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No SXSW, os fundadores da Blackwing explicaram por que colocar lápis no papel faz pelo cérebro o que nenhuma tela consegue (e como construíram um negócio inteiro em torno dessa tese)
Quando Grant Christensen parou de escrever músicas, não percebeu de imediato o que havia perdido. Foi só quando começou a trabalhar com lápis, carregando um a mais tempo inteiro, que voltou a compor. “Esse lápis literalmente me fez pegar o violão de novo.”
No SXSW2026, Christensen e Alexander Poirier, presidente e vice-presidente da Blackwing, passaram uma hora falando sobre lápis. E sobre o que acontece com o cérebro quando você usa um.
Por que importa: A Blackwing não é uma empresa de nostalgia. É uma aposta de 15 anos na tese de que quanto mais a tecnologia avança, mais as pessoas precisam de um contrapeso físico e sensorial. John Steinbeck escreveu o primeiro rascunho de As Vinhas da Ira com um Blackwing. Quincy Jones dedicou duas páginas da autobiografia ao lápis. Quando foi descontinuado nos anos 1990, unidades chegaram a ser vendidas por US$ 40 no mercado paralelo. Hoje, a empresa vende milhões por ano e tem uma lista de espera para edições limitadas.
Alexander Poirier, VP, e Grant Christensen, Presidente da Blackwing
A filosofia da fricção
O design do setor tech costuma ser guiado pela remoção de fricção. A Blackwing faz o oposto. Poirier foi direto: “Fricção é o coração do que fazemos.”
No plano físico, o lápis depende de fricção para funcionar. O grafite só é depositado no papel por causa da resistência entre os dois materiais. Mas a Blackwing trata isso como princípio de design, não como inconveniência a resolver.
O lápis precisa ser apontado. Então projetaram um apontador que cria uma ponta específica, bonita, satisfatória de fazer.
O lápis fica curto. Então projetaram um extensor.
O lápis apontado é frágil para levar na bolsa. Então projetaram uma capinha levemente afunilada por dentro, onde a ponta flutua sem tocar as bordas.
“São decisões tomadas para que o objeto bonito que alguém criou, mesmo que seja só uma ponta bem feita, seja tratado como a coisa preciosa que é.”
Cada atrito vira oportunidade de produto. Cada produto tem que fazer sentido sensorial.
O que design sensorial significa na prática
Quando Poirier explica como pensa no desenvolvimento de um produto, não fala em especificações. Fala em perguntas. O lápis escorrega quando você aperta? Há resistência suficiente? O peso está equilibrado? Ele descansa naturalmente na mão? Como cheira quando você o aponta? A madeira usada é cedro de incenso, em parte justamente pelo aroma satisfatório que libera ao ser afiada.
“Como soa quando você aponta? Como o grafite responde ao papel? Há resistência suficiente? É suave o suficiente?”
Essas não são perguntas que aparecem em briefs convencionais de produto. São perguntas que pressupõem que o objeto vai ser usado por um corpo, não só visto numa tela. O acabamento do Blackwing leva 12 demãos de tinta — não por estética, mas porque esse é o número que faz a superfície aceitar o relevo do logotipo da forma certa e criar a textura exata de resistência na palma da mão.
A fórmula do grafite em si é uma questão de sensação, não de dados. “Não existe um número que define a mistura certa entre grafite, cera e argila. É um equilíbrio. Você sente quando está certo.” Poirier admite que tomar decisões de design baseadas em sensação assusta. E defende que é essencial.
Por que escrever à mão importa
A Blackwing não cita neurociência formal, mas articula empiricamente algo que a pesquisa sobre escrita manual tem confirmado há anos: o ato físico de escrever com lápis ou caneta cria um tipo diferente de engajamento cognitivo do que digitar.
Poirier descreve o mecanismo como um truque mental: “Quando não estou com vontade de escrever, uso o lápis como quem se veste para ir à academia. Uma vez que você tirou o caderno, apontou o lápis, já está comprometido. Você vai sentar e escrever alguma coisa, queira ou não.”
O objeto físico cria intenção. E intenção cria presença. “Você não consegue isso sem fricção. Sem a decisão por trás das ações.”
Christensen foi além: a escrita com lápis é parte de um ecossistema analógico mais amplo que inclui vinil, fotografia em filme, livros físicos. Todos compartilham a mesma propriedade: exigem atenção indivisa.
“O ato de sentar e se engajar com música, com uma música de cada vez, tem o mesmo benefício para a saúde que colocar lápis no papel. É o mesmo tipo de estado.”
A aposta original
A Blackwing relançou o lápis em 2010 como um projeto quase experimental. Christensen e Poirier, os dois formados em letras, viram o avanço das telas e fizeram uma aposta: quanto mais a tecnologia evoluísse, mais as pessoas precisariam de equilíbrio. “Não sabíamos se havia apetite para isso. Mas havia uma necessidade real.”
Construíram a marca devagar, contando histórias de Steinbeck, Bob Dylan, Walt Disney. Quando finalmente decidiram colaborar, escolheram: Death Row Records. Obey Giant. Ryan Coogler. A lógica era sempre a mesma: colaborações que ampliavam o universo de quem usa lápis, não que vendiam o lápis para novos mercados.
A real: Num SXSW dominado por debates sobre IA, automação e velocidade, a Blackwing foi uma das poucas vozes a fazer o argumento contrário, quase em um tom de meditação, sem romantismo vazio ou ludismo. A tese deles não é que tecnologia é ruim. É que o cérebro humano precisa de atividades que exijam presença física, fricção e tempo, e que quando esses momentos desaparecem da rotina, algo importante vai junto.
“Fricção cria vínculos. Você se esfrega contra algo e deixa um pedaço de você nele.”
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