Cultura 7 jul 2026

Tradição e marcas se misturam no São João de Campina Grande

Conhecida como o Maior São João do Mundo, a festa dura 33 dias e recebe milhares de pessoas diariamente, mas ainda é vista como “cultura regional”

Tradição e marcas se misturam no São João de Campina Grande
(Prefeitura de Campina Grande/Divulgação)

Desde 1983, Campina Grande é palco do maior São João do Mundo. A festança nasceu assim, já com esse título, e preenche o mês de junho com programação diária no tradicional Parque do Povo desde então. Em 2026, são 33 dias de evento, 3,5 milhões de pessoas esperadas durante esse período em uma celebração sem igual da diversão como pilar cultural.

Quem não pode estar lá fisicamente pode acompanhar a transmissão ao vivo no YouTube gratuitamente. A principal delas é liderada pelo Sua Música, o principal streaming de música brasileira com adesão fortíssima no nordeste, que inclusive já deixou o Spotify em segundo lugar na região.

O grande diferencial está no repertório que os artistas colocam ali. Versões alternativas de músicas, canções exclusivas e setlists de shows, tudo está atualizado e disponível pra que o público conheça, ouça, dance e lote apresentações. Quem é novato tem a chance de conquistar novos fãs, e gigantes consolidados como Wesley Safadão, Leonardo e Zezé Di Camargo dividem o espaço porque entendem que o Sua Música é um termômetro afiado pra entender quais canções têm mais potencial para se tornarem grandes hits. 

Parque do Povo (Prefeitura de Campina Grande/Divulgação)

43 anos de evento, muitos dias seguidos de atrações variadas, título de maior São João do Mundo homologado pelo RankBrasil em 2022, uma transmissão online que, em 2025, somou mais de 48 milhões de visualizações… se é tão grande, por que o Brasil inteiro não é obcecado por essa data como é pelo Carnaval, por exemplo? Marcela d’Arrochella, sócia e diretora comercial do Sua Música, explica:

“Falta visibilidade e espaço dentro dos grandes veículos. A gente vai derrubando algumas barreiras ao longo do tempo, mas ainda falta muito. O YouTube é um grande parceiro, por exemplo, e a cada ano nos unimos com novos players que se preocupam em potencializar essa festa que é um patrimônio cultural brasileiro”.

Obviamente, uma celebração dessas não sobrevive sem patrocínio. Em 2026, 29 marcas estão presentes no São João de Campina Grande e boa parte delas entra na dança! Além de aparecerem nos telões e palcos, os estandes de ativações mais bem-sucedidos são os que se desprendem da seriedade e se deixam contaminar pelo clima, como a Quero, que criou um cenário de “casa de vó” e chamou o público pra uma pescaria. Estandes com brincadeiras, pequenos palcos patrocinados e barracas de comida que tinham mais filas eram os que davam mais importância pros festejos com jogos e prendas temáticas.

Outras, mais engessadas, apresentavam propostas mais desconexas, cenários para fotos ou oportunidades de compra. É o caso da Betano, que promoveu a mensagem “jogue com responsabilidade” por meio de dinâmicas definidas por eles mesmos como uma "forma lúdica de aprender sobre o entretenimento consciente”. Não empolgam e parecem deslocadas no meio da multidão.

Estande da Betano no São João de Campina Grande 2026 (Divulgação)

Marcela conta que a integração que toda agência sonha não se constrói do nada: “Falta um olhar de marca perene. Alguns querem vir aqui apenas uma vez por ano, não conhecem as pessoas e a cultura. Se você não viver de verdade, não vai conseguir transmitir sua mensagem com legitimidade. Falta vivência das marcas e dos veículos pra transmitir a grandiosidade do São João”. 

Ativação no estilo “casa da vovó” promovida pela Quero (Rickson Riccelli/B9)

“Vivência” é a palavra-chave. Lucas Veloso, ator, comediante e apresentador das transmissões do São João pelo sua música é um dos grandes defensores da autenticidade do Maior São João do Mundo: “Ser o maior faz com que você precise se desprender de algumas coisas. E temos problemas como qualquer outro festival. Mas tu nunca vai encontrar estrutura como essa daqui”. Ele ainda destacou que é mais plural do que muitos imaginam:

"Quando a gente troca cultura, todo mundo cresce. O cara é punk, a menina é rock, o outro é forró. E na mistura a gente aprende, a gente fica maior. Isso é Brasil!”

Pra entender de verdade o que significa toda essa mistura, tem que estar lá. O São João de Campina Grande tem um público 4 vezes maior do que o Rock In Rio com entrada gratuita. É lar da maior quadrilha junina do Brasil, com 1.319 pares em 2026. Do maior bolo de milho do Brasil, que em 2026 bateu com 50,53 metros e pesou 705,9 quilos. A cidade inteira abraça o evento, publicidade e programação locais só falam nisso. A caminho da festa é comum ver bares, restaurantes e carrinhos de comida sintonizados na transmissão dos shows pelo Sua Música.

(Prefeitura de Campina Grande/Divulgação)

É no São João que famílias, casais e grupos de amigos passam o mês indo criar memórias, dançar, assistir seus artistas preferidos, comer e beber bem. Estar no Parque do Povo em época de São João é ocupar um espaço culturalmente rico de forma livre e sem pagar nada. É democrático e tem a diversão como valor inegociável. Ou seja: a empresa que quiser marcar presença nesta celebração precisa aprender a se despir da rigidez e entender que só vai conquistar a atenção dos milhares de presentes se entrar na brincadeira pra valer.

Seria fácil cair no clichê e dizer que o São João de Campina Grande “não é só farra”. Muita gente trabalha de forma árdua para colocar tudo de pé, é claro. Mas a parte mais importante de tudo é, sim, a garantia do direito de farrear! É o exemplo perfeito do que diz o historiador e autor Luiz Antonio Simas: “Na contramão da dureza dos dias, das obrigações que nos deixam engessados, a festa é um jeito de reafirmar a vontade de seguirmos vivos”. 

Aberto a membros do B9. Crie sua conta grátis para participar.

Beatriz Fiorotto

Beatriz Fiorotto

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