falando de pessoas com dificuldade auditiva. Bom, enfim. Isso que é muito importante, o programa inteiro a gente tá falando, é só desviar um pouquinho do padrão.

Fernando – Exatamente.

Juliana – Entendeu. A questão é, só você esforçar sua cabeça pra pensar. Ninguém é padrão o tempo inteiro, entendeu. Então, assim, enxergar, ter essa cabeça aberta pra enxergar quais são as coisas que a gente pode fazer pra facilitar quem tá um pouco fora do padrão ou muito fora do padrão, pra que eles também possam aproveitar a experiência, né.

Fernando – Sim.

Juliana – Incluir mais, incluir todo mundo. Principalmente, assim, a Internet ela tem essa proposta de inclusão, ela tem essa proposta de ser praça pública, de ser o lugar onde a gente se encontra. E por isso que a exclusão na Internet acaba ferindo tanto, né. Porque, assim, eu já não consigo sair de casa, né.

Fernando – É.

Juliana – Se tantas vezes eu tô confinada em casa, a minha Internet é minha janela pro mundo.

Fernando – Isso, exatamente.

Juliana – Se você deixa de ser acessível até na Internet, você tá me fechando a última janelinha que eu tinha, né.

Fernando – Não, e tem outra coisa também que acontece. Até não ter acessibilidade a gente vai, manda email, briga, faz, acontece, tal e de repente, quem sabe, aparece acessibilidade, né. Mas tem uma coisa que deixa a gente muito… não sei nem se eu posso falar isso.

Cris – Bravo.

Fernando – É.

Juliana – Bravo.

Fernando – É, muito bravo.

Juliana – Bravo, que tem criança ouvindo.

Fernando – MUITO bravo.

Cris – Bastante Bravo.

Fernando – Hahahahahaa

Cris – Muito.

Fernando – É quando você tem um serviço, aplicativo ou site, acessível e o camarada atualiza e você perde a acessibilidade. Isso acontece não é uma vez. Aconteceu uma, duas, três, quatro, 298 vezes.
Então você tem um aplicativo, vou citar um exemplo, tem um aplicativo de compra de passagem aéreas, tá? Eu tô lá, eu comprei uma passagem. Bac… pô, eu achei sensacional, divulguei no meu Podcast, falei, aconteci, tal: eu comprei de cabo a rabo, primeira vez, como cego, que eu comprei uma passagem de cabo a rabo sem precisar de ajuda de ninguém. Aí o aplicativo foi atualizado.

Juliana – Ai que ódio.

Fernando – Aí perdeu acessibilidade. Não toda a acessibilidade, lógico. Mas perdeu. Perdeu PARTE da acessibilidade que tinha, que era sensacional. Aí você manda email, aí você fala, “pô, pera, caramba, eu divulguei isso”. Mas como é que fica a minha cara depois? “Eu divulguei isso, assim, tal. Pô, vocês pensaram a acessibilidade antes, porquê cazzo que vocês tiraram. Então também tem esse lado, né. De, de esquecer: “ah, né, não precisa né”.

Juliana – Tava com pressa, aprovou sem fazer as revisões.

Fernando – É…

Cris – Não, downgrade é dureza

Juliana – Downgrade é dureza.

Cris – Downgrade dói no coração.

Fernando – Exatamente. Então, isso acontece muito. Sabe, então, assim, pensar, é o que você falou, é na pressa, na correria. E tal, tal, ah, vamo que vamo. Gente, né?

