Festivais de cinema de Cannes e Veneza negam proposta de “edição online” com pandemia

Diretores artísticos de ambos os eventos respondem decisões recentes do SXSW e do festival de Toronto dizendo que alternativa digital "não cabe à proposta"

por Pedro Strazza

A pandemia do coronavírus afetou de maneira definitiva toda a indústria do cinema, e cada segmento do mercado tem uma crise para chamar de sua. Mas enquanto o circuito exibidor se encontra fechado até segunda ordem e os estúdios de Hollywood refazem seus calendários para os próximos dois anos, a rede global de festivais se encontra numa difícil encruzilhada: como manter a programação quando o evento físico se encontra inviável?

Alguns organizações do circuito já estão contornando a questão com edições online de suas mostras, liderados de maneira clara pelo SXSW que, perante a queda geral do evento, decidiu não apenas continuar com sua premiação mas também fez uma parceria com a Amazon para disponibilizar o máximo possível de produções ao público estadunidense. Esta proposta não parece ser o suficiente para outros pontos importantes do meio, porém, incluindo aí os tradicionais festivais de cinema de Cannes e de Veneza.

No caso da clássica mostra do litoral francês, a justificativa aparentemente está numa questão de formato. Em entrevista à Variety, o diretor do festival Thierry Fremaux declara que para Cannes, em especial “sua alma, sua história, sua eficiência, é um modelo que não funcionaria”. “O que é um festival digital? Uma competição digital? Nós deveríamos começar nos perguntando se os donos dos direitos concordam com este plano.” ele continua; “Filmes de Wes Anderson e Paul Verhoeven em um computador? Descobrir ‘Top Gun 2’ ou ‘Soul’ em algum lugar fora de um cinema? Estes filmes foram adiados para serem mostrados na tela grande; por que nós deveríamos mostrá-los antes em um aparelho digital?”.

A organização de Veneza tem um posicionamento bastante parecido com o de Fremaux. Também procurada pela Variety, o evento respondeu por meio de um porta-voz que o festival “não tem como ser substituído por um evento online”, adicionando que apesar do “uso da tecnologia para algumas iniciativas” ainda seria “muito cedo” para decidir pela opção. A declaração corrobora a fala dada por seu diretor artístico Alberto Barbera, que no último fim de semana disse que nem estaria cogitando opções do tipo para a mostra deste ano.

Os comentários chegam não apenas em resposta à parceria entre o SXSW e a Amazon, mas também em relação às recentes declarações dadas pela organização do Festival de Toronto. Na última semana, a diretora executiva Joana Vicente e o diretor artístico Cameron Bailey comentaram numa live que o evento estava cogitando para a edição deste ano ser “o festival dos festivais”, além de admitir a possibilidade do uso de canais digitais para fornecer a um maior público as produções que até antes da pandemia cogitavam se inscrever para as principais mostras do meio.

À italiana ANSA, Barbera fez questão de mostrar o grau de separação entre as duas organizações, chegando a comentar que “Toronto é um tipo muito diferente de festival, não comparável a Cannes ou Veneza”. Do lado francês, Fremaux foi um pouco mais “democrático” na entrevista para a Variety, dizendo que “Se todos os festivais forem cancelados, nós vamos pensar em formas de mostrar os filmes de forma a evitar a perda inteira de um ano”. O diretor de Cannes também afirma, porém, que acha que “uma alternativa precária e improvisada” para os dois eventos não seria a solução.

“Diretores de ‘filmes’ são guiados pela ideia de mostrar seus filmes numa telona e compartilhá-los com outros em eventos como festivais, não que seus trabalhos terminem sendo vistos em um iPhone” comenta Fremaux.

A briga no fundo gira em torno de pirataria, claro, mas também envolve no caso de Cannes o circuito exibidor francês, que faz parte do conselho da organização por trás do evento. Além de vender a ideia de uma plataforma prestigiada de divulgação, o festival também tem um acordo de décadas com as salas de cinema do país para manter intacta a janela de exclusividade entre a estreia nas telonas e o debute em canais home video. São eles que estão por trás das relações desgastadas entre Cannes e a Netflix, vale lembrar – uma que preveniu no passado o debute de projetos históricos como “O Outro Lado do Vento” no festival.

O tempo continua a passar, enquanto isso, e os dois eventos tem datas (e pressões) a cumprir. Se Cannes lida com a situação de não saber se a data do fim de junho e começo de julho será suficiente para marcar o fim da pandemia e a realização da edição deste ano, Veneza já tem na mão a pressão de ver a bienal da cidade ter sido adiada para agosto por conta do coronavírus – além da questão dura de realizar uma mostra luxuosa em um dos países mais afetados pela doença.

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