Um longa-metragem inteiramente gerado por inteligência artificial vai estrear na programação oficial do Tribeca Film Festival. Não como evento paralelo, não como curiosidade tecnológica num painel de inovação. Mas sim na programação principal. Com selo de curadoria de um dos festivais de cinema mais importantes do mundo.
“Dreams of Violets” tem 75 minutos, custou US$ 2.000 pra fazer e foi produzido em três meses. Cada imagem, cada pessoa, cada cenário no filme é gerado por IA. Não há atores, não há sets, não há câmeras. A estreia acontece dia 10 de junho no AMC Flat Iron Theatre, em Nova York.
O filme é dos irmãos Ash e Pooya Koosha, iranianos que deixaram o país em 2009. É uma dramatização ficcional baseada em relatos jornalísticos, fotografias e depoimentos de testemunhas sobre o massacre de civis iranianos pelas forças do regime em janeiro de 2026.
As ferramentas usadas na produção:
Os diretores defender que, apesar das ferramentas, o pipeline criativo é humano, incluindo roteiro, a direção de cena, as vozes originais dos personagens (que depois foram alteradas por IA), etc. Ash Koosha explicou ao The Hollywood Reporter:
“Eu teria preferido fazer este filme com uma equipe, com atores, com a dignidade de uma produção completa. Isso não estava disponível pra mim. Sou uma pessoa, no exílio, sem acesso ao Irã, sem acesso às locações, sem acesso às pessoas. A pipeline de IA tornou possível fazer o que de outra forma seria impossível: criar um filme-memorial pra um evento que aconteceu atrás de um muro que não posso cruzar.”
Jane Rosenthal, cofundadora do Tribeca, justificou por que o festival aceitou o filme:
“O que nos moveu não foi apenas a conquista tecnológica, mas a imediatez emocional e a urgência da própria história. Num momento em que inteligência artificial e Irã estão no centro da conversa global, este filme oferece uma perspectiva rara e íntima sobre um conflito que muitos não conseguiram ver ou entender plenamente.”
O precedente que o Tribeca está abrindo: Existe um contexto que torna essa decisão mais significativa do que parece à primeira vista. “Hell Grind”, um filme de demônios de 95 minutos gerado por IA, foi exibido recentemente em Cannes, porém, foi como evento paralelo, não na programação oficial. A diferença entre exibir num side event e entrar na curadoria principal é a diferença entre tolerância e validação.
Os irmãos Koosha fundaram a Fountain 0, empresa de produção de filmes e séries gerados por IA sediada no Reino Unido. O “Dreams of Violets” é o primeiro projeto da empresa, mas a ambição é maior: oferecer a tecnologia como plataforma pra cineastas independentes. Ash Koosha reconheceu o desconforto que isso gera: “Isso vai causar calafrios em muita gente em Hollywood. Mas pra cineastas independentes cuja maior barreira é acesso a dinheiro, a tecnologia resolve a barreira financeira.”
Os irmãos também acrescentaram: “Entendemos as sensibilidades genuínas das pessoas que trabalham na indústria do cinema, e como elas, nos preocupamos com as implicações desconhecidas para o sustento de muitos. Mas a realidade é que este filme nunca teria sido feito se não fosse pelas capacidades de IA que desenvolvemos.”
O Tribeca Film Festival 2026 acontece de 3 a 14 de junho em Nova York.
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