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Ato elitista ou medida desesperada? Oscar anuncia criação de categoria para definir o “melhor filme popular”

Novo pacote de mudanças anunciado pela organização também prevê uma cerimônia mais acessível em termos globais e uma nova data de realização

por Pedro Strazza

Esta afirmação talvez seja óbvia, mas o Oscar está em crise. A cerimônia realizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas vem encarando quedas severas nos índices de audiência já há uma década, tendo batido o recorde negativo este ano ao agremiar apenas 26,5 milhões de telespectadores para ver o triunfo de Guillermo del Toro e o seu “A Forma da Água” – o detentor anterior da marca era a premiação de 2008, que conseguiu um público pífio de 32 milhões de pessoas dias depois de uma longa greve dos roteiristas afetar toda a indústria.

É justamente por conta desse problema de popularidade (e de outros, como bem lembra a ainda recente polêmica do Oscars So White) que a Academia nos últimos anos vem implementando medidas para reforçar os holofotes e o circo midiático em torno de sua desejada estatueta, o que incluiu até aqui a procura por um anfitrião ideal e esforços para agilizar a realização da cerimônia, cuja longa duração de 3 horas se prova um obstáculo aos tempos mais hiperativos. Foram ações, porém, que se provaram infrutíferas até aqui: enquanto ideias como adiantar em meia hora a realização da premiação não fizeram nenhuma diferença para diminuir as quedas de audiência, os nomes escolhidos pela Academia para conduzir a cerimônia na maioria das vezes se provaram hosts embaraçosos, sendo as únicas exceções os apresentadores televisivos Ellen DeGeneres (cuja participação provocou um raro aumento de interesse nos índices) e Jimmy Kimmel, encarregado das últimas duas edições.

Mas a Academia não desiste e segue à procura de uma solução mágica que faça desaparecer todos os seus problemas, incluindo adotar decisões polêmicas. E a última proposta da entidade para alavancar o próximo Oscar é uma ideia das mais duvidosas: criar uma categoria para desenvolver o melhor “filme popular” do ano.

A notícia, no caso, foi dada pela própria Academia em seu perfil oficial no Twitter, onde anunciou hoje (8) a promulgação de três novidades para a próxima cerimônia – confira o tuíte na íntegra abaixo. Além da criação da nova categoria (que encontra-se em desenvolvimento, segundo a organização), a 91° edição do Oscar promete ser mais acessível globalmente e será realizada um pouco mais cedo em 2020, com os vencedores sendo anunciados no dia 9 de fevereiro ao invés do começo do mês.

Embora as duas outras medidas divulgadas tenham sua própria importância – imagine a temporada de lançamentos do Oscar no Brasil com a premiação ocorrendo quatro semanas antes, por exemplo – foi a notícia de uma categoria de filmes “populares” que gerou maior burburinho até o momento. Além da completa falta de detalhes sobre o que exatamente qualificaria um longa-metragem para a disputa (serão obras com desempenho de bilheteria acima de certo valor? Filmes de gênero?), a inclusão de uma estatueta do tipo parece feita apenas para aprofundar os problemas atuais da Academia, cuja decadência em popularidade passa por um distanciamento de seus indicados dos projetos mais assistidos pelo público.

Afinal, uma das principais críticas ao Oscar nas últimas edições é a ausência dos filmes mais comentados do cenário em sua lista de indicados, uma questão que começou a ganhar volume à partir de 2008 quando “O Cavaleiro das Trevas” de Christopher Nolan não “chegou” na premiação – o longa foi indicado a oito estatuetas, mas nas principais categorias acabou de fora. A resposta da Academia ao problema na época foi o de aumentar o número de nomeações em Melhor Filme e, mais tarde e impulsionado pelas questões do Oscars So White, expandir o corpo de votantes de forma que a diversidade de perfis auxiliasse na entrada destas produções maiores – para não dizer blockbusters – na cerimônia.

Por mais acertadas que tenham sido essas decisões, porém, seu efeito não demorou a passar e a acentuar o problema. Enquanto a expansão do principal prêmio da noite contribuiu para um aumento das produções voltadas para o Oscar depois de pouco mais de dois anos, os filmes de maior sucesso financeiro continuaram a ficar de fora da competição, a exemplo de “Mulher-Maravilha” este ano ou “Deadpool” em 2017 cujas ausências foram sentidas pelo público em suas respectivas edições. Talvez tenha sido por conta disso, inclusive, que a Academia agora tenha resolvido criar esta nova estatueta, uma cuja inspiração segue mais ou menos os moldes da divisão de prêmios principais do Globo de Ouro – cuja categoria de Melhor Filme de Comédia/Musical se converteu posteriormente em produções de gênero, como bem sugere as participações de filmes nada alegres como “Corra!” e “Perdido em Marte”.

O problema é que a decisão da Academia por instituir uma categoria “popular” no fundo deve mais ferir os caminhos da organização que ajudar na eventual recuperação do prêmio, pois sua existência (independente dos critérios utilizados) naturalmente deve gerar uma divisão absurda entre produções “de arte” e “de gênero” dentro da votação. Se em anos recentes obras-primas vindas do circuito comercial e aclamadas pelo público como “Mad Max: Estrada da Fúria” e mesmo o “Corra!” encontraram seu espaço na disputa da estatueta de Melhor Filme nos últimos anos, eles também encararam resistência por parte de uma parcela de votantes por não serem considerados “filmes de Oscar”, um tipo de pensamento elitista que só deve escalonar com a criação de um prêmio destinado a longas bem sucedidos nas bilheterias.

Esta é uma categorização de cinema que não deve contribuir para que o Oscar reencontre seu público e retorne a seus tempos áureos, mas pode ser nociva a uma parcela significativa da indústria ao aprofundar preconceitos cinematográficos já existentes. Por mais que a premiação tenha perdido sua atribuição como reconhecedora de produções de qualidade já há alguns anos, as consequências de uma divisão entre obras populares e “de arte” podem ser fatais à estatueta que hoje é um dos troféus mais reconhecidos no mundo.

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