A Ferrari fez um carro elétrico que não parece uma Ferrari. Parece um iPhone sobre rodas. E a empresa sabia exatamente o que estava fazendo.
O Luce foi revelado na segunda, 25, em Roma, no complexo Vela di Calatrava, e é uma coleção de estreias para a marca italiana. Primeiro carro elétrico. Primeiro sedã de quatro portas. Primeiro cinco lugares. E o mais pesado Ferrari já fabricado, com 2.260 kg — irônico pra um modelo cujo nome significa “luz” em italiano. O preço inicial é de €550 mil (R$ 3,2 milhões), o que faz dele o Ferrari mais caro fora da categoria de supercarros.
O design é do estúdio LoveFrom, de Jony Ive e Marc Newson. Ive é o ex-designer-chefe da Apple — o homem por trás do iPhone, do iMac, do MacBook e de praticamente tudo que definiu a estética da empresa por duas décadas. Newson é designer industrial que já tem histórico com automóveis: em 1999, ele criou o Ford 021C, um conceito retrofuturista com formato arredondado.
O resultado é um carro que abandona as linhas agressivas e angulares que definiram a Ferrari por quase 80 anos. No lugar: formas arredondadas, superfícies lisas, uma “casa de vidro” aerodinâmica que parece o Magic Mouse da Apple. Telas internas tem cantos arredondados como iPhone. O display central gira pra apontar pro motorista ou passageiro. E um display mecânico com três motores independentes que funciona como relógio, cronógrafo, bússola ou indicador de launch control. A atenção ao detalhe é obsessiva e inconfundivelmente Ive.
Lembra quando a Apple ia fazer seu próprio carro? O projeto ficou preso em desenvolvimento por anos até Tim Cook cancelar. O Apple Car nunca existiu. Mas Jony Ive, aparentemente, nunca abandonou a ideia. Só mudou o logo no capô. Ao entregar o design do Luce pra LoveFrom, a Ferrari ressuscitou — talvez sem perceber — o sonho do carro da Apple. O Luce poderia ter saído dos corredores de Cupertino sem que ninguém estranhasse.
O que tem embaixo do capô: Passada a polarização estética, os números do Luce são difíceis de ignorar.
Não é o elétrico mais rápido do mercado (o Lucid Sapphire e o novo Mercedes-AMG GT de quatro portas são mais velozes em aceleração pura). Mas a Ferrari nunca competiu exclusivamente por números. Compete por desejo. E o Luce é, antes de qualquer coisa, um objeto de desejo projetado pra um público que a marca nunca teve.
A reação — e a estratégia por trás dela: As ações da Ferrari caíram 5,26% em Nova York e 8,37% na bolsa italiana nesta terça. A reação online foi ainda mais dura. O vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, escreveu no X: “Não parece nada com uma Ferrari. Quem sabe o que Enzo Ferrari diria.” Luca di Montezemolo, que presidiu a marca por mais de 20 anos, foi mais direto: “Corremos o risco de destruir uma lenda.” E sugeriu que removessem o cavalo empinado do carro. Nas redes, os termos mais repetidos foram “insulto à marca” e “terrivelmente decepcionante.”
Mas a Ferrari não foi pega de surpresa. O CEO Benedetto Vigna disse ao Financial Times antes do lançamento que “não estava com medo” da reação. Executivos afirmaram que o Luce não foi feito pra base de fãs tradicional da marca. Pela primeira vez na história da empresa, a Ferrari vai dar prioridade igual a pedidos de clientes novos e tradicionais na fila de encomendas. Scott Sherwood, analista independente de marcas de luxo, leu a estratégia:
“No cálculo da Ferrari, se a maioria dos clientes atuais acha o Luce legal é irrelevante. Se ele foi bem testado com o público de tecnologia o suficiente para preencher a carteira de pedidos, isso é tudo com que eles se preocupam.”
O alvo, segundo analistas, são empreendedores de tecnologia do Vale do Silício. Gente que reconhece a linguagem visual de Jony Ive antes de reconhecer o cavalo empinado. Gente que compraria um Apple Car se ele existisse e agora tem a coisa mais próxima disso.
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