Cris – E então quando a gente ta falando desse universo enorme, a gente tá falando de front end, back end. A gente tá falando muito de código, e então tem alguns princípios desse desenho universal que tá levando em consideração equiparação de possibilidade de uso; tá muito centrado nas normas de eurísticas de Nielsen, que é um teórico que desenvolveu isso, desenvolveu critérios científicos de avaliação; a gente tá falando também de flexibilidade de uso, que é atender o maior número de pessoas possíveis; o uso simples e o intuitivo. Às vezes é difícil pra quem não tem nenhum, nenhum tipo de deficiência, então, a gente fala muito sobre isso: não precisar de, toda vez que vai entrar num sistema, aprender ele todo de novo, né, ele ser mais intuitivo; tem a informação perceptível, eficiência, né; tolerância a erro, que são os testes que a gente realmente precisa estressar os sistemas, pra ver se ele, quando erra, inclusive, se ele dá um feedback; e minimização do esforço físico, que é a, realmente menos clique, conseguir chegar à informação com maior agilidade pra tornar a experiência de uso minimamente favorável, né. Você não querer quebrar o computador a hora que você tá tentando fazer ali e não consegue.

Fernando – Não complicar, né, facilitar que é melhor.

Juliana – É porque, a gente, a maior parte dos sites, ele é feito pensando com a navegação do mouse.

Fernando – Exatamente.

Juliana – E não com o TAB. E assim, isso é tão simples de ver, como isso pode ser útil pra você, não é. Porque é tão simples o teu trackpad estar com um problema, teu mouse estar com um problema.

Fernando – Sim.

Juliana – E todo mundo já passou por uma situação que falou assim: “cara, eu queria simplesmente só agora conseguir navegar pelo TAB”. Tipo, “eu sei, eu vou usar o mouse, mas agora eu queria ter a possibilidade do site ser navegável com o TAB”. É muito mais interessante pra todo mundo, né.

Cris – Com certeza.

Kátya – É, você pega um tetraplégico, alguém que tenha um membro amputado, né, é, facilita um bocado, né.

Juliana – Possibilita, eu diria.

Fernando – É, exato, possibilita.

Kátya – Você fica lá tentando fazer um malabarismo com o nariz no mouse não dá certo.

Cris – Exactamente, tem gente que usa a ponteira na testa, né, então.

Kátya – É.

Cris – Realmente é interessante pensar nisso aí.

Fernando – Eu diria o seguinte, um teste simples pra você que está escutando e fala: “Pô, mas como é que eu vou fazer tudo isso? A Cris
falou tanta coisa tão complicada né.” Então, vou puxar de novo a brasa para minha sardinha, você está desenvolvendo alguma coisa, você está pensando em alguns serviços, você tem um restaurante, você tem um bar, qualquer coisa, então fecha os olhos, fecha os olhos e você vai entender como é que você pode ajudar.

Juliana – Ou pergunta né? Que é o que a gente falou neste programa inteiro. Você não é obrigado a saber. Tudo bem se você não souber, pergunte. Porque você vai ficar surpreso de o quanto as pessoas estão dispostas a falar e ajudar e a compartilhar e a colaborar para que a gente consiga se encontrar e a gente consiga conviver.

Fernando – Exatamente!

Cris – Juliana, termina esse papo delicioso em grande estilo. Me mata de orgulho.

Juliana – A gente ficou muito feliz de com esse programa, desde que a gente começou o Mamilos, acho que no segundo programa, alguém colocou um comentário no post falando assim: “Sou surdo, não sei como posso ouvir esse programa.” e deu bug pra mim, a gente não conseguiu entender o que a pessoa quis dizer e a gente ficou “Como assim?” e pensamos “É só a gente transcrever, se transcrever, todo mundo pode ouvir!” Só que assim, a gente não dá conta de fazer nada do Mamilos. Tem mil projetos que a gente tem na gaveta, a gente promete vídeo há anos, milênios, nunca fez. A gente nunca consegue. Porque assim, isso é um projeto B da gente. a gente faz na hora que gente deveria estar comendo ou dormindo ou assistindo filme. Então assim, o tempo que a gente tem a gente usa para fazer o conteúdo e os outros projetos que a gente quer mesmo fazer estão sempre na gaveta. Bom, por fim, a gente sempre teve o projeto de transcrever o Mamilos, e aí, quando a gente foi falar sobre esse programa de acessibilidade a gente falou assim “não é possível que esse programa a gente vai ter e não vai ter transcrição!” e a gente soltou no grupo maravilhoso de colaboradores do Mamilos, que são ouvintes, que nos ajudam fazendo a capa as vezes, pesquisa… e a gente pediu para eles “Olha, geralmente a gente tem uma hora da discussão principal, se seis pessoas pegarem dez minutos de transcrição a gente consegue transcrever. E temos os voluntários. Esse programa vai ser o primeiro Mamilos que vai ter transcrição e a gente espera que daqui pra frente, sempre tenha transcrição para o Mamilos.

