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O que as fogueiras pré-históricas e o seu feed têm em comum?

Como a necessidade de narrar criou a linguagem, moldou o cérebro e ainda governa o que você acredita

por Juliana Vilhena Nascimento / CRO do Brivia_Group

Hoje aqui no SXSW o Kevin Ashton, autor consagrado, veio responder uma pergunta curiosa sobre a evolução humana: o que veio primeiro, a linguagem ou as histórias? Durante muito tempo assumimos que a resposta era óbvia. Primeiro aprendemos a falar, depois passamos a narrar. Mas uma hipótese cada vez mais discutida sugere o contrário: talvez a linguagem tenha surgido justamente porque precisávamos contar histórias.

No seu novo livro, “The story of stories“, Kevin conta que o processo evolutivo do cérebro dos macacos para o do ser humano passou por alguns fatores. Os mais importantes:

– mudar a dieta vegetariana para uma carnivora – que incluia tutano dos animais que eles caçavam, favorecendo o crescimento (em tamanho, mesmo!) do cérebro
– e a descoberta do fogo.

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Parece maluco, mas não é. Quando nossos ancestrais dominaram o fogo, pela primeira vez o dia humano passa a ter mais horas do que a luz do sol permite. Durante o dia, a comunicação era funcional — alertas, comandos, sinais de caça ou perigo. À noite, porém, não havia presa para perseguir nem ameaça imediata. Ao redor da fogueira surge algo novo: tempo social.

É nesse espaço seguro que algo muda. Os humanos começam a falar sobre coisas que não estão presentes: o que aconteceu ontem, o que pode acontecer amanhã, lugares distantes, pessoas ausentes. Começam a contar estórias.

Os sons e sinais disponíveis até então não eram suficientes. Sinais simples funcionam bem para alertar sobre um predador, mas não para descrever uma caçada que aconteceu dias antes. A necessidade de narrar exige algo novo: vocabulário e estruturas mais complexas de comunicação.
Essa ideia ajuda a explicar algo sobre nós até hoje. Grande parte do que sabemos sobre o mundo não vem da experiência direta, mas de algo que alguém nos contou, escreveu ou publicou. No fundo, a história da humanidade é uma longa cadeia de estórias transmitidas.

Existe até uma estrutura mínima para qualquer estória – um personagem, uma ação e uma consequência. Curiosamente, essa lógica aparece na própria arquitetura de quase todos os  idiomas do planeta: sujeito, verbo, objeto, adjetivo.

Nosso cérebro parece ter sido moldado por isso e para isso. Experimentos mostram que, quando vemos formas geométricas se movendo numa tela, a maioria das pessoas descreve a cena como um drama humano — alguém perseguindo alguém, alguém com medo, alguém com raiva. Transformamos movimento em intenção, intenção em personagem, personagem em estória.

Ao longo da história fomos criando tecnologias para espalhar essas estórias. Primeiro vieram os ritmos da tradição oral, depois as pinturas nas cavernas e, mais tarde, a escrita — curiosamente usada primeiro para contabilidade, não para estórias.

Desde então cada nova tecnologia ampliou o alcance das narrativas humanas. A imprensa espalhou ideias que mudaram religiões e governos, o rádio e a TV criaram culturas compartilhadas, a internet conectou pessoas que antes estavam isoladas. Basta olhar para qualquer timeline: o que aparece ali raramente é um fato em si, já que o que mais engaja as pessoas é a história que alguém construiu em torno dele.

Nunca contamos tantas estórias e nunca as distribuímos tão rápido. Ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir quais delas são verdadeiras.


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