Perdido no tom do próprio horror, “A Freira” se rende ao escracho

Novo derivado de “Invocação do Mal” se interessa pelo passado da assustadora criatura, mas colisão com formato da franquia mergulha a personagem em clima de autoparódia

por Pedro Strazza

Embora tenha se tornado o principal destaque de “Invocação do Mal 2”, a criatura que ficou conhecida pelo público como “a freira” originalmente não tinha nada a ver com uma seguidora fiel da religião cristã. Criado pela equipe do longa a princípio com o visual do demônio que surge ao final da história, ela só assumiu os vestes sagrados que aterrorizariam a família Warren (e o público) quando o diretor James Wan percebeu a oportunidade de usar da grande ameaça da sequência para questionar a fé de sua protagonista, cuja crença até aquele momento era tida como inabalável. Como as bilheterias bem indicariam, esta decisão acabou se provando uma adição de última hora certeira, e não demorou muito para o vilão herético ver anunciado um derivado próprio pela Warner Bros. e a New Line Cinema.

É desta forma um tanto desconjuntada que “A Freira” chega então aos cinemas, pronta para consolidar um formato de planejamento que seus estúdios conseguiram alcançar a passos tímidos desde o lançamento do primeiro “Invocação do Mal” em 2013. Como a irmã mais velha “Annabelle” (já em direção à sua terceira incursão solo nas telonas), o longa centrado no demônio conhecido na mitologia da série como Valak surge da mesma aposta em um ícone “coadjuvante” forte para conceber uma história que sustente franquia própria, um exercício de exploração financeira que em teoria dá cabo de todo o contexto ocultista no qual as histórias de Ed e Lorraine Warren fabricam sua mitologia tão atraente aos olhos do público.

Mas se no caso da boneca maldita este exercício se dava por vias diretas do material base – mesmo tendo tudo, incluindo seu visual, alterado para fins artísticos – o filme da freira maldita passa por um desafio mais árduo, de criar um passado “histórico” para um ser completamente originado das mentes criativas e fora de qualquer embasamento “real”. Ao longa comandado por Corin Hardy, este obstáculo já significa do princípio fazer a conexão imediata com o material base à disposição – a produção abre e fecha com referências diretas aos Warren do cinema e à primeira aparição nas telonas da criatura – mas também uma oportunidade mais ou menos promissora de brincar com o imaginário por trás do semblante aterrorizante de sua principal estrela. Na prática, isso significa um retorno às origens, à ideia de conectar de fato o Valak ao “mal mais antigo” ao qual mencionam quando para justificar sua identidade demoníaca.

Neste sentido, a escolha de Hardy para conduzir o projeto é oportuna, pois mesmo novato o diretor inglês foi revelado no cenário graças a um terror que brincava exatamente com estas noções contextuais tão necessárias a “A Freira”. De seu peculiar “A Maldição da Floresta”, o cineasta carrega para o derivado todo um jogo narrativo onde a ambientação revela o horror no subtexto, aos moldes de uma simbologia construída ao longo dos anos pelas fábulas regionais onde a história se aloca e com vocação mais ou menos similar àquela que o sistema de estúdio norte-americano tinha nos anos 30 e 40 para criar filmes de monstro como o Frankenstein ou o Drácula. O que muda de um para o outro é apenas o cenário: ao invés de uma floresta irlandesa amaldiçoada, temos aqui um convento romeno antigo cujo passado esconde segredos de horrores milenares ao qual tanto o espectador quanto os protagonistas – uma noviça (Taissa Farmiga), um padre enviado pelo Vaticano (Demián Bichir) e um menino de entregas local (Jonas Bloquet) – precisam descobrir pelo caminho mais difícil.

O diretor carrega para o derivado todo um jogo narrativo onde a ambientação revela o horror no subtexto

compartilhe

Esta proposta de horror sem dúvida se prova funcional a princípio, especialmente quando nutre da expectativa sobre a entrada da freira seu principal motivo de suspense. Mas embora este exercício de atmosfera brinque bastante com estruturas de terrores anteriores aos anos 50, o filme vai revelando vulnerabilidades cada vez maiores conforme sua história avança. É uma sensação tão parecida – se não idêntica – ao trabalho anterior de Hardy, cuja direção em ambos os casos demonstra as mesmas fragilidades preocupantes conforme as cortinas de fumaça se desvanecem e revelam uma tramoia de perfil até inocente por trás desta narrativa.

O que mergulha “A Freira” em direção ao caos, porém, é que é neste momento de fraqueza o longa também apela em desespero à montanha-russa de terror usada por James Wan nos dois “Invocação do Mal”, repetindo as mesmas dinâmicas de câmera afim de emular a brincadeira de casa mal-assombrada que fez tanto sucesso em seus genitores. Mas se lá estes joguetes e “chicotes” com o plano faziam sentido e aumentavam exponencialmente o clima aterrorizante da trama, no derivado o único resultado possível é o desgaste, ainda mais com esta brincadeira estando tão destituída de propósito dentro do verdadeiro castelo que é o convento abandonado.

O filme vai revelando vulnerabilidades cada vez maiores conforme sua história avança

compartilhe

Esta ausência de conciliação entre narrativas, capaz de destruir quaisquer possibilidade da produção de encontrar um tom, não é um problema carregado apenas por este derivado. No fundo, “A Freira” não deixa de encontrar sintonia com os dois capítulos de “Annabelle” no sentido de se mostrar uma obra esvaziada quando longe do conforto das histórias da família Warren; é um problema que não só se apresenta pela dependência excruciante destas histórias a uma “trama” principal (que a história do Valak termine próxima à família paranormal não é uma surpresa, mas precisava mesmo ressaltar esta ligação?) mas também no vício com as mesmas estruturas narrativas – e ainda que possuam vontades próprias, estes spin-offs parecem ligados de forma quase fraternal a “Invocação do Mal” para buscar qualquer traço de originalidade que os coloque em novo prumo.

Não chega a ser uma grande surpresa, então, que o filme vá aos poucos desembocando em um tom de auto-paródia, ainda mais quando auxiliado por reviravoltas e cenas que chegam ao cúmulo de um personagem responder um “Holy shit!” exclamado por outro com toda uma seriedade involuntariamente cômica. O humor ser tudo que “A Freira” tem a oferecer em seus momentos mais críticos parece ser a prova cabal de que a tal da “fórmula do estúdio” bem ou mal continua a ser um conceito tão obscuro e mágico quanto as relíquias e seres malignos deste universo sombrio.

nota do crítico

Compartilhe: