“Zombie idea”: o diploma não entrega mais ascensão social
No SXSW, Lyn Jeffery defende como o ensino superior pode reinventar seu valor na era da IA
A ideia de que diploma universitário garante mobilidade econômica e segurança virou uma “zombie idea”: algo que “deveria ter sido morto pelas evidências, mas se recusa a morrer”. Foi assim que Lyn Jeffery apresentou, no painel “Strategy in Times of Chaos”, no SXSW, a crise do ensino superior. Os dados ajudam a explicar por quê: enquanto a proporção de diplomados sobe, os salários ficam relativamente estagnados ao longo de 60 anos. E, quando a conta deixa de olhar só para renda e passa a olhar para riqueza acumulada — patrimônio, reserva, capacidade de enfrentar contingências — o prêmio do diploma encolhe de forma brutal entre gerações. Nos anos 1930, um bacharelado estava associado a cerca de 250% mais riqueza do que não ter diploma; na pós, 400%. Para quem se formou nos anos 1980, esse ganho cai para 42% no bacharelado e 28% na pós.
O problema não é excesso de gente estudando. O problema é um sistema econômico que produziu muitos empregos ruins e poucos empregos bons. Entre as ocupações mais comuns nos EUA, aparecem no topo cuidadoras domiciliares e trabalhadores de fast food, com salários medianos em torno de US$ 35 mil e US$ 30 mil por ano. No meio, surgem enfermagem e gestão, trabalhos que exigem diploma mas pagam entre US$ 93 mil e US$ 100 mil. “Não há razão para esses empregos serem mal remunerados”, diz ela. “Isso é uma questão de mercado e de política.”

Ao mesmo tempo, Jeffery lembra que o ensino superior segue associado a efeitos relevantes: expectativa de vida maior, mais estabilidade, participação cívica mais alta e probabilidade de encarceramento quase cinco vezes menor. O erro, então, foi estreitar demais a justificativa da universidade, reduzindo tudo à promessa de retorno econômico.
Para o futuro, Jeffery mapeia sinais de reinvenção já em curso: forest schools escandinavas, o novo departamento de “AI and Society” da SUNY Buffalo, com sete graduações interdisciplinares, e até a escola de relojoaria da Rolex, descrita como “mais seletiva que Harvard”. Para ela, a resposta à crise passa por a universidade encontrar outro valor para oferecer.
A professora organiza o cenário de respostas das universidades à IA em quatro quadrantes. Há a universidade blindada da automação; a universidade que ensina colaboração de alto nível com IA, com ênfase em simulação e avaliação crítica; a universidade adjacente à IA, focada em tudo aquilo que a máquina não faz bem — pertencimento, cuidado, julgamento, dinâmica humana, resposta a crises; e a universidade dirigida por IA, em que a trajetória de aprendizagem é cocriada com sistemas inteligentes, sob personalização extrema, mas também vigilância constante. O quadrante mais provocador talvez seja o terceiro: “vamos ficar realmente bons em tudo aquilo que a IA não consegue fazer”.
A promessa antiga ruiu. O desafio agora é construir outra refletindo sobre que tipo de formação faz sentido num mundo em que a IA vai redistribuir valor, prestígio e remuneração entre diferentes tipos de trabalho — inclusive o cuidado.


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