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SXSW 2019: Para Alexandria Ocasio-Cortez, 10% melhor do que lixo não é a resposta

Atual congressista mais jovem dos Estados Unidos levou o público do evento ao delírio fazendo duras críticas ao atual sistema político do país

por Juliana Wallauer

Depois de muitas advertências do pré-candidato a presidência Howard Schultz sobre o perigo que a resposta socialista apresenta aos Estados Unidos, fui assistir a sessão com o “bicho-papão” Alexandria Ocasio-Cortez, a deputada mais nova eleita nos Estados Unidos.

É impressionante a quantidade de pessoas que se mobilizaram para assistir a deputada, lotando rapidamente não só a maior sala do evento como o salão de retransmissão, deixando centenas de pessoas frustradas do lado de fora no processo. Em sua entrada triunfal no palco, Ocasio-Cortez foi ovacionada de pé enquanto uma multidão de fotógrafos acompanhava cada um de seus movimentos. Ela foi sem dúvida a maior celebridade do dia em um palco que já tinha sido ocupado por Neil Gaiman e Trevor Noah durante o dia. 

Ocasio-Cortez é carismática e articulada, apresentando um futuro ambicioso de transformações profundas através de frases impactantes, perfeitas para manchetes e compartilhamento em redes sociais. 

“Quando Kennedy disse: vamos para a lua no final de 10 anos, as pessoas pensaram que ele era louco. Ele não tinha um plano. Muitas das tecnologias necessárias para chegar lá nem tinham sido inventadas. Mas o que ele disse foi levado a sério, como uma missão. Nós precisamos pensar em plataformas como nossa missão. Deve ser nossa missão agora garantir que todas as pessoas tenham assistência médica, garantir que todos os trabalhadores recebam um salário digno e salvar nosso planeta.”

Alexandria Ocasio-Cortez

Um dos momentos em que ela conquistou a audiência (e balançou meu coração) foi quando respondeu ao questionamento sobre como fazer uma pessoa convicta de suas posições mudar de ideia:

 “Primeiro: pare de tentar convencer as pessoas. Pare de tentar entrar nas conversas tentando vencer. Perdemos a arte de conversar. Então quando eu entro em uma conversa com alguém, eu na verdade tento aprender mais sobre da onde a pessoa está vindo. Eu faço perguntas, porque estou interessada. Eu sou fascinado por isso. Precisamos de verdade nos desarmar para entrar em conversas. Porque a gente aborda as pessoas com hostilidade. Então elas ficam bravas, a gente fica bravo. E a segunda parte é a intenção. O que você quer tirar dessa conversa. Se é só discutir, não vai funcionar. Você acredita no que acredita, as pessoas acreditam no que acreditam. O que eu descobri é que quando eu ganho as pessoas, nunca é na conversa propriamente. Eu tenho a conversa, faço perguntas sinceras, calmamente explico minha opinião, porque eu penso como penso, me interesso por entender porque ela pensa como pensa. E frequentemente a pessoa vai sair da conversa e tomar um tempo pra refletir sobre o que você falou. Principalmente, ela vai apreciar o fato de que você deu espaço e tempo pra ela.”

“Ninguém realmente muda de idéia durante uma conversa. As pessoas mudam de ideia depois, refletindo sobre a conversa. Mas se você pressionar as pessoas, fizer um ataque total, vai deixar elas na defensiva e elas nunca ouvirão nada do que você tenha a dizer.”

“O melhor conselho que eu já tive foi: sempre dar a alguém o portão de ouro do retiro, que é dar compaixão e oportunidade a alguém em uma conversa para eles ficarem bem na foto se mudarem de ideia.”

Sem precisar mencionar Schultz nenhuma vez, Ocasio-Cortez rebateu as afirmações do fundador da Starbucks de que o caminho moderado seria a melhor opção para a América diante da crise atual: “A CNN já tinha relatos do ICE [a agência federal que cuida da imigração e da alfândega nos EUA] prendendo crianças e possivelmente injetando drogas anti-psicóticas há um ano.” ela diz, “E o que me deixa furiosa é essa ideia: vamos apenas mudar alguns pontos, vamos apenas injetar um pouco menos. Sabe como é, é politicamente muito complicado. E para mim, o que é tão perturbador e comovente sobre este momento é desde quando se tornou a posição moderada na América continuar enjaulando crianças? Nós não estamos debatendo 17% ou 10% de taxa de imposto, não estamos falando sobre os pontos percentuais. Estamos falando sobre direitos humanos. Estamos falando de crianças. Estamos falando sobre que tipo de nação queremos ser.”

