CEO da Netflix quer ter hits suficientes para que usuário nunca “pense” na concorrência

Com plataforma na altura dos 193 milhões de assinantes, Reed Hastings agora considera TikTok como adversário e classifica "Hamilton" como tipo de fenômeno a ser isolado pelo serviço

por Pedro Strazza

Se na guerra dos streamings a meta desde sempre é a batalha por horas, Reed Hastings agora quer ir pro tudo ou nada. Durante a reunião por videochamada com acionistas nesta última quinta (16), o CEO da Netflix afirmou categoricamente que ele quer sua plataforma “tenha tantos hits que você saiba que, quando vier à Netflix, você pode ir de hit a hit e nunca precise pensar sobre qualquer um dos outros serviços”.

“Nós queremos ser a primeira escolha, seu melhor amigo, aquele que você vira para pedir ajuda” continuou o executivo na ocasião, no qual usou ainda o lançamento de “Hamilton” no Disney+ de exemplo do tipo de acontecimento inevitável que a companhia vai buscar isolar em termos de audiência: “Ocasionalmente há um ‘Hamilton’ e você vai acessar o serviço de streaming de outra empresa para assistir um filme extraordinário. Mas na maior parte do tempo nós queremos ser aquele que sempre agrada você e seja a escolha conveniente e simplesmente mais fácil” disse.

Os comentários do executivo não foram feitos à toa. No evento com os acionistas para divulgar os resultados financeiros do último trimestre fiscal, a Netflix revelou ao mundo que os últimos três meses foram extremamente bem sucedidos para a plataforma, que superou as expectativas mais temerosas do começo da pandemia e registrou um volume de 10.09 milhões de novos assinantes. Com isso, o serviço de streaming agora conta com um total de quase 193 milhões de usuários, que vem consumindo com avidez os últimos lançamentos da companhia.

Prova disso é a sequência de sucessos que o serviço de streaming divulgou durante o evento com os acionistas – mesmo que ainda imbuídos na regra controversa de considerar como público quem assistiu dois minutos do título. Enquanto séries como “Eu Nunca…” e “Space Force” angariaram 40 milhões de espectadores no primeiro mês de vida, a Netflix confirmou que reality shows como “Brincando com Fogo” e “Jogo da Lava” surpreenderam durante a quarentena, alcançando audiências de respectivamente 51 milhões e 37 milhões de usuários.

Os filmes originais da plataforma também foram imensamente populares no último trimestre, liderados sem dúvida pelo “Resgate” que quebrou recordes com seus quase 100 milhões de espectadores. Outros hits – para ficar no termo usado por Hastings – incluem “A Missy Errada”, com 59 milhões de usuários; “Os Irmãos Willoughby”, com 38 milhões; e “Destacamento Blood”, que só nas primeiras quatro semanas foi assistido por 27 milhões de contas.

Todos esses “hits” no fundo tiram tempo de consumo da concorrência e reforçam a liderança da Netflix, um cenário que em parte explica o porquê de Hastings ter mudado a chave para um discurso mais agressivo. O curioso é “quem”, porém: além de ter citado todos os novos competidores que adentraram o mercado de streaming nos últimos meses – e que incluem os “serviços” HBO Max, Disney+, Peacock e os “provedores de conteúdo premium” Apple TV+ e Amazon Prime Video – o CEO também citou o TikTok como adversário, classificando seu crescimento como “espantoso” e a rede social num todo como uma “que mostra a fluidez do entretenimento na internet”.

É neste ponto que a voracidade do discurso do executivo se mostra ainda mais evidente. No evento, Hastings afirmou que “Ao invés de nos preocuparmos com todos estes competidores, nós continuamos a manter nossa estratégia de tentar melhorar nosso serviço e conteúdo a cada trimestre mais rápido que os colegas”, comentando ainda que “o crescimento forte continuado é prova desta abordagem e do tamanho do mercado de entretenimento”.

Enquanto isso, a grande preocupação da Netflix no momento é 2021. Na carta oficial aos investidores, a companhia declara a paralisação da produção audiovisual gerada pela pandemia deve começar a afetar o ritmo industrial de lançamentos do serviço só a partir do ano que vem, dado que “os planos da equipe de produção de conteúdo são longos”. “Baseado em nossa estratégia atual, nós esperamos que a retomada das produções paralisadas levem a um segundo semestre mais pesado em termos de oferta de conteúdo de nossos maiores títulos” escreve a empresa, que também acredita que, com isso, o volume total de originais lançados no próximo ano supere o atual.

Isso significa, claro, que o segundo semestre de 2020 deve se manter mais ou menos intacto em termos de lançamentos – até porque o serviço continua ativo na aquisição de conteúdos, vide a compra dos direitos de “Cobra Kai” e da nova animação do Bob Esponja – mas isso não necessariamente deve converter em novas explosões de assinantes. Enquanto o recém-nomeado co-CEO Ted Sarandos confirma a manutenção de uma cadeia estável de estreias na plataforma, a Netflix também declara que “as taxas de crescimento estão diminuindo conforme os consumidores superam o choque inicial da pandemia e das medidas de distanciamento social”, prevendo para o próximo trimestre a adição de “apenas” 2,5 milhões de novos assinantes.

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