Não se engane: o Oscar 2020 é sobre o futuro (da distribuição) do cinema

Status atual de transformação da indústria prevaleceu na lista de indicações deste ano como "mal" a ser debatido por seus votantes

por Pedro Strazza

Em meio ao caos inevitável das redes sociais sobre o anúncio dos indicados ao Oscar 2020, não foi lá muito difícil perceber o clima geral de descontentamento que se avolumava silenciosamente entre o público a cada nova categoria divulgada na manhã desta segunda-feira (13). Embora filmes populares como “Parasita”, “Coringa” e “História de um Casamento” fossem lembrados de novo e de novo entre os nomeados ao evento, as reações das pessoas à lista ficaram menos entre a surpresa e a celebração que o gestual amargo e mesmo de rancor perante os resultados das escolhas dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sobre o dito “melhor do cinema em 2019”.

Há quem argumente neste momento que o desânimo do público sobre a lista venha da falta de diversidade entre os indicados, e isso de certa forma não deixar de exalar uma verdade sobre a “classe” deste ano do prêmio. Mesmo longe do verdadeiro poço sem fundo em que o BAFTA se encontra atualmente, é fato que o Oscar tem em mãos um problema complexo de competição, onde aparentemente as categorias se definem por “cotas de representatividade” que excluem a possibilidade de haver mais de um indicado negro, latino, asiático ou mulher na briga pelos prêmios principais.

Esta tendência pode ser traduzida em informações pontuais espalhadas pelas estatuetas principais, como da atriz Cynthia Erivo ser a única não branca lembrada nas categorias de atuação, com nomes como Awkwafina e Lupita Nyong’o sendo esnobados em prol de quatro atrizes brancas na corrida de Melhor Atriz; que a estatueta de direção mais uma vez será decidida entre cinco candidatos homens, sendo que o sul-coreano Bong Joon-ho é a única presença mais “diferente”; ou que “Adoráveis Mulheres” se converteu na “opção feminina” do páreo principal, com a candidatura de Greta Gerwig praticamente obliterando chances de outras produções comandadas por mulheres em diversas categorias além de direção – incluindo o “Um Lindo Dia na Vizinhança” de Marielle Heller, confinado a uma nomeação solo em Melhor Ator Coadjuvante a Tom Hanks (este, enfim, de volta ao Oscar depois de quase 20 anos sem qualquer indicação ao prêmio).

Abarcar a lista do Oscar 2020 sob o viés da diversidade, porém, talvez seja confinar o debate sobre a edição deste ano dentro do tema errado, pois a premiação não parece estar mais concentrada nessa discussão específica. Enquanto o BAFTA se afunda no “BAFTA So White” por ter optado em quaisquer medidas para combater a ausência histórica de nomeados brancos, latinos e asiáticos em suas categorias, o Oscar percorreu o caminho oposto na última década, saindo da mesma condição “So White” para abraçar mudanças como a inclusão agressiva de membros da Academia para conseguir um corpo de votantes maior. Se depender da própria entidade, a questão da diversidade parece no momento solucionada, ao seu ver restando apenas alguns ajustes e aparos secundários necessários para possibilitar os resultados mais equilibrados possíveis – e os indicados deste ano soam mesmo como meio do caminho neste campo de “testes”.

Se o perfil dos profissionais lembrados não é item de preocupação da Academia este ano, e a premiação sempre foi pautada por narrativas para definir seus indicados e vencedores, qual seria então o grande tema da corrida pelo Oscar em 2020? A verdade pelo visto soa uma só: o próprio cinema e, mais exatamente, o futuro de seu sistema de distribuição.