“Nós nos afastamos tanto do que realmente nos tornou poderosos, justos e bons, equitativos e produtivos. Então, todas essas coisas parecem radicais em comparação com onde estamos, mas onde estamos não é uma coisa boa. E essa ideia de 10% melhor do que lixo não deveria ser o que nos contentamos. Parece que moderado não é uma postura é apenas uma atitude em relação à vida. Uma atitude cínica.”

Alexandria Ocasio-Cortez

Mas o que mais me impactou foi o quanto estamos torturando as palavras com fins ideológicos, de tal maneira que destruímos seu significado compartilhado e comum para assim impossibilitarmos a comunicação.

Vou dar um exemplo mais emblemático: Howard Schultz definiu o socialismo, que Ocasio-Cortez representa, com “Olhe para a Venezuela”. Já a deputada definiu o socialismo assim: “Socialismo democrático significa colocar a democracia e a sociedade em primeiro lugar em vez do capital. Isso não significa que o conceito real da sociedade capitalista deveria ser abolido ou, isso, mas é uma questão de nossas prioridades.  Agora temos que lidar com as conseqüências de colocar o lucro acima de tudo na sociedade. Porque isso significa que as pessoas estão sendo pagas menos do que é preciso para viver, significa que as pessoas que precisam de insulina morrem, porque não podem pagar por ela, mesmo que nós, como sociedade, possamos pagar. Então, para mim, é uma questão de prioridades. E agora, não acho que nossas prioridades sejam sustentáveis. No imaginário público existe muito medo do que o socialismo democrático significa. O medo da escuridão que pretende assumir o setor privado: o governo vai assumir todas as corporações, o governo vai assumir todos os negócios. E, na minha opinião, essas duas coisas precisam ser separadas. Mas na verdade o que deveria estar nos aterrorizando agora é das corporações tomarem o governo”.

Já sobre o capitalismo que Schultz representa, Ocasio-Cortez afirmou no evento que “é uma ideologia que coloca o capital acima de tudo, onde o mais importante é a concentração do capital. Isso significa priorizar o lucro e a acumulação de dinheiro acima de tudo e busca isso a qualquer custo humano ou ambiental. Para mim essa ideologia não é sustentável e não pode ser.

O ex-CEO do Starbucks, enquanto isso definiu o mesmo termo como “um sistema que dá a todas as pessoas a liberdade para criar, empreender e construir seus sonhos. Que equilibra responsabilidade fiscal com defesa de valores humanitários, onde empresas se comprometem não apenas em gerar lucro, mas em construir valor para as comunidades que servem, onde os jovens tem acesso a oportunidade de estudo e trabalho para desenvolverem seu potencial.”.

Como compartilhar e confrontar nossas ideias, quando usamos as mesmas palavras com significados tão diferentes? Para mim, a representação de que ambos deram dos valores de seus opositores são maniqueístas e de má fé, certamente não representando o que eles mesmos acreditam ou sabem ser verdade – assim como a apresentação da proposta é romântica, sem reconhecer as limitações. Mas é jogo da sociedade do espetáculo. O jogo que especificamente ambos se colocam como “outsiders” dispostos a quebrar. 

Como bem aprendemos estudando História do Brasil, com frequência alguma coisa precisa mudar, pra que tudo continue exatamente igual. 

Este desconforto que senti nas duas palestras que até esse momento eu estava gostando me lembrou da palestra do Rohit Bhargava, quando ele aponta como uma das macro tendências desse ano a crise de credibilidade. Tomamos consciência de tantas vezes que fomos enganados por empresas, governos, imprensa, que é simplesmente difícil demais acreditar. Então por mais que Schultz e Ocasio-Cortez tenham me conquistado em muitos momentos, esse único truque retórico barato e mofado é o suficiente pra erguer a barreira do cinismo de novo. 

> Confira a cobertura completa do B9 na SXSW 2019

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