Com “Fetch The Bolt Cutters”, Fiona Apple quebra padrões estéticos e sociais em trabalho brilhante

Álbum excêntrico e extravagante reflete grande parte dos debates feministas atuais e perturba o ouvinte de todas as formas

por Soraia Alves

“Me chute por baixo da mesa o quanto você quiser, eu não vou calar a boca”. A frase, que é refrão da faixa “Under the Table“, é também a síntese do novo trabalho de Fiona Apple: a quebra de padrões socialmente aceitos. No caso de Fiona, essa quebra se dá tanto na estética musical de “Fetch The Bolt Cutters”, quanto em suas relações pessoais, inclusive na relação com ela mesma, que se mostra mais resiliente do que nunca.

Entre palmas, sussurros, respirações, latidos dos cães da cantora e mudanças repentinas de cadências, o álbum reflete grande parte dos debates feministas atuais, especialmente um exercício que toda mulher deveria fazer em algum momento: o de olhar para as mulheres que já passaram por sua vida e reconhecer como muitas relações seriam diferentes, caso já tivessem nos ensinado sobre o poder da sororidade.

“Ladies” é uma grande reflexão sobre como a competição feminina joga as mulheres em um ciclo vicioso de comparações e insatisfação, e o quanto isso leva todas a perderem, inclusive, a chance de criar boas relações entre si – “E ainda assim ali está outra mulher a quem não irei superar”, confessa Fiona. Já em “Shameika”, a análise dos tempos nada agradáveis de escola mostra como um único gesto de empatia pode ser relembrado para sempre. Em meio ao bullying enfrentado pela cantora na época, Shameika disse que ela tinha potencial – e são as palavras de uma garota, que nem era sua amiga de fato, que ecoam até hoje na memória de Fiona.

Diferente do último álbum, “The Idler Wheel…”, (2012), calcado na fórmula voz + piano, este quinto disco traz uma banda de apoio com baixo, guitarra e bateria, além de uma infinidade de instrumentos improvisados com objetos domésticos e que aumentam o ar experimental do trabalho. E como toda arte experimental, o resultado não é exatamente fácil de ser ouvido. A estranheza, no entanto, não poderia ter vindo num momento mais adequado.

O caos e a rispidez mesclados à resiliência que compõem o disco refletem bem o que a atual pandemia escancarou no mundo todo, especialmente a hipocrisia e os sentimentos controversos que fazemos questão de esconder dos outros, mas que estão escapando enquanto mais um dia de quarentena entra na conta.

Fiona Apple sempre falou abertamente sobre os abusos sofridos na adolescência, e novamente o estupro é um tema lembrado na dura faixa “For Her”: “Você me estuprou na mesma cama em que sua filha nasceu”, diz a cantora, que ao mesmo tempo é brilhante ao variar os estilos em cada ato e criar um clímax angustiante em toda a canção. As marcas de tudo isso são carregadas para sempre, como ressalta “Heavy Balloon”, música que traz uma delicada analogia à depressão, mas que também fala sobre superação.

Enquanto a sinceridade e a exposição sentimental lembram Joni Mitchell, as brincadeiras com a própria voz e as explorações sonoras resgatam Yoko Ono, que por sinal é uma das figuras femininas mais massacradas pela sociedade patriarcal dentro da cultura pop.

“Fetch The Bolt Cutters” é, definitivamente, um disco que perturba o ouvinte, seja pela quebra de padrões sonoros a todo momento, seja por escancarar a masculinidade tóxica que acaba com vidas femininas todos os dias, ou por mostrar que o feminismo do discurso ainda não é aquele que aplicamos com discrepância. É um trabalho excêntrico, extravagante e essencial para todos, mas que tocará especialmente as mulheres. Muitas, inclusive, verão a si mesmas em Fiona Apple. Empatia, não julgamento, sororidade, ainda que em meio ao caos.

nota do crítico

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