Cannes celebrou a mão humana a semana inteira, mas o maior palco foi para a IA do Google
Demis Hassabis dividiu o Lumière com a A24 para falar da parceria de US$ 75 milhões; dias antes, o Project Genie, do próprio Google, levou Grand Prix de Digital Craft

Nas conferências de imprensa, para apresentar os grandes prêmios, Cannes Lions 2026 passou a semana inteira dizendo uma coisa: a mão humana venceu a IA. Foi a tese-mãe do festival, batizada pelos próprios jurados de craft. O feito à mão, o trabalho humano, o analógico, venceram disciplina após disciplina, numa edição em que a declaração de uso de IA nas inscrições saltou de 11% para 40% em três anos. Mas o pódio escolheu um lado.
Porém, na quarta à tarde, no Lumière, o maior palco do festival contou a história oposta. Quem o ocupou foi Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind e Nobel de Química de 2024 — o homem cujo Project Genie foi usado em um Grand Prix de craft que a IA levou, em Digital Craft. A moderadora, da Bloomberg, abriu parabenizando-o justamente por esse Leão.
Aí veio a terceira cadeira. Sem aviso, subiu ao palco Scott Belsky, sócio da A24 e líder do A24 Labs, a divisão de tecnologia da produtora. O motivo é o acontecimento de IA da semana em Hollywood: a parceria entre o DeepMind e a A24, revelada pelo Wall Street Journal no início da semana.
Os termos, segundo a reportagem do WSJ:
- investimento de cerca de US$ 75 milhões do Google na A24
- parceria de pesquisa não-exclusiva, focada em ferramentas de produção e distribuição
- acesso ao processo, não ao acervo: o acordo exclui de propósito os filmes e os dados da A24, e o Google não vai treinar modelo em cima de "Moonlight", por exemplo
- não é um acordo de produção, e não há obrigação de nada ser produzido
Pesquisadores do DeepMind vão trabalhar com os cineastas da A24 para construir novos fluxos, começando por coisas como storyboards gerados por IA. O que ficou de fora é o que a A24 mais guardou. O que entrou é o que ela mais protegeu durante os últimos anos: o método.
Por uma década, a A24 se recusou a explicar como faz o que faz. Construiu uma marca tão forte que vira tatuagem, e produziu desde "Tudo Em Todo Lugar ao Mesmo Tempo" até o sucesso recente "Backrooms" sem nunca revelar muito como a salsicha é feita. Uma ironia aqui é que Kane Parsons, jovem diretor de "Backrooms" classificou a IA generativa como "creative rot", podridão criativa.
No palco, a defesa veio pronta e é antiga. IA é o novo CGI. Hassabis afirmou que a computação gráfica era ruim e sofria resistência antes de os dinossauros de "Jurassic Park" ganharem vida, e lembrou como a Pixar enfrentou ceticismo antes de virar padrão. Belsky completou com a régua dele: criador troca controle por velocidade quando faz anúncio para redes sociais, mas, nas palavras dele ao WSJ, as ferramentas vão "preservar o controle criativo e apoiar o risco", sem se parecer com a IA de prompt que deixa as pessoas desconfortáveis. Ou seja, a promessa não é gerar o filme. É aumentar a "superfície de possibilidade" e testar mais caminhos, mais rápido.
"É o novo CGI" seduz, mas é incompleto. A computação gráfica não comprou uma cadeira dentro da sala onde o filme é decidido. O próprio Belsky admite que artista não troca controle por velocidade. A ferramenta entra opcional e, como nota a reportagem, tende a virar estrutural, até que o filme não se faça mais sem ela. Essa é a promessa. Veremos.
Mas o que salta aqui é, novamente, a contradição. Algo que já vem desde o ano passado. Cannes deu o troféu para a mão humana e o palco para o Google na mesma semana, e nenhuma das duas falas cancela a outra. É o sinal mais honesto de uma indústria que ainda não decidiu o que pensa e que, por ora, aplaude os dois lados.


