A Nike veste a Seleção Brasileira, patrocina a CBF e estreia o filme até no canal oficial do time. Mesmo assim, Um Passarinho Me Contou mal mostra a Seleção em campo. Quem protagoniza é o cantor João Gomes, e o palco é a rua.
Sob o conceito “Joga Solto”, a peça da Wieden+Kennedy SP parte de um vídeo que circulou do cantor João Gomes batendo bola com o filho. É um filme online, montado com esse material caseiro e imagens da seleção, com estética documental e trilha de inspiração nordestina. Pega a conversa de pai pra filho e a transforma numa declaração sobre o futebol que nasce na rua. “Foi o futebol que te descobriu”, diz a narração, antes de convidar a próxima geração a jogar com a leveza de sempre.
Globalmente, a marca abandonou o filme de Copa como evento. No lugar do equivalente a “Write the Future”, soltou 42 polaroids autografadas de nomes que vão de Cristiano Ronaldo a Kim Kardashian, sob a legenda “Time to go off script”, com a promessa de ativações pingadas ao longo de 12 semanas.
Até a escolha de João Gomes, estrela em ascensão, conversa com isso. Em vez de contratar um astro e produzir do zero, a Nike pegou uma cena que já tinha viralizado sozinha, de graça, e construiu o filme em cima dela. Custa menos que um craque. Rende mais afeto. E aqui o cálculo encontra o histórico recente, porque os encontros anteriores da marca com a Seleção nesta temporada terminaram mal.
Em março, a Nike lançou “Vai, Brasa!” como bordão dos novos uniformes, estampado na gola e no meião. A torcida rejeitou. O presidente da CBF, Samir Xaud, disse ter sido “pego de surpresa”, segurou a repercussão e vetou o bordão.
Teve toda a celeuma da camisa vermelha, além da campanha “Alegria que Apavora”, que tropeçou quando o canarinho da peça apareceu com três patas, falha típica de imagem gerada por IA, uso que a Nike não confirmou. Três investidas diretas sobre a Seleção, três vezes o tiro saindo pela culatra.
Visto assim, “Joga Solto” é menos ousadia do que recuo calculado. Depois de tentar colocar palavra na boca da Seleção e ser recusada, a Nike volta pro único terreno onde a torcida não veta nada e onde o investimento sai mais barato: a memória afetiva. Ninguém rejeita o golzinho de rua nem vota contra a própria infância. E ninguém cobra superprodução de uma lembrança.
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