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A deficiência como fronteira de inovação

Ao investir em Hunter Woodhall, a Deloitte une dados, próteses e ciência aplicada na busca por um novo limite de performance

por Juliana Wallauer / Co-Fundadora do Mamilos
Capa - A deficiência como fronteira de inovação
Imagem: Foto: Agê Barros/IA

Há anos o SXSW retorna, por diferentes portas, à mesma pergunta: o que acontece quando tecnologia deixa de ser ferramenta externa e passa a operar como extensão do corpo? Em edições passadas, isso apareceu em sessões sobre wearables, aumento de capacidades humanas e biônica. Em Designing the Future of Human Performance, o tema reaparece de um jeito mais interessante, menos conceitual.

No centro dessa aposta está Hunter Woodhall, campeão paralímpico que decidiu transformar uma provocação em projeto: e se a pessoa mais rápida do mundo fosse uma pessoa com deficiência? A meta que organiza tudo parece delirante mesmo quando traduzida em números: superar seu recorde de 45,7 segundos nos 400 metros e buscar a casa dos 42. O objetivo não é apenas correr mais rápido. É mudar a percepção da deficiência, deslocando-a do campo da limitação para o da possibilidade.

Com a Deloitte, o sonho deixa de soar como bravata motivacional e vira hipótese de trabalho. O projeto construiu um gêmeo digital de Hunter, capaz de simular a prova passada por passada para entender onde ainda há ganho possível.

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Agê Barros/IA

O método é justamente o que tira o projeto do terreno da metáfora. O modelo acompanha variáveis como frequência de passada, comprimento de passada e tempo de contato com o solo. Depois, esses dados são confrontados com medições do corpo real feitas com tecnologias como laser gates. A partir daí, o projeto tenta entender onde a simulação encosta na realidade e onde ainda há espaço de ajuste. Entram na conta alinhamento das lâminas, composição e retorno do carbono, fadiga provocada pelo equipamento, clima, raia, estratégia de prova, descanso, nutrição.

A Deloitte diz ter trazido para esse projeto aprendizados de trabalhos com a McLaren na Fórmula 1, além de experiências em outros cenários de simulação, para aplicar essa lógica ao corpo humano. Ao mesmo tempo, reuniu marcas de próteses, instituições de ensino e empresas de inovação para compor uma equipe rara num esporte tão individual quanto o atletismo. O ponto não é só colocar um logo ao lado de um atleta carismático. É usar um caso extremo para testar como ciência, dados e colaboração podem produzir algo material.

Hunter deixa claro que o valor disso não desaparece se os 42 segundos não vierem agora. A ambição é destravar esses dados, ferramentas e aprendizados para para-atletas — e, idealmente, para outros atletas também.  Escalar é permitir que mais gente tenha acesso a um tipo de inteligência esportiva que hoje simplesmente não existe para a maioria. Toda evolução do esporte começa assim: com uma marca que parece inatingível até deixar de ser. O resto é tempo, insistência e alguém disposto a correr primeiro na direção do absurdo.


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