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Imagem: David S. Holloway/CNN/Reprodução

Documentário sobre Anthony Bourdain usa IA para fazer falecido dizer frases que nunca verbalizou

Diretor Morgan Neville recriou em áudio três escritos do apresentador a partir de 12 horas de material de voz e diz que painel de ética pode ficar para depois

por Pedro Strazza

A Focus Features está lançado esta semana nos EUA o filme “Roadrunner”, um documentário dedicado a Anthony Bourdain que em tese serve de grande homenagem ao chef e apresentador que morreu por suicídio em 2018. Apesar do clima de solenidades, o que chamou a atenção nessas últimas horas pré-lançamento não foi o filme em si, mas um movimento equivocado do diretor Morgan Neville na hora de “celebrar” a vida do artista.

Isso porque durante uma entrevista à New Yorker o cineasta, conhecido também pelos documentários “Won’t You Be My Neighbour?” e “Serei Amado Quando Morrer”, confirmou que usou de inteligência artificial para recriar a voz de Bourdain e dar vida a três falas que o chef nunca verbalizou. As falas foram criadas em parceria de uma empresa especializada na tecnologia, que trabalhou nos trechos a partir de doze horas de material do homenageado falando em diversas situações.

Um dos três trechos já pode ser ouvido no trailer oficial do filme, a partir da marca do primeiro minuto e 30 segundos. A “fala” no caso é a reprodução em voz de um e-mail escrito por Bourdain a um amigo, onde ele diz: “minha vida está meio que uma merda agora. Você é bem sucedido, eu sou bem sucedido, e eu fico pensando: eu sou feliz?”.

Não que já não esteja claro pelo teor do tipo de escrito que ganhou vida no documentário, mas Neville também faz questão de apontar na entrevista que ele não se interessa pelas consequências dos atos na recriação da voz de uma pessoa falecida, mesmo quando em torno de falas que nunca verbalizou. Seu foco está em tornar imperceptível o remedo: “Se você assistir ao filme, além da fala que mencionou, você não sabe quais são as outras que foram feitas com IA, e nunca vai saber. Nós podemos ter um painel de ética no documentário sobre isso depois” afirma o documentarista à New Yorker.

As declarações de Neville obviamente provocaram discórdia nas redes sociais e criam mais um capítulo na problemática relação da tecnologia com o ato de dar vida a pessoas falecidas. A conversa remonta ao “retorno” de Peter Cushing como o general Tarkin em “Rogue One” e o esforço de completar a participação de Paul Walker em “Velozes e Furiosos 7” após sua morte, conforme o avanço da tecnologia na recriação de artistas do passado se torna mais impressionante – só lembrar das recepções de “Projeto Gemini”, “O Irlandês” e “Capitã Marvel” e comparar com algo como a de “Tron: O Legado” no início dos anos 10, por exemplo.

O tema ganhou ainda mais pimenta em novembro de 2019 quando foi anunciado o “retorno” de James Dean às telonas para o filme “Finding Jack”, que o recriará digitalmente a partir da colaboração com a MOI Worldwide – que diz ter planos de trazer mais artistas à vida a partir de inteligência artificial.

No caso específico de “Roadrunner”, porém, há ainda o bônus da situação escrachar o debate sobre forçar pessoas a dizer ou interpretar falas que nunca disseram em vida, resgatando grande parte da polêmica em torno dos deepfakes que gerou discórdia em Hollywood há 3 anos. A recriação de Bourdain, afinal, está longe dos fins educativos do modelo digital de Salvador Dalí (para ficar em apenas um exemplo) ao efetivamente confundir o limite entre realidade e o falso para fins escusos de “homenagem” em um documentário. É a questão básica: afinal, quem disse que o chef deu aprovação para que seus escritos fossem verbalizados por ele depois de sua morte?

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