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“Ancestral intelligence”: o futuro da educação não virá só das máquinas

No SXSW, Maisha T. Winn propõe que a escola reencontre valor em memória, esforço e inteligência comunitária

por Juliana Wallauer / Co-Fundadora do Mamilos

No painel “Strategy in Times of Chaos”, no SXSW, Maisha T. Winn deslocou a conversa sobre IA para um terreno menos óbvio. Se “AI” virou sinônimo automático de artificial intelligence, ela propõe recuperar outros sentidos para a sigla: ancestralancient e archival intelligence. No centro dessa virada está uma ideia forte: os historical signals, que ela define como “inovações do passado que podem ter implicações para o trabalho futuro”. “O verdadeiro esclarecimento transcende meros algoritmos e computações”, diz ela.

Winn parte de uma crítica à ideia de que inovação nasce sempre no centro, com mais recurso, mais prestígio e mais tecnologia. Ao olhar para comunidades negras e não dominantes, ela recupera experiências que precisaram construir escola, método e futuro em condições muito mais adversas. E sugere que esses repertórios não são margem: são laboratório. “E se o futuro já estivesse lá?”, pergunta, ao revisitar estratégias criadas por quem já enfrentava o caos muito antes de ele virar tema de conferência.

É daí que vem o conceito de ancestral intelligence: conhecimento acumulado por quem teve de educar, cuidar, organizar e imaginar o amanhã mesmo sob escassez, violência e exclusão. Na fala, isso aparece de forma concreta nos arquivos da Oakland Community School, ligada ao Black Panther Party. Entre rotinas escolares, práticas de meditação, teatro e documentação do cotidiano, Winn encontra uma pedagogia que não suspendia a construção de futuro nem quando tudo ao redor pressionava para o colapso. “Eles estavam sob ataque, mas a escola que estavam construindo seguia plantando sementes.”

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Ela também recupera a frase clássica de Alvin Toffler sobre aprender, desaprender e reaprender, mas desloca a discussão. O desafio não está só em acompanhar a velocidade da tecnologia. Está em reconhecer que “não somos os primeiros a fazer coisas difíceis em tempos difíceis” e em desaprender a crença de que comunidades não dominantes não produziram soluções valiosas para uma educação preparada para o futuro.

Daí surge a defesa do citizen archiving: documentar as próprias histórias, estratégias e formas de resistência como parte do processo educativo. Arquivo, aqui, não é memória morta. É infraestrutura de futuro. Winn insiste na importância de registrar práticas, porque sem documentação não se transmite estratégia para a próxima geração.

A provocação principal que Maisha deixa é esta: que inteligências já existiam entre nós, mas continuam fora do campo de visão quando a conversa sobre inovação começa? E, junto com ela, um método: olhar para frente, mas também para trás, em busca das inovações do passado que ainda podem abrir caminho para o futuro.


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