Cris – A gente ficou toda empolgada.

Fernando – Parabéns, excelente!

Cris – Vamos então para o farol aceso.
(Trilha)

Cris – Vamos agora para o farol aceso, começando com a Ju, o que que tem aí Ju?

Juliana – Bom, na maratona do Oscar eu assisti Brooklyn e Carol. Mas eu não vou falar desses, eu vou falar de um filme que também está na maratona que concorre a melhor roteiro que chama “Straight Outta Compton – A História do N.W.A. (2015)”, que é sobre o início do hip-hop, que é do N.W.A. de como começou o N.W.A. e é sen.sa.cio.nal! Eu não conhecia nada, já tinha ouvido falar de Doctor Dre, já tinha ouvido falar de Ice Kill, mas assim, não conhecia as músicas, não ouvia, não tinha referência, não sabia da história e tal. É SENSACIONAL o filme, muito “mamileiro”, muito, eu gostaria muito de fazer um programa sobre ele. Eu acho que tem várias questões que tem ali.

Cris – Nossa, Oga ouvindo isso assim, nervoso em casa (risos).

Juliana – Eu já conversei com o Oga sobre isso, inclusive. E eu vou te falar que esse foi o filme derradeiro que eu precisava ver para ficar indignada com o “Oscar é branco demais” sabe? É ridículo que as únicas duas pessoas que tenham sido indicadas por esse filme sejam justamente os dois únicos brancos que trabalharam no filme que são os dois roteiristas. Tipo, o diretor não foi indicado, os atores não foram indicados e assim, para falar sobre a atuação. Óbvio que a minha opinião vocês vão desconsiderar porque eu não entendo de cinema e tal, eu vou falar só o que é minha opinião. Eu acho super difícil você fazer uma atuação, quando você tem outras (Ah eu assisti também Garota Dinamarquesa) quando você não tem outras coisas para auxiliar na caracterização do personagem, então assim, você não vai emagrecer muitíssimo, você não vai usar outras roupas, você não vai envelhecer, ou Trumbo que o Bryan Cranston está indicado a melhor ator que ele envelheceu muito, então assim, você não tem essas muletas. Quando está só você diante da câmera e é o seu rosto e você tem que passar todas as emoções, eu acho que isso também tem um valor muito grande para avaliar o trabalho do ator, então assim, são moleques e eles te passam milhares de coisas ao longo do filme e com muita credibilidade, você em nenhum momento duvida, então eles são fortes, eles são “bless”, eles são caras do guetto, e eles tem momentos de muita fragilidade e eles tem momentos de você sentir o quanto eles estão vulneráveis e de ver que eles sem melodrama, eles conseguem fazer a gente (tudo moleque novo, que eu nunca tinha visto antes e que eles levam o filme nas costas) entrar completamente e sente tudo junto com eles. Não dá pra entender que esse filme não estava e nenhum deles mereceu, coadjuvante que seja, não mereceu nada? Assim, não dá pra entender. Esse filme é muito, muito bom, vale um Mamilos. Mamileiros assistam para que a gente possa falar sobre o filme depois.

Cris – Vamos lá Fernando, manda aí!

Fernando – Bom, eu tenho duas indicações, a primeira é uma exposição chamada “Diálogo no escuro”, ela está acontecendo em São Paulo e no Rio de Janeiro, é uma exposição que passa para você como é ser um deficiente visual, não exatamente como é ser um deficiente visual, mas para você ter essa sensação. Então você vai andar por ambientes em que são totalmente escuros e você vai ser guiado por um cego, então é uma inversão de valores.