Cena de “Era Uma Vez em… Hollywood”; filmes que se converteram em evento do circuito dominam a categoria principal do Oscar este ano

Este tópico é essencial para entender não apenas o descontentamento do público com a lista, mas a própria dinâmica interna que levou à escolha dos indicados, e a pista maior para isso está na maior concentração de nomeações a um seleto grupo de produções. Se nos últimos anos tornou-se recorrente esperar que algo entre 50 e 60 indicações fossem registradas em nome dos concorrentes ao Oscar principal, este ano os nove “campeões” da categoria de Melhor Filme acumularam nada menos que 69 das 105 escolhas dos votantes nos prêmios destinados a longa-metragens – e destes quatro (“Coringa”, “1917”, “O Irlandês” e “Era Uma Vez em… Hollywood”) ainda conseguiram bater a marca das dez indicações na lista.

É todo um grande pequeno clube (do bolinha ainda) que acabou dominando a premiação de 2020 graças a uma preocupação cada vez maior do circuito sobre o destino da telona frente a presença agora irrevogável do streaming e o desbalanceamento da distribuição equilibrada entre os estúdios. Não é apenas Martin Scorsese que está preocupado com o futuro: além do fato da Disney ter englobado a 21st Century Fox e ter sido responsável por mais de 60% da bilheteria total nos Estados Unidos, é bom lembrar que 2019 também foi o ano em que a justiça estadunidense cogitou revogar o decreto Paramount, lei histórica que permitia uma competição “sadia” entre os estúdios no mercado sem o risco de práticas antitruste destruírem o sistema.

E ainda há a China se anunciando como principal impulsionador de bilheterias e a Marvel Studios dominando todos os canais a ponto de produzir a maior bilheteria da história. Pelo menos nos negócios, se manter preso ao passado – a exemplo da resolução da última temporada – é cada vez mais uma impossibilidade na Hollywood de hoje, e seus executivos sabem muito bem disso.

Cena de “1917”; seja pelo orçamento, a bilheteria ou seus realizadores, o Oscar 2020 será vencido por quem conseguir provar que fez mais pelo circuito em 2019

É em meio a este cenário que os olhos da Academia repousam então sobre aqueles que julga ser suas melhores fundações para manter vivo a entidade por trás do cinema em tempos tão drásticos. O Oscar de Melhor Filme, não à toa, será decidido entre uma lista de produções que podem se vangloriar de “filme evento”, afinal, desde os mastodontes “Era Uma Vez em… Hollywood” e “O Irlandês” a “Ford vs Ferrari” e “Jojo Rabbit”, os últimos projetos da Fox Searchlight antes de sua aquisição pela Disney.

Com a exceção de “Parasita” – a autêntica “sensação” estrangeira do circuito independente, cujo sucesso é diretamente responsável por sua aterrissagem segura no prêmio – todos os outros oito indicados ao prêmio principal são produtos dos grandes estúdios que são vistos por estes como o melhor que a indústria hollywoodiana tem a oferecer, desde seus realizadores (Scorsese, Quentin Tarantino, Sam Mendes, Greta Gerwig, Taika Waititi) aos encorpados orçamentos envolvidos (“Adoráveis Mulheres”, “1917”, “Hollywood” e em especial “O Irlandês”). E caso estes não sejam dotados da grana, eles pelo menos tiveram um impacto no circuito de salas, vide o investimento da Netflix (agora longe de ser “a inimiga”) para exibir “História de um Casamento” no Paris Theater ou o sucesso de público de “Jojo Rabbit” nos festivais estadunidenses – mesmo o “Coringa” de Todd Phillips se apresenta aos votantes como “a alternativa” dos blockbusters, uma opção de boutique ao gênero dos super-heróis que foi capaz até de vencer o prêmio máximo no Festival de Veneza.

É neste contexto que agora o Oscar deve se encaminhar para sua reta final, onde as escolhas dos votantes sobre os vencedores será determinada acima de tudo por um critério semi-subjetivo de contribuição a um “legado” em constante expansão da Academia – e o fato do anúncio dos indicados ter acontecido este ano dentro do futuro museu da entidade só acentua esta questão de permanência histórica da 92° edição.

Mas em meio a tanta especulação sobre como melhor proceder em direção à próxima década, as reações das redes sociais à lista de hoje denotam com clareza que o Oscar ainda precisa se manter comprometido com sua situação presente.

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