“Toy Story 4” talvez não esteja pronto para encarar as próprias questões

Segunda conclusão da franquia busca criar a despedida ideal a Woody, Buzz e seus amigos, mas não é capaz de dar vazão às crises emocionais que se propõe a realizar

por Pedro Strazza

“Toy Story 4” é um filme que começa e termina envolto em despedidas, um movimento que embora previsível em todas as frentes ainda não deixa de ser um tanto inusitado em sua frontalidade. Por mais que o longa pertença a uma franquia que desde o início trate da passagem do tempo e pelo menos desde o seu antecessor (o tão alardeado, celebrado e premiado “Toy Story 3”) já assinale para a conclusão de ciclo entre seus personagens – na passagem de bastão de Andy a Bonnie – sua abordagem para os protagonistas parece escapar das noções elementares da premissa de “brinquedos ganham vida” para efetivamente assumir os mesmos como criaturas humanizadas já desde o início, deixando de encarar sua existência como itens antropomorfizados para vê-los como seres vivos de fato.

É uma mudança de tom sutil e que pode passar batida de início, mas se faz vital para entender qual o direcionamento exato que a animação de Josh Cooley tem com este fim que a Pixar parece por enquanto dar às histórias de Woody (Tom Hanks), Buzz Lightyear (Tim Allen), Jessie (Joan Cusack) e todos os outros brinquedos que o público vem acompanhando desde os primeiros anos do estúdio nos anos 90. Enquanto os outros três “Toy Story” compreendiam as aventuras destes personagens como imersas no arco maior de crescimento de Andy e, portanto, sujeitas às mudanças naturais dos primeiros anos de vida do dono, esta quarta aventura já se mostra deslocada desta estruturação no intuito de dar um passo para trás e encarar todo este processo com o único questionamento pertinente possível: este ciclo é mesmo interminável?

É um tema que de novo há de ser respondido por Woody, é claro, que mais uma vez assume o protagonismo do debate em suas ações. Sua posição, afinal, é a mais ameaçada dentro deste cenário conforme ele enfrenta os primeiros sinais de abandono de seu novo dono, o qual começa a deixá-lo de lado nas brincadeiras diárias em favor de outros brinquedos. O problema é que desta vez a situação não se dá por fatores externos, como um brinquedo novo ou o fato da criança ter crescido, mas do fato de que ele, Woody, é quem está envelhecendo.

A partir deste ponto, a nova lógica do roteiro do veterano do estúdio Andrew Stanton e da novata Stephany Folsom (escrito à partir de uma história concebida por uma verdadeira galeria de pessoas, do recém-enxotado e ex-presidente da companhia John Lasseter a nomes como Rashida Jones e o próprio Cooley) começa a se impor de forma mais evidente na narrativa, até porque esta condição de tempo no filme se dá de um jeito muito diferente da vista nos outros três. Pode parecer incrível, mas sob certo ângulo o drama da vez do cowboy de pano não deixa de ser o mesmo enfrentado por Wheezy no segundo capítulo, se portando como outro dilema existencial sobre o fim de sua função e o vazio que se anuncia à partir deste abandono – a única diferença, em teoria, é que ao invés de uma estante superior, Woody é deixado para trás dentro do armário onde Bonnie guarda seus brinquedos.

A questão é que Woody, ao contrário do simpático e empoeirado pinguim de borracha visto no começo dos anos 2000, é desta vez menos o brinquedo de uma criança e mais um personagem central de um franquia de quase 25 anos de vida, o que justifica o desenrolar de seu drama como uma semi-crise de meia-idade. É inclusive a partir deste epicentro que a narrativa passa a funcionar como mais um mosaico de agonias e traumas, materializado não apenas no Garfinho (Tony Hale), cujo desespero existencial serve de gatilho aos eventos da história, mas principalmente no parque de diversões onde grande parte da ação acontece. De Duke Caboom (Keanu Reeves) e sua tragédia de vida de não atender os anseios do dono à vilã Gabby Gabby (Christina Hendricks) que mora num antiquário buscando a atenção da neta da proprietária da loja, novos brinquedos são introduzidos para atender os caminhos da decisão final a ser tomada pelo protagonista, uma que passa pela necessidade de se desprender da missão do ofício para se compreender enquanto indivíduo.

A narrativa funciona como mosaico de agonias e traumas, materializado não apenas no Garfinho mas no parque de diversões

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Em tese, esta premissa traz um leque de temas dos mais ambiciosos para dentro de uma franquia que até então se encenava dentro de limites bem denotados e construídos. A inclusão de uma crise na função de Woody não apenas desperta o contraste da experiência até então privilegiada de todos os personagens com a dura realidade descartável de sua classe, mas coloca o próprio caráter cíclico da série em cheque: aceitar que sua importância será renovada a cada novo dono soa como uma ideia tola se considerar que os brinquedos estão envelhecendo continuamente. O retorno de Betty (Annie Potts) parece acontecer justamente para denotar a hipocrisia deste raciocínio, com seu destino pós-doação sendo revelado como trágico e ela preferindo a vida “esquecida” à prisão representada no antiquário.

Mas embora Cooley reconheça esta tendência da trama e busque escancará-la em alguns momentos pontuais – como na montagem posterior aos créditos – o filme no fundo parece abraçar estes tópicos apenas para encontrar um ponto de escape à lógica do fechamento anterior da franquia e criar ele mesmo um novo desfecho para a saga, um que atenda da maneira mais agridoce possível o enlaço emocional do público com aqueles personagens desenvolvido ao longo dos anos.

E se é para ser mais exato, é do fim de um personagem que a produção se concentra: enquanto Woody aqui recebe um