Juliana – Interessante.

Fernando – Você vai ser guiado por um cego através de uma exposição em que você vai ter essa sensação, vai passar por alguns ambientes, vai ter alguma sensação. Eu não vou dar spoiller, lógico. Mas vai ter algumas sensações e tal, vai conversar com o seu guia e seu guia vai ser um deficiente visual e você vai passar ali quarenta e cinco minutos, em média, nessa exposição. Então recomento muito, muito, as pessoas saem de lá não só muito emocionadas mas entendendo muito mais desse universo. Então recomendo “Diálogo no escuro”, acontece no Rio de Janeiro e em São Paulo, em São Paulo se eu não me engano está para acabar e no Rio vai até um pouco mais de tempo (SP: ) – (RJ: ) pesquisem aí que vale a pena. E a outra indicação, é claro que eu vou fazer uma indicação do meu aplicativo.

Cris – Jabáaaaaa!

Fernando – Segundo o Braincast, não é jabá é Native Ad.

Juliana – Momento Native Ad.

Fernando – É um aplicativo do Papo Acessível, nós temos um podcast, eu não faço ele sozinho eu faço ele com Sonny Pólito, Renata Fonseca, Ricardo de Melo e o Ricardo Cheruti (mandar um abraço para todos os integrantes).

Cris – A Renata tem uma voz linda, muito agradável a voz dela.

Fernando – Não só a voz (risos). E nós fazemos em cinco e nós resolvemos lançar um aplicativo que também se chama “Papo Acessível”, além do nosso site que é www.papoacessivel.com.br, nosso Podcast de mesmo nome e do aplicativo de mesmo nome, para ficar tudo mais fácil. Então, nosso objetivo, nós somos cinco deficiente visuais que fazemos o programa e o objetivo não é falar para o “ceguinho”, o objetivo é falar para todos para que a gente consiga levar acessibilidade realmente para todos. Então a gente fala sobre todo e qualquer assunto no programa, você vai ter acesso pelo aplicativo e sempre tendo como norte o nosso slogan, que é “Com a nossa visão do mundo” essa é a nossa intenção. E com o aplicativo do Papo Acessível você vai encontrar todos os nossos podcasts lá dentro dele, tem mais de cem programa já disponíveis, e o aplicativo está disponível tanto para iPhone quanto para Android, na App Store ou na Play Store, e nem precisa dizer que ele é totalmente acessível (risos).

Cris – Pelo amor né, não me faça essa! (risos) Katya, conta aí, o que você tem de bom?

Katya Hemelrijk: Bom, o último filme que eu assisti e que me marcou muito foi “Para Sempre Alice (2014)” eu acho que qualquer ser humano deve assistir esse filme, porque é (um aprendizado) para a vida, é sobre a consciência da sua condição. Ali era um condição de um Alzheimer mas a forma como lida, a forma como encara, a naturalidade dessa passagem é para qualquer pessoa levar como um aprendizado para a vida. A força daquela mulher a persistência dela e sabendo o que a esperava, e já preparar para que ela mesmo sofresse menos é sensacional, o roteiro é sensacional. Então acho que vale como experiência de vida. Não só para quem tem uma experiência com Alzheimer mas como experiência de vida. E aí eu vou convidar vocês também para acessar meu blog que é o Simples Assim, () lá eu conto um pouquinho de mim, conto um pouquinho desses assuntos um pouquinho mais polêmicos né? E aí quem tiver alguma dúvida, queira perguntar ou queira sugerir assunto para post, a gente coloca lá!

Cris – Bom, e eu essa semana, complementando a dica da semana passada. Eu comprei o livro da Rita Lobo “Cozinha prática” é um livro bem legal pois é um livro para quem gosta de ler sobre comida, não é só um livro de receitas. Então assim, eu acho ele bastante introdutório mas ele tem algumas coisinhas de ouro, tem umas coisinhas bem legais que ele te ensina a fazer, que vai te dar mais agilidade e mais praticidade na cozinha, vai cozinhar melhor. Tem várias coisas lá, e fez o maior sucesso o que eu falei sobre levar comida para o trabalho né, o “compact food” e as pessoas falaram um monte “Esse livro ajuda bastante a ter a criatividade necessária para se alimentar bem seja em qual lugar for” então “Cozinha Prática da Rita Lobo” (), para você conhecerem mais, tirando que ela é uma linda, e ela é muito agradável. A leitura é super fácil e parece que você está conversando com alguém.
E eu queria aqui falar sobre o filme da semana passada que eu indiquei que era “Era uma vez na América” e eu cometi o erro, eu esqueci, simplesmente passou branco na minha cabeça, e eu esqueci de falar que é um filme que contém cenas de violência inclusive de violência sexual, então fica o point aí para quem for assistir estar previamente preparado que rola isso.

Juliana – Eu só queria avisar, vocês já sabem que toda vez a gente coloca os links de tudo que a gente falou de tudo que a gente pesquisou a gente coloca link. Essa semana os links da pauta valem muito a pena. Tem um monte de podcast sobre esse assunto, especialmente os “Dragões de Garagem #64 Ciência e deficiência” que tá muito bom.

Cris – A gente quis fazer esse programa porque era um desafio, porque a gente queria muito fazer, mas o programa deles está mega completo, está excelente.

Juliana – Então assim, vale a pena é complementar. O “Nerdcast 256 Cegos, nerds e loucos” tá divertidíssimo, também vale a pena escutar e tem alguns textos muito bons que a gente leu quando estava pesquisando para a pauta. Quem se interessou pelo tema, todo mundo que puder, eu vou colocar na ordem do que a gente mais gosta para vocês lerem os primeiros antes (risos). Mas sério, vale a pena ler textos complementares.

Cris – É isso? Temos um programa?

Juliana – Temos um programa. Gente, muito, muito obrigado de novo por vocês terem vindo. Foi muito legal. A gente aprendeu muito com esse programa, a gente aprendeu muito para fazer esse programa. Muito obrigado pela oportunidade.

Fernando – Eu que agradeço, é um prazer tá aqui. Eu sou fã de vocês. Ouço desde o primeiro programa, de verdade, não é…

Cris – Ai gente, que honra.

Juliana – Desde a gente falando de bunda.
(risos, muitos risos)

Fernando – Não, não é…

Cris – Ai meu Deus, adolescência… quanto arrependimento. (risos)

Fernando – Não, não é rasgação de seda não, vocês são sensacionais. Tanto é que a cada programa que eu ouço vocês só falam que a audiência cresce, cresce, e vocês merecem muito isso que vocês estão conquistando. É por mérito, não é por rostos bonitos, é por mérito (risos). Eu agradeço a oportunidade e fico a disposição para quem quiser falar sobre acessibilidade também e se for possível deixo o meu contato com vocês. Consultoria acessibilidade, podcast, programa, show, casamento, animar velório (risos), estamos aí.

Kátya – “Tâmo” aí né Fer.

Cris – Katya querida, muito obrigada, você despencou pra vir aqui fazer esse papo com a gente e assim… quanta generosidade

Kátya – Imagina, foi um prazer, eu gosto de falar sobre o assunto, acho que quanto mais a gente espalhar o assunto, mais natural ele fica. E tem que ser de uma forma gostosa assim como vocês tratam, não tem que ser de uma forma pesada, triste ou técnica demais que ninguém entende. Então para mim foi um prazer enorme estar aqui com vocês e o que eu puder contribuir com qualquer outra coisa, eu to aqui a disposição.

Cris – Fica a gostosa sensação então de mais um Mamilos completo. Um beijo gente.

Kátya – Beijo

Fernando – Beijo
(Trilha de encerramento)

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