A era da mesmice: a criatividade sitiada
A criatividade humana comprimida por um ecossistema de mercados, mídia e algoritmos que empurra tudo para a média

Tem uma estranheza circulando por aí que muita gente já percebeu, mesmo sem conseguir descrever direito. Ela aparece nas cafeterias que parecem saídas do mesmo bairro pasteurizado, embora estejam em continentes diferentes. Nos logos que trocam personalidade por uma elegância clínica, intercambiável. Nos vídeos que falam de produtividade, startup, neurociência ou autocuidado com a mesma cadência, a mesma embalagem, a mesma coreografia de atenção. Foi essa sensação de desalinho que Gulay Ozkan levou ao palco do SXSW em “Something Feels Off: The Age of Sameness”: a ideia de que não estamos apenas cercados por coisas parecidas, mas vivendo dentro de uma condição dominante de mesmice.
Ozkan propõe trocar o foco de questionamento do individual - por que não consigo ser mais original, mais criativo, mais diferente? - para o coletivo: as condições para a criatividade ainda existem? Quando ela diz que “não há nada de errado conosco; o problema é a condição”, desloca a discussão do desempenho pessoal para a arquitetura do mundo em que estamos tentando pensar, sentir e produzir sentido.

Criatividade, no enquadramento dela, não tem nada a ver com o folclore da profissão criativa. Não pertence só a artistas, designers, publicitários ou gente remunerada para ter insights em workshops. Criatividade é uma das formas primárias de participar da vida. É o que permite que qualquer pessoa — de uma avó a um caminhoneiro, de uma mãe a um executivo — responda ao ambiente, ajuste rota, invente saídas, reorganize a existência diante do que acontece. Por isso a mesmice importa tanto. Não porque o mundo tenha ficado esteticamente aborrecido, mas porque a redução de variação sufoca justamente essa capacidade humana de adaptação.

Para sustentar a tese, ela organiza o raciocínio em torno de três pilares: repetição, variação e ritmo. Repetição, sozinha, não basta. Excesso de novidade também não resolve. Sem variação suficiente, a experiência empobrece; com estímulo demais, ela se fragmenta. Nos dois casos, o efeito converge: perdemos ritmo, e com ele perdemos margem para criar. O centro é a dificuldade crescente de integrar diferença de um jeito que vire experiência viva.
Ozkan divide a história moderna em três formas de mesmice. A primeira é a primal, que emerge da biologia humana e da cultura: as pressões sociais, os custos de parecer estranho, o desconforto de sair demais do script. A segunda é a estrutural, produzida por sistemas construídos por humanos — mercados, mídia de massa, política, design, instituições — e guiada por eficiência, previsibilidade e escala. A terceira é a algoritmica, produzida por sistemas construídos por máquinas, que não inventam do zero uma nova lógica, mas aceleram brutalmente a anterior. Em outras palavras: antes do algoritmo já existia uma força nos empurrando para o centro; agora ela opera em tempo real, com precisão industrial e aparência de neutralidade.

Ozkan insiste que algoritmos, mercados, plataformas, bolsa, cultura e instituições funcionam como ecossistema. O Spotify não só recomenda o que tende à média; ele ajuda a consolidar a média como horizonte de produção. A lógica não vale apenas para música, claro. Vale para marcas, cidades, repertórios, identidades e até para a forma como imaginamos uma vida desejável. Os sistemas modernos, ela resume, nos conduzem à média. A diferença não some completamente, mas vai ficando mais difícil de encontrar como diferença que realmente reorganiza a experiência.
Mergulhada na máquina de produzir FOMO que é o SXSW, me tocou especialmente o argumento sobre velocidade. A evolução tecnológica cresce em escala exponencial, enquanto a adaptação humana continua obedecendo outro compasso. Podemos gravar uma fala, transcrevê-la, resumi-la, transformá-la em post e distribuir tudo em minutos. O que não podemos fazer é acelerar na mesma proporção o tempo necessário para metabolizar uma ideia, absorver uma mudança, elaborar um afeto, construir sentido. “Não podemos acelerar cultura. Não podemos acelerar emoções.” Nesse desencaixe entre a velocidade das máquinas e o ritmo dos corpos, a mesmice deixa de ser apenas estética e passa a ser uma forma de sitiar a própria criatividade.
Para fechar Ozkan propõe mudar prioridades, aceitar consequências, reconhecer que incerteza, ambiguidade e imprevisibilidade não são falhas do sistema, mas matéria-prima da vida. Quando boa parte do trabalho cognitivo começa a ser delegada às máquinas, a autora turca nos convida a ir além do desejo por mais eficiência e deslocar nossa atenção para como preservar espaços onde possamos continuar participando do mundo de maneira humana.



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