
Durante décadas, fomos treinados a perseguir especialização. Escolhia-se uma profissão, uma trajetória, um setor, uma identidade profissional. As carreiras eram relativamente lineares, os conhecimentos permaneciam relevantes por muitos anos e a estabilidade era tratada como um atributo desejável. Havia conforto em ocupar uma caixa bem definida.
A sensação que eu tenho, dentro da indústria criativa, é que todo mundo pensa que o jogo é de soma zero: para uma coisa nascer, outra precisa morrer. A internet ia matar a TV. O mobile ia matar a internet. A IA vai matar a criatividade. Por que a gente precisa tanto de um bicho-papão?
Eu tenho um palpite: penso que nossa indústria cai repetidamente na armadilha de confundir missão (razão de existir, propósito) com motor de monetização. Por exemplo: a TV como a conhecemos é um combo de produção de conteúdo com espaço de veiculação. E aí vem o meu ponto: se a atividade "core" das emissoras é a produção de conteúdo, elas podem continuar fazendo isso na internet, no mobile, no streaming. Desde que se preparem para tal.

Além disso, várias transformações simultâneas começaram a tensionar esse modelo. Estamos vivendo mais. As carreiras podem facilmente ultrapassar sete décadas. As habilidades técnicas se tornam obsoletas em pouco tempo. A inteligência artificial passa a executar com competência crescente tudo aquilo que sabemos ensinar. E os negócios, cada vez mais, são construídos na intersecção entre diferentes disciplinas.
Nesse cenário, uma pergunta tem martelado cada vez mais a minha cabeça: e se tivermos sido treinados para um mundo que já não existe mais? Afinal, a suposta oposição entre tecnologia e humanidade, entre carreira corporativa e empreendedorismo, entre marcas e autenticidade começa a perder força à medida que a complexidade do mundo aumenta. Será que não deveríamos começar a construir a era do “E”?
Uma era em que uma pessoa pode construir uma carreira em portfólio, ocupar diferentes papéis simultaneamente e usar repertórios diversos para alimentar uma mesma trajetória. Uma era em que um indivíduo continua a exercer julgamento, a pensar estrategicamente e a usar a tecnologia para amplificar sua capacidade e capilaridade de execução. Uma era em que pessoas, como Oprah Winfrey, entendem que sua marca pessoal não é somente um ativo comercial, e sim um catalisador para o seu legado.
Curiosamente, quanto mais camadas nosso universo ganha, menos úteis parecem as respostas simplistas. Mesmo em tempos de tanta polarização. Cecília Meireles certamente não tinha a inteligência artificial em mente quando escreveu seu livro. Mas gosto de imaginar que, se estivesse escrevendo para as crianças de hoje, ela as convidaria para escolher isto E aquilo.


