Novo álbum de Childish Gambino, “3.15.20” soa como mixtape pretensiosa demais – e isso não é ruim

Trabalho é uma grande viagem pelas experimentações e o processo criativo de Donald Glover

por Soraia Alves

Embora dificilmente você tenha ouvido Donald Glover pela primeira vez apenas em 2018, quando ele lançou a inquestionável “This is America” sob o seu pseudônimo musical Childish Gambino, isso pode ter acontecido para algumas pessoas. Então já fica o aviso: “3.15.20” tem poucos resquícios do sucesso que rendeu quatro Grammys ao cantor. De fato, a única ligação entre um trabalho e outro são as reflexões de Glover sobre a sociedade.

Com algumas faixas que já eram de conhecimento do público, especialmente dos fãs, “3.15.20” soa como uma mixtape extremamente pretensiosa, na qual o músico explora essencialmente o Hip Hop e a música eletrônica, além de suas bases já conhecidas de Funk e R&B, mas com influências que passam por Pink Floyd, Michael Jackson, Kanye West e Prince – este também já lembrado por Glover em seu (ainda) melhor álbum, “Awaken, My Love”, de 2016.

Tirando as canções “Algorhythm” e “Time”, todas as outras músicas foram nomeadas apenas com a marcação do tempo em que começam no disco, inclusive “42.26”, já conhecida e lançada anteriormente como “Feels Like Summer”.

Há quem garanta que o álbum vazou antes da hora. Há quem ache só uma jogada de marketing. De qualquer forma, o resultado é o mesmo: uma grande experimentação do processo criativo de Glover.

Há canções realmente especiais, como “Time”, a parceria com Ariana Grande que resultou num casamento de vocais que nunca imaginamos ser tão lindo, e que aborda a urgência da vida moderna e a necessidade de sempre estar bem e ser produtivo. Há ainda a incrível “53.49” e a animalesca “32.22”, já apresentada ano passado quando Glover foi headliner do Coachella, e que imediatamente evoca “Black Skinhead”, de Kanye West.

Mas também temos peças como “12.38”, que está ali só para fazer volume, e “Algorhythm” cujos vocais iniciais são até difíceis de compreender. São nesses momentos que a pretensão de Donald Glover fica evidente, como se nenhum crivo fosse necessário em suas experimentações. Ainda assim, ao lançar um álbum com cara de mixtape, isso parece mais uma ironia proposital, inclusive como as próprias rimas ruins de “12.38”.

Antes do disco acabar ele ainda entrega a floydiana “47.48”, que tem a participação de Legend Glover, filho de Donald. Pode até parecer piegas, mas dentro de um disco que questiona tanto para onde estamos indo como sociedade, ouvir uma criança dizendo que ama os outros e a si mesma, parece a resposta.

Na balança, a pretensão de Glover acaba pesando mais para o lado positivo, principalmente para entender que artistas como ele transitam por caminhos plurais demais, e nem todos esses caminhos serão tão interessantes de acompanhar. Mas é justamente essa multiplicidade que torna difícil não ser impactado por alguma de suas obras. Em “3.15.20”, a comoção pode ser menor, mas ainda relevante o suficiente para ficarmos na espera do que vem a seguir.

nota do crítico

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