Depois de “Operação Fronteira”, Netflix vai encerrar grandes investimentos para adquirir filmes originais

Nova estratégia de Ted Sarandos com o setor é uma curadoria que privilegia produções com maior potencial de audiência antes do prestígio nas premiações

por Pedro Strazza

Que a Netflix nos últimos anos vem fazendo gastos, bem, ousados na aquisição de filmes para colocar na sua plataforma como conteúdos originais todo mundo já deve ter percebido, mas graças à ausência de uma divulgação rotineira de dados quase ninguém sabe se estas produções fazem render este alto investimento da empresa. E pelo visto, a estratégia não tem rendido bons retornos para o serviço de streaming, que agora deve diminuir a megalomania neste departamento.

A informação vem do The Information, que afirma que numa reunião com diversos executivos das áreas de TV e filme da empresa no começo de junho o CCO Ted Sarandos discutiu a proposta de um plano de contenção de gastos em cima justamente da melhor curadoria de projetos a serem comprados pela plataforma. De acordo com o site, a ideia do chefe de conteúdo agora é de selecionar filmes baseado no potencial de audiência que ele pode gerar para o serviço, ao invés da chancela de aprovação da crítica ou do circuito de prêmios que estes acumulam.

Nesta questão de números versus credibilidade, um exemplo que foi trazido à pauta da reunião foi “Operação Fronteira”, thriller de J.C. Chandor estrelado por Ben Affleck e Oscar Isaac que saiu direto na Netflix no começo deste ano. Comprado ao valor absurdo de 115 milhões de dólares, o filme pelo visto foi encarado pela empresa como um fracasso de público, tendo sendo visto por 52 milhões de contas assinantes mesmo depois do serviço fazer um grande investimento de publicidade à espera de ver a criação de um blockbuster. A partir de agora, longas como este devem perder espaço na Netflix.

O movimento faz sentido se considerar que recentemente a Netflix enfim conseguiu a credibilidade “artística” que queria dentro da indústria com as indicações e vitórias de “Roma” nas principais categorias do Oscar e a entrada na MPAA (Motion Picture Association of America), principal organização de estúdios em Hollywood. Além disso, os altos investimentos se mostraram uma faca de dois gumes perigosa para o estúdio, que inflou o tamanho de suas dívidas sem necessariamente ver estas produções decolarem do jeito que gostaria – nas séries, por exemplo, a cada “The Crown” existem uns 3 ou 4 “Marco Polo” e “The Get Down”. Em termos de filmes, esta lógica pode ser mais cruel – ainda mais quando o plano é de lançar 90 filmes em um ano – o que justificaria passos mais cuidadosos.

Isso não quer dizer que o serviço tenha perdido interesse no prestígio, porém. Só este ano a empresa já tem garantido os lançamentos de novos trabalhos de nomes como Martin Scorsese, Steven Soderbergh, Fernando Meirelles e os irmãos Safdie mirando exatamente o circuito de premiações e a permanência de sua credibilidade, inclusive com direito a respeito à janela de exibição nos cinemas.

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