Medicados para a vida toda? O conflito científico em torno dos antidepressivos • B9

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Medicados para a vida toda? O conflito científico em torno dos antidepressivos

Pesquisador contesta a hipótese da serotonina e descreve a abstinência de antidepressivos como um problema de saúde pública

por Juliana Wallauer / Co-Fundadora do Mamilos
Capa - Medicados para a vida toda? O conflito científico em torno dos antidepressivos
Imagem: Imagem: Agê Barros/IA

Mark Horowitz sobe ao palco para mexer numa das histórias mais repetidas da psiquiatria popular — a de que depressão seria, em essência, um “desequilíbrio químico” corrigido por remédio — e passa a próxima hora desmontando peça por peça da premissa que estrutura a compreensão de saúde mental da maioria de nós. Ele fala como psiquiatra em formação, pesquisador da neurobiologia da depressão, autor de diretrizes de desprescrição e, sobretudo, como alguém que tomou antidepressivos por mais de uma década e depois descobriu no próprio corpo que sair deles podia ser muito mais complicado do que ensinam na universidade.

O primeiro choque pra mim foi ouvir que a hipótese da serotonina não se sustenta. Ele explica que a tese de que depressão seria causada por baixa serotonina ou por um “desequilíbrio químico” não encontrou confirmação robusta depois de décadas de pesquisa. Horowitz cita o artigo-síntese que ajudou a colocar esse debate no centro da conversa pública; de fato, a revisão publicada em Molecular Psychiatry concluiu que a teoria da serotonina “não é empiricamente sustentada”.

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Horowitz. Divulgação

Ao derrubar a hipótese química, Horowitz não está negando a existência do sofrimento psíquico. Está dizendo que talvez a perspectiva dominante esteja errada. Na formulação dele, a depressão costuma ter mais relação com o que está acontecendo na vida do que com um defeito biológico escondido no cérebro. Ele cita estudos segundo os quais, aos 45 anos, algo como 70% das pessoas já preencheram os critérios de diagnósticos em algum momento — um número que, diz menos sobre uma epidemia de cérebros avariados e mais sobre o fato de que a vida quebra gente em escala industrial. Se o enquadramento é “há algo de errado no meu corpo”, o horizonte é manutenção da condição. Se o enquadramento é “cheguei a um breaking point”, entra em cena outra compreensão do sofrimento que inclui contexto, mudança, agência, esperança.

Mas a cruzada de Horowitz não é essa. O foco dele são os sintomas de abstinência que a tentativa de parar o tratamento causam. Horowitz diz, com todas as letras, que para algumas pessoas parar antidepressivos pode ser mais difícil do que parar heroína. Sintomas de abstinência podem ser intensos, prolongados e confundidos com recaída da condição original. Foi isso que aconteceu com ele, segundo relata: professores diziam que a retirada era suave e rápida, enquanto na internet, milhares de pacientes descreviam anos de inferno: cápsulas abertas em casa, comprimidos esmagados, líquidos preparados para reduções microscópicas. Hoje, o Royal College of Psychiatrists reconhece que a retirada pode ser severa e durar semanas, meses ou mais, e recomendam redução gradual com apoio clínico — justamente para não confundir abstinência com retorno da depressão.

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Parar com antidepressivos pode ser mais difícil do que parar com heroína. Imagem: Agê Barros/IA

Daí surge o desmame hiperbólico que ele defende. A lógica, segundo Horowitz, é simples: remédios não perdem efeito em linha reta à medida que a dose cai; a queda acontece em curva. Isso faz com que a parte final da retirada seja justamente a mais delicada. O erro do método tradicional é tratar esse trecho como se fosse o mais fácil. Para ele, não é. É por isso que a saída precisa acontecer em passos cada vez menores, muitas vezes com formulações líquidas ou doses manipuladas, respeitando o tempo que cada corpo consegue aguentar. Tão rápido quanto possível, tão devagar quanto necessário.

Como podemos ter consensos na comunidade médica tão distantes da realidade? Horowitz insiste que ninguém estuda direito os efeitos de longo prazo de um uso que, na vida real, frequentemente dura anos ou décadas. Ele critica o fato de boa parte dos estudos pivotais ser curta demais para espelhar a população que de fato usa esses remédios por muito tempo, e diz que os ensaios tampouco foram desenhados para medir abstinência com cuidado.

É nesse cenário que ele defende a importância de batalharmos por consentimento informado. Antes de começar um antidepressivo, diz ele, o paciente deveria saber pelo menos seis coisas: qual é o tamanho real do benefício esperado, quais são os possíveis danos, que alternativas existem, o que significa não fazer nada naquele momento, como seria a retirada do remédio e o que de fato se sabe — e não se sabe — sobre seu mecanismo de ação. Na fala dele, o problema não é apenas prescrever demais, mas prescrever sem explicar direito o pacote inteiro.

Horowitz diz que essa discussão é difícil porque não depende apenas de evidência, mas de quem escreve diretrizes, forma médicos e define o que conta como boa prática. No Reino Unido, o desmame gradual entrou na orientação oficial, já existe oferta desse cuidado no sistema público e as diretrizes são produzidas por órgãos governamentais com regras mais duras sobre conflito de interesse. O sistema público de saúde tem tamanho e interesse para responder ao problema: a dificuldade para sair do remédio vira custo, fila, demanda clínica e tema de saúde pública. Nos Estados Unidos, onde o sistema é mais fragmentado, a disputa fica mais exposta à lógica corporativa e ao peso dos laboratórios levando a mais resistência institucional ao protocolo. No Brasil, a disputa parece reunir elementos dos dois modelos.

Horowitz alugou um triplex na minha cabeça e me deixou com uma série de perguntas incômodas. Quem define o que conta como boa prática? Quem escreve os protocolos? Quem ganha quando o sofrimento é descrito como desordem crônica e quem paga a conta quando milhares de pessoas descobrem, tarde demais, que consentiram sem ter sido de fato informadas?


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