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“Corra!”: o terror de uma sociedade racista

“Corra!”: o terror de uma sociedade racista

No primeiro longa de Jordan Peele, não há monstro mais assustador do que o homem branco

por Virgílio Souza

⚠️ AVISO: Contém spoilers

Quem chega desavisado a uma sessão de “Corra!” tem motivos de sobra para se surpreender. Logo que os protagonistas surgem em tela, o rapaz pergunta à namorada se os sogros, que o casal se prepara para visitar pela primeira vez, sabem que ele é negro. Ela, até com certa tranquilidade, assegura que sua família não é racista — o pai diz que votaria em Obama para um eventual terceiro mandato, veja só. Como em uma versão de “Adivinhe Quem Vem Para Jantar” atualizada para os Estados Unidos do século 21, esse trecho coloca a tensão social no centro da narrativa.

A maneira de tratar a temática, no entanto, leva o filme para outros caminhos. O desconforto que Chris (Daniel Kaluuya) deixa transparecer ali, entre um olhar desconfiado e um suspiro de compreensão esforçado, ganha corpo mais adiante seguindo várias convenções do terror. Para Jordan Peele, roteirista e diretor, o preconceito em suas mais diversas manifestações é encarado como um monstro, um “demônio social” capaz de assustar mais do que qualquer criatura inventada.

Jordan Peele no set

Situações como a retratada na sequência de abertura — um negro perdido à noite numa vizinhança branca — carregam o tom hostil e o caráter excludente da realidade, mas ganham contornos diferentes quando vistos pela lente do gênero, através da qual tudo é possível.

Os diálogos ajudam a expôr a gravidade do problema, em especial quando envolvem Rod (Lil Rel Howery), amigo do personagem principal e voz do espectador em cena. Seu bom humor desarma a audiência, distraindo o foco para a comédia imediatamente antes de o longa promover um susto. A aparição do veado na pista antes do atropelamento, por exemplo, tem maior impacto porque, segundos antes, todos no carro riam ao telefone, levando junto o público.

Somente essa cena traz consigo uma dúzia de detalhes relevantes para o desenrolar da história. A brincadeira de Rose (Alisson Williams) sobre os ciúmes do namorado, por exemplo, ganha outro sentido em retrospectiva, depois que eles voltam a se falar pelo celular. O fato de Chris abandonar o bicho ferido pelo caminho também muda em grau de importância posteriormente, quando descobrimos mais sobre seus traumas e arrependimentos.

Bastante inventiva, a direção emprega recursos inteligentes para costurar esses pequenos momentos de choque em uma linha coerente. Determinadas imagens são inseridas ao longo da trama, apresentadas num contexto e depois interpretadas de outra forma, o que cria conexões de identificação fácil. Na cena em que se livra do sogro (Bradley Whitford), o protagonista usa como arma os chifres de um animal da mesma espécie daquele morto no acidente; na conversa com a garota antes da viagem, ele diz que não quer ser perseguido por alguém com uma espingarda — justamente o que acontece quando o terror toma conta.

Essas rimas visuais funcionam bem porque a atmosfera ao redor delas é tão intimidadora. No percurso até o desfecho explosivo, o longa usa a habilidade da mãe (Catherine Keener) em técnicas de hipnose para destruir as defesas de Chris (e do espectador, que se coloca no lugar dele) e, assim, abrir espaço para que seus medos ganhem vida, expressados de maneiras cada vez mais radicais. Nesse sentido, sons específicos induzem sensações específicas (vale tanto para a trilha sonora quanto para a colher que toca a xícara num movimento ritmado e apreensivo), e todo gesto ou troca de palavras parece dizer algo além do que realmente vemos ou ouvimos.

Em algumas ocasiões, no entanto, Peele se rende a truques mais simples do gênero que, embora consigam cumprir suas funções na trama, soam gratuitos pela maneira como são armados. O trecho em que Walter (Marcus Henderson) corre em direção à câmera, por exemplo, parece deslocado de seu entorno. Problema semelhante afeta o personagem do cunhado (Caleb Landry Jones), que às vezes surge exageradamente acima do tom e foge da aparência de normalidade da família — na comparação com outros filmes do gênero, seu efeito em cena seria como “mostrar o monstro cedo demais”.

A direção não chega a trair seus princípios nesses momentos, mas definitivamente se destaca mais quando confia no próprio discurso sem a obrigação de deixar essas provocações explícitas. Isso à parte, o filme jamais perde seu norte e mantém o compromisso com o terror e suas bases até o último segundo: a virada final pega o espectador imerso na urgência dos acontecimentos extraordinários da trama e subverte suas expectativas quando traz o foco outra vez para a realidade, deixando no ar o temor da violência policial.

A virada final pega o espectador imerso na urgência dos acontecimentos extraordinários da trama e subverte suas expectativas

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Tamanha habilidade para relacionar o terror real (o comentário racista que marginaliza, a objetificação disfarçada de elogio) e o terror de cinema (o transplante de cérebros, os flashes que resgatam a consciência) não parece ser sorte de principiante. Estreante no comando de longas e no próprio gênero em qualquer formato, Peele tem a seu favor experiência na televisão. Em “Key & Peele”, seu programa de esquetes de humor exibido entre 2012 e 2015, o diretor-roteirista já colocava à prova várias das técnicas e temáticas presentes em “Corra!”.

Formato e gênero mudam, mas o interesse em contextos que permitem discussões sobre problemas reais permanece o mesmo. A comédia passa ao segundo plano, enquanto o suspense e o horror, que apareciam frequentemente em segmentos da série, se tornam centrais. Se antes Peele conseguia fazer rir quando colocava personagens negros em espaços predominantemente ocupados por brancos, agora ele revela a face mais aterrorizante dessa realidade — em um dos filmes mais instigantes já feitos sobre ela.

nota do crítico

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