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“Me Chame pelo Seu Nome” é uma ótima história de amor e autodescoberta

“Me Chame pelo Seu Nome” é uma ótima história de amor e autodescoberta

Casal formado por Timothée Chalamet e Armie Hammer protagoniza um dos filmes mais celebrados da temporada

por Virgílio Souza

“Me Chame pelo Seu Nome” conta uma história de amor em algum lugar no norte da Itália durante o verão de 1983. O protagonista é o jovem Elio (Timothée Chalamet), que passa as férias no casarão da família e se apaixona por Oliver (Armie Hammer), um americano que se hospeda ali por algumas semanas para concluir os estudos como assistente de pesquisa de seu pai. O primeiro contato entre eles é rápido: o anfitrião leva o recém-chegado ao segundo andar, onde ficam seus quartos adjacentes, mas o visitante cai no sono profunda e instantaneamente, cansado após a longa viagem. É na manhã seguinte, quando se encontram para o café, que os dois personagens começam a se revelar aos poucos, de gesto em gesto e olhar em olhar.

Nessa interação inicial, duas coisas despertam reações visíveis em Elio. A primeira delas é a estrela de Davi que Oliver carrega num cordão no peito, e que o diretor Luca Guadagnino captura num raro plano-detalhe. Diferente da família Perlman, discreta em suas manifestações religiosas num país de forte tradição católica, o rapaz não faz o menor esforço para esconder o pingente, e sua confiança na própria identidade naturalmente chama a atenção do garoto, alguns anos mais novo. O tema até retorna algumas vezes como alusão a pressões externas que afetam o romance entre eles, mas nunca de forma tão objetiva e com a mesma centralidade que tem no ótimo romance escrito por André Aciman, base para o filme.

No roteiro adaptado pelo veterano James Ivory (de “Uma Janela para o Amor”, “Retorno a Howards End” e “Vestígios do Dia”), as principais preocupações são outras, de natureza interna, e por isso a segunda reação de Elio à mesa é mais importante. Ela aparece depois que Oliver recusa repetir a refeição, dizendo que se conhece bem o suficiente para saber que não consegue se controlar diante das coisas de que gosta. A confissão sobre seus impulsos tem relevância e ganha ecos adiante na trama, mas a chave aqui é esse “se conhecer”, talvez o elemento mais importante na trajetória de amadurecimento do protagonista.

Luca Guadagnino no set

A maneira como Guadagnino filma essas descobertas é um dos grandes trunfos de “Me Chame pelo Seu Nome”. O diretor (de “Um Sonho de Amor” e “Um Mergulho no Passado”) explora os espaços ao redor dos personagens com a mesma curiosidade e interesse que Elio, que convive com o desejo de compartilhá-los com alguém e o receio de se abrir para os outros. Por isso, mesmo quando o contexto é uma tarde preguiçosa à beira da piscina, existe sempre a possibilidade de um convite fazê-lo perder a hora apenas pelo prazer de experimentar algo novo, ou de uma simples interjeição ou um toque no ombro mudarem toda sua percepção sobre o relacionamento com Oliver.

Essa sensação de que as coisas vão se alterando no processo, contrariando as ilusões ou confirmando as expectativas do garoto, tem relação direta com o trabalho da direção. Curiosamente, muito da energia do longa vem da decisão de registrar a maior parte dos momentos com relativa distância. Sem recorrer com frequência a close ups para entrar na cabeça dos personagens ou enfatizar seus avanços, a câmera do cultuado diretor de fotografia Sayombhu Mukdeeprom prefere observar os movimentos de seus corpos e suas particularidades dentro de planos abertos — e aqui falamos de “aberto” em termos de escala e enquadramento, mas também no sentido de que a liberdade nas performances físicas dos atores é parte do jogo de aproximação entre eles.

A maneira como Guadagnino filma as descobertas é um dos grandes trunfos de “Me Chame pelo Seu Nome”

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O filme vai para onde Elio for, e ele está disposto a ir a qualquer lugar a despeito de todas suas dúvidas, porque mesmo os ambientes já familiares, como os fundos da casa ou seu riacho secreto, ganham vida nova quando vistos ao lado de Oliver. Há um mundo inteiro para conhecer e um conhecimento sem fim para dividir, e Guadagnino garante que essa ideia esteja impressa do primeiro ao último plano, da conversa aparentemente mais banal ao encontro privado mais aguardado. Uma marca de generosidade acompanha a obra como um todo, ganhando força nas interações mais diretas entre os personagens, quando eles finalmente se entregam ao que sentem. As conversas com a mãe (Amira Casar) no carro e com o pai (Michael Stuhlbarg) no escritório são bons exemplos disso, assim como o flagra envolvendo o pêssego, que se transforma num abraço acolhedor em vez de um momento apenas de constrangimento.

Uma marca de generosidade acompanha a obra como um todo, ganhando força nas interações mais diretas entre os personagens

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Outro recurso importante empregado para aproximar os personagens (e nos aproximar deles) é a trilha sonora. A seleção inclui temas instrumentais pré-existentes, baladas da época e composições originais. Reunido, esse mosaico conduz o filme sempre para frente, criando uma sensação de fluidez que toma a tela por inteiro quando a primeira das três músicas de Sufjan Stevens começa a tocar. A mescla de sons e imagens, consequência feliz de um acidente com os negativos no laboratório, é uma transição que dá ao filme a aparência de um sonho e que confere ainda mais peso ao choque de realidade do desfecho, quando entra a faixa final, “Visions of Gideon”, e somos deixados somente com as emoções de Elio.

A relação do garoto com a cultura também é central para o longa. Pensando especificamente no aspecto musical, é fácil perceber que ele se mostra mais confortável quando tem o violão e o piano à disposição, usando o domínio que possui sobre os instrumentos para manter o controle de certas cenas. Num encontro com Marzia (Esther Garrel), longe dessa área de conforto, ele recorre ao som do rádio para contornar a ansiedade da situação; já em casa, é sua interpretação de Liszt para uma peça de Bach que fisga a atenção de Oliver e o atrai para perto.

“Você parece saber mais do que qualquer um aqui”, o visitante diz a ele durante um passeio pelo centro da cidade, observado em um plano-sequência ao mesmo tempo discreto e eficiente, que passa por monumentos locais, mas começa e termina focado nos personagens. Elio realmente sabe bastante e quer saber ainda mais, não só sobre literatura, arte ou história, como também sobre “as coisas que realmente importam”, do modo que ele mesmo as define.

O que torna sua busca especial é a escolha de Guadagnino por fazer dela o que move o filme. O cenário e os acontecimentos são partes importantes desse verão para o protagonista, mas ele só deixa tantas marcas graças ao desejo de Elio pela descoberta — uma sensação que a direção transmite através de uma combinação de imagens que vão nos escapando pela forma como parecem lançadas na tela, como fragmentos soltos de uma experiência passada, mas que ainda assim conseguem deixar lembranças inesquecíveis.

nota do crítico

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