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Netflix já lançou seus podcasts. Ninguém ainda sabe como chamá-los.
Primeiros originais incluem Pete Davidson e Michael Irvin, mas até os próprios hosts não sabem definir o formato que a plataforma está criando
Em outubro passado, contei aqui e discutimos no Braincast que Netflix e Spotify tinham fechado acordo para trazer 16 podcasts em vídeo ao streamer, tirando as versões completas do YouTube. Os programas chegaram. E trouxeram junto uma crise de identidade que ninguém ainda resolveu: afinal, o que a Netflix está fazendo é podcast?
Os originais que estrearam recentemente — "The Pete Davidson Show", "The White House With Michael Irvin" e "Bridgerton: The Official Podcast" — não existem em áudio. Não estão em nenhum player de podcast. São gravados em sets decorados, com câmeras de alta resolução e iluminação cinematográfica. O ícone que a Netflix usa para sinalizar conteúdo de podcast é, literalmente, a imagem de um microfone. É tudo que têm em comum com o formato original.
Por que importa: Podcast em vídeo virou talk show com outro nome, e a distinção importa porque define contratos, custos sindicais e o futuro de quem trabalha no setor. No Brasil a realidade de produção é diferente, com muitos podcasts já em vídeo desde o primeiro dia, mas o que acontece lá fora deve impactar os contratos por aqui.
A crise de identidade: Segundo reportagem do NY Times, até os hosts discordam entre si. Charlamagne Tha God, do "The Breakfast Club" (licenciado pela Netflix via iHeartMedia), se define como "purista de podcast" e prefere chamar a versão Netflix de "vodcast". Brandon Marshall, co-apresentador do "The White House", fez questão de simplificar a produção para que o espectador perceba que não é uma série Netflix tradicional: "Minha abordagem é simplificar ainda mais."
Pete Davidson foi na direção oposta. Seu programa, gravado na garagem de casa em LA, tem microfones escondidos, iluminação dinâmica e câmera na mão. É o mais cinematográfico do lote, e o que mais confunde a fronteira entre podcast e TV.
A conta que fecha (de novo) A lógica financeira que descrevi em outubro se confirmou. Como a ex-CEO da Wondery, Jen Sargent, resumiu ao NYT: "Mais do que entrar em podcasts, eles estão defendendo sua fatia de atenção na sala de estar. Estão comprando frequência a um custo menor que TV de prestígio."
- Série de prestígio: mais de US$ 10 milhões por episódio, lançada de uma vez.
- Podcast em vídeo: fração do custo, episódios novos várias vezes por semana.
- Tier de anúncios: faturou US$ 1,5 bilhão em 2025, projeta US$ 3 bilhões em 2026.
O problema sindical: O "The Pete Davidson Show" estreou sem cobertura sindical. Semanas depois, assinou com a SAG-AFTRA sob o contrato de podcasts, que tem pisos salariais menores que o de talk shows. É a arbitragem de custos funcionando na prática: mesmo programa, mesmo formato, classificação diferente, conta mais barata.
📸 The big picture: O YouTube registrou 700 milhões de horas de podcasts em TVs só em outubro de 2025 — alta de 75% sobre o ano anterior. No mesmo período, ultrapassou a Netflix como provedor de TV mais assistido nos EUA pela primeira vez, segundo a Nielsen.
Josh Lindgren, chefe de podcasts da CAA, uma das maiores agências de talentos de Hollywood: "Em 2016, podcast significava encontrar a audiência no trajeto pro trabalho. Em 2026, significa encontrá-la na sala de estar."
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