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“Blade Runner 2049” tem atmosfera do original, mas busca questões mais amplas

“Blade Runner 2049” tem atmosfera do original, mas busca questões mais amplas

Com ritmo lento e visual estonteante, Denis Villeneuve marca o retorno ao mundo dos replicantes

por Virgílio Souza

Existem muitas histórias por trás de “Blade Runner”, ficção científica de Ridley Scott que completa 35 anos e acaba de ganhar sua primeira continuação pelas mãos de Denis Villeneuve. As origens no livro de Philip K. Dick, a produção conturbada, os retornos do diretor ao material nas décadas seguintes e a mudança de percepção do público do lançamento aos dias de hoje rendem todo tipo de análise a cada nova menção ao título do filme. O documentário “On The Edge of Blade Runner”, realizado pelo crítico Mark Kermode em 2000, é uma dessas reações preocupadas com todo e qualquer detalhe possível.

O aspecto mais interessante do making of é perceber como o culto ao redor do longa se formou e quais foram as bases para que ele tivesse tanto impacto no gênero e na cultura pop — culminando, tanto tempo depois, em “Blade Runner 2049”. Dentre os fatores que contribuem para essa longevidade está a obsessão de Scott pela própria obra. É verdade que o comando foi passado adiante nessa continuação, mas por décadas o cineasta inglês alimentou o mito ao redor dos replicantes por meio de novos cortes, finais alterados e uma grande disposição para debater o assunto.

Durante o período em que ele esteve debruçado sobre os destinos de Deckard (Harrison Ford) e Rachael (Sean Young), no entanto, nenhum dos produtos mais claramente influenciados pelo filme investiu de maneira tão determinada nesse tipo de ambientação num mundo de androides quanto Villeneuve faz agora. Nesse sentido, quem aguardou anos para passar mais tempo nessa versão distópica de Los Angeles finalmente tem a oportunidade certa, uma vez que a dedicação ao universo estabelecido em 1982 transparece em cada segundo das quase três horas de duração do longa.

Denis Villeneuve no set

No que diz respeito aos reflexos dessa proposta na prática, os resultados variam. Embora não siga à risca os moldes da maior parte das continuações de Hollywood, “BR2049” também é maior e mais inchado que seu antecessor. No roteiro, escrito por Hampton Fancher e Michael Green, os personagens e as subtramas se multiplicam, levando o novo protagonista, o blade runner K (Ryan Gosling), a explorar uma dúzia de cenários diferentes em busca de pistas. A trama de investigação não é necessariamente empolgante, em parte porque os acontecimentos se encadeiam de forma mecânica, por um bom tempo saltando de situação em situação sem provocar grandes surpresas ou mergulhar nas intrigas que cria — a ação só engrena realmente no terço final do filme.

A maneira como os eventos são conduzidos também tem relação com o desenrolar irregular da trama principal. Outra característica do original intensificada na continuação, o ritmo pausado transporta o espectador para aquele mundo sem manual de instruções, numa abordagem que dá enorme valor à ambientação. Contudo, o diretor frequentemente pesa a mão e exagera na lentidão, como se insistisse em recuar nos momentos decisivos a despeito da urgência que certos personagens (como os de Jared Leto e Robin Wright), com seus discursos, e a trilha sonora de Hans Zimmer, com suas entradas grandiosas, impõem à narrativa.

Denis Villeneuve consegue expandir a mitologia da franquia

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Por outro lado, vale notar que Villeneuve é fiel às principais questões de “Blade Runner”, mas acerta ao não se prender demais a elas. Ainda que o recurso a símbolos marcantes da série seja constante (algo natural quando pensamos na iconografia à sua disposição), seu foco é uma história particular, e isso é tão positivo quanto raro. Assim, ele consegue expandir a mitologia da franquia ao mesmo tempo em que trata de interesses temáticos mais amplos.

As dinâmicas do relacionamento entre K e sua companheira, a holograma Joi (Ana de Armas), são inéditas e alteram o olhar da franquia sobre a inteligência artificial. Além disso, a questão da mortalidade, central para a série desde sua concepção, ganha uma nova camada graças a decisões tomadas com relação a esse intervalo de 30 anos na trama — preenchido também por três curtas. Pensando em termos mais básicos, é difícil negar o quanto as vidas das criaturas projetadas pela corporação Wallace (antes chamada de Tyrell) mudaram nesse tempo, ainda que suas origens e destinos programados tenham permanecido os mesmos.

Tudo o que se vê é milimetricamente composto, como num design pensado, testado e aprimorado ao longo de anos

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Visualmente, a sensação é semelhante. O diretor de fotografia Roger Deakins aposta na continuidade, movendo a câmera pelos cenários com a mesma fluidez que Jordan Cronenweth e tomando boa parte das criações de Douglas Trumbull como referência direta. Quando encara espaços até então desconhecidos, no entanto, ele aproveita a oportunidade para compor alguns dos planos mais estonteantes já vistos num blockbuster desse porte. A maneira como contrasta luz e escuridão remete ao efeito provocado pelos holofotes de polícia no original, causando desorientação enquanto informa sobre as condições daqueles personagens em fuga constante.

Ao lançar seu protagonista nas sombras e se recusar a oferecer o mapa até a saída, fazendo com que ele seja obrigado a questionar tudo o que conhece pelo caminho (naquele mundo, nos outros e nele mesmo), Villeneuve encontra o molde perfeito para seu estilo controlado. Tudo o que se vê é milimetricamente composto, como num design pensado, testado e aprimorado ao longo de anos, e isso ajuda a narrar uma história sobre artificialidade, em um mundo em que a vida é tratada como milagre capaz de destruir a humanidade.

O problema é que, justamente quando essas emoções humanas se revelam, a frieza e o distanciamento deixam de ser trunfos e viram obstáculos. A última virada é bem armada, surpreendente e tematicamente complexa, mas capaz também de revelar a principal diferença entre original e continuação: o peso do clímax. Por mais que a construção da atmosfera seja um dos maiores méritos de “Blade Runner”, seu legado certamente não seria o mesmo sem a coreografia do embate final, os símbolos escolhidos para esse trecho e o monólogo de Roy Batty (em parte escrito pelo próprio Rutger Hauer). Por mais que a comparação pareça injusta em função do status já alcançado pelo original, é difícil não sentir que “Blade Runner 2049” passa por inteiro sem deixar marcas nem mesmo parecidas.

nota do crítico

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