Criatividade 10 jul 2026

Anthropic faz do medo da IA o posicionamento de marca do Claude

Assinada pela Mother, a campanha "Hope in Hard Questions" convida o público a enviar o que teme na IA e promete documentar publicamente onde a empresa não cumprir as próprias metas

Anthropic faz do medo da IA o posicionamento de marca do Claude

A Anthropic lançou uma campanha que faz o contrário do que a categoria costuma fazer. Em vez de exibir o que a IA resolve, ela pede que você diga o que teme nela.

"Hope in Hard Questions" é o novo capítulo da plataforma "Keep Thinking", que a dona do Claude estreou em 2025, de novo com a agência Mother. O filme, de 90 segundos, admite o encanto e também o medo em torno da IA, e convida as pessoas a mandarem suas preocupações sobre o impacto da tecnologia no emprego, na criatividade, na segurança e no rumo da ciência.

A empresa diz que vai documentar publicamente o que faz pra responder a cada uma, incluindo as áreas em que não bater as próprias metas. No site da ação, dá pra ouvir perguntas que gente do mundo todo já enviou.

Segundo a empresa, já são mais de 120 mil pessoas ouvidas: 52 mil num levantamento direto feito nos EUA, e mais 81 mil usuários do Claude em 159 países e 70 idiomas, além de conversas com comunidades cujo trabalho ou tradição a IA pode afetar.

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Num mercado que vende certeza, a Anthropic escolheu vender dúvida. OpenAI e Google disputam quem exibe a capacidade mais impressionante, o "olha o que a minha máquina faz". A Anthropic ocupa a cadeira vazia ao lado, a da consciência, o "olha as perguntas difíceis que a máquina levanta". É a imagem de IA boazinha que a empresa faz questão de demonstrar desde que existe (ainda que bem sempre cumpra esse papel).

Em Cannes, semanas atrás, foi a Anthropic com a Mother que levou o Grand Prix de Film com a promessa de um Claude sem publicidade, enquanto a OpenAI subia ao palco pra apresentar seu negócio de anúncios. A empresa vem construindo, com método, a marca da IA responsável. E confiança é o ativo mais escasso da categoria, porque o público está com medo. Quem se posiciona como o adulto da sala transforma esse medo em diferencial.

Obviamente, quem faz a campanha é a mesma empresa que corre pra construir modelos cada vez mais capazes e tão rápido quanto qualquer concorrente. A companhia que lucra com a aceleração da IA é a que te oferece o espaço pra ter medo dessa aceleração.

De qualquer maneira, eu não diria que isso anula o gesto. A promessa de listar publicamente onde a empresa falha é rara na categoria, e mais concreta que o "IA para o bem" genérico que a concorrência pratica. A confiança só se prova com ações concretas e se a tal documentação pública mostrar de fato onde a Anthropic não chegou. Melhor ainda se for capaz de evitar, digamos, que a ferramenta seja utilizada como arma de guerra. Até lá, "Hope in Hard Questions" é a peça de construção de confiança mais elegante que o setor produziu, e também a mais conveniente.

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Carlos Merigo

Carlos Merigo

Fundador do B9, host do Braincast e Cinemático. Escreve sobre mídia, publicidade e cultura digital há mais de 20 anos (geralmente tentando entender o hype antes que ele vire PowerPoint).

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