Prestes a se aposentar dos cinemas, Tarantino está escrevendo livro sobre veterano desiludido com Hollywood

Protagonista começaria a se apaixonar por obras de Akira Kurosawa e Federico Fellini na história escrita pelo diretor

por Matheus Fiore

Pelo menos de acordo com as promessas recorrentes do próprio diretor, o décimo filme de Quentin Tarantino será seu último. Mas isso não o impede de começar novos projetos artísticos.

O diretor de obras como “Pulp Fiction” e “Kill Bill” revelou estar escrevendo seu primeiro livro, cujo tema envolve a história de um veterano de guerra americano que está desiludido com o cinema hollywoodiano dos anos 50 e, durante esse tempo, se apaixona pelo cinema estrangeiro.

Em conversa com Martin Scorsese para o DGA Quarterly, periódico trimestral do Sindicato de Diretores de Hollywood, Tarantino revelou que ele está escrevendo um livro cujo a trama coloca Hollywood e o cinema de fora em conflito. “Eu criei esse personagem, que esteve na Segunda Guerra Mundial e viu muito derramamento de sangue no campo de batalha. Agora, ele está de volta para casa, durante os anos 50, e ele não se identifica mais com os filmes.” declara o cineasta na revista; “Depois de tudo que ele viveu, ele acredita que os filmes sejam juvenis. A partir disso, subitamente, ele começa a ouvir sobre filmes estrangeiros de artistas como Akira Kurosawa e Federico Fellini, e passa a pensar que talvez haja algo além do cinema mentiroso de Hollywood”.

Não é difícil imaginar que, possivelmente, Tarantino adapte o livro para um roteiro e decida transformar em um longa-metragem. O recorte sugerido pelo próprio autor sugere algo que é constante em sua carreira: uma análise do cinema. A paixão de Tarantino pelos cineastas mencionados já vem de longa data, e pode ser vista tanto em detalhes mais óbvios, como o cinema samurai de Kurosawa influenciando diretamente em “Kill Bill”, até na icônica cena da dança de John Travolta em Uma Thurman em “Pulp Fiction”, que faz referência a um segmento de “Oito e Meio”, do Fellini.

O momento escolhido também é interessante, já que seleciona uma década na qual Hollywood alcançou o auge dos musicais e produzia filmes cada vez mais escapistas e distantes do retrato do cotidiano. O cinema europeu e o asiático, por outro lado, se tornavam mais narrativamente ousados, complexos e introspectivos, como resultado dos movimentos pós-Segunda Guerra, como o neorrealismo italiano, que durou até 1945 e recriou o cenário da Itália devastada pela guerra. O próprio cinema americano acabou influenciado pelos movimentos europeus, principalmente a Nouvelle Vague, o que resultou no surgimento da Nova Hollywood, no fim dos anos sessenta.

Enquanto isso, Tarantino se prepara para o que deve ser uma temporada de prêmios bastante ocupada, conforme a Sony prepara “Era Uma Vez em Hollywood” para ser uma de suas grandes apostas para indicações no Oscar e o próprio diretor negocia com a Netflix para transformar o filme em uma minissérie para o serviço.

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