Ben Affleck se esforça, mas roteiro complica “O Contador”
Apesar do empenho do ator <em>no papel de um matemático autista envolvido com criminosos</em>, novo filme do diretor de “Guerreiro” se perde no excesso de explicações

⚠️ AVISO: Pode conter spoilers
Se por um lado é verdade que a caretice do título levanta algumas suspeitas, por outro uma sinopse mais elaborada e a relação dos profissionais envolvidos sugerem um produto capaz de despertar certo interesse. Christian Wolff (Ben Affleck) não é apenas um sujeito excepcional com os números, mas alguém que combina essas habilidades com um repertório militar impressionante adquirido após anos de treinamento forçado pelo pai (Robert C. Treveiler), o que o credencia a trabalhar para alguns dos principais criminosos do planeta.
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A pressão profissional e a conturbada relação familiar parecem bases suficientes para o diretor Gavin O’Connor, responsável por bons filmes como “Guerreiro” e “Força Policial”, que lidavam com elementos semelhantes. O que se vê em tela, porém, segue uma lógica bastante diferente, e a principal razão para essa mudança se encontra na construção do protagonista. Wolff se define como um autista altamente funcional: ele enfrenta dificuldades de socialização e se torna obcecado pelas atividade em que se envolve, sempre determinado a terminar o que iniciou.


Considerando a centralidade dada pela trama a sua condição, é preciso entender como o longa a enquadra. Nesse sentido, há uma tentativa clara de transportar esse rigor de raciocínio para a forma como a câmera opera. Planos simétricos se enfileiram em dezenas, ora centralizando o rapaz (e sua versão infantil, interpretada por Seth Lee) para demonstrar seu caráter metódico, ora atirando-o para os cantos do quadro para transmitir seu isolamento.
A estratégia mostra certa engenhosidade no princípio, a despeito de algumas decisões constrangedoras, como a inclusão de uma montagem acelerada (e nem por isso menos entediante) em que o sujeito faz a contabilidade de uma empresa. Quando os flashbacks passam a se acumular, porém, a sensação é que “O Contador” se desdobra menos como um estudo de personagem e mais como a história de origem de um herói de ação. É aqui que os problemas aparecem.
No roteiro de Bill Dubuque (“O Juiz”), há uma linha central clara, que acompanha a fuga de Wolff da investigação promovida por Ray (J.K. Simmons) e que envolve seu período atuando na empresa de Lamar (John Lithgow). No entanto, O’Connor insiste em voltar sua atenção para uma série de outros eventos que sempre surgem para justificar o comportamento estilo Jason Bourne/Batman sem capa do protagonista em vez de acrescentar dados à sua personalidade.
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[quotedireita]“O Contador” se desdobra menos como um estudo de personagem e mais como a história de origem de um herói de ação[/quotedireita]
De um lado, a infância ao lado do irmão, o bullying no colégio, a interação com uma garotinha, o aprendizado com um mestre oriental, a amizade cultivada na prisão; do outro, o relacionamento com Dana (Anna Kendrick), o passado dos investigadores, o passado do vilão. Para um filme que busca a objetividade, todos essas retornos ao passado e desvios de foco no presente, tentando explicar tudo o tempo todo, parecem fora de lugar — são como peças demais para um só quebra-cabeças. Assim, o exercício de conhecer o protagonista se torna menos instigante rapidamente. Com o tempo, a lógica visual também se esgota, e o que antes aparecia como diferencial logo se revela apenas um recurso entediante.
Affleck até consegue se esquivar dos clichês que costumam acompanhar esse tipo de interpretação, embora o filme faça o possível para sabotar a performance e se focar apenas em seus maneirismos. Existe certa simpatia no esforço do ator, em contraste com a seriedade da direção. Inicialmente, as aparições de Kendrick também funcionam dessa maneira, aliviando o peso da trama, mas logo a colega de escritório se transforma em apenas um acessório para que Wolff finalmente se conecte com alguém de igual para igual.
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[quoteesquerda]As viradas no roteiro são previsíveis e carentes da pulsão de produções anteriores de Gavin O’Connor[/quoteesquerda]
Quando consegue apresentar um conjunto razoável de informações sobre o que levou o contador à situação em que ele se encontra, O’Connor decide encaminhar o restante da trama como um típico produto do gênero, concentrando tiroteios e perseguições no ato final. A ação é retratada com a mesma racionalidade que a missão é cumprida: inimigos ficam pelo caminho e corpos se somam sem a menor cerimônia. Apesar de não impressionar tanto quanto, digamos, os filmes de Jaume Collet-Serra com Liam Neeson, esse é o segmento mais forte em termos de execução.
Os instantes decisivos do filme, no entanto, guardam suas maiores complicações. Como se compartilhasse da obsessão por concluir aquilo que começou, o diretor opta por encontrar um desfecho preciso para cada um dos mergulhos em sua personalidade. Envoltas em um ambiente extremamente controlado, as viradas no roteiro são previsíveis e carentes da pulsão de produções anteriores do cineasta. Assim, após passar quase duas horas interpretando de modo bastante direto as relações entre passado e presente do protagonista, “O Contador” propõe uma série de revelações que cumpre somente a função de não deixar absolutamente nada em aberto — um feito que só seria relevante e digno de nota para o próprio Wolff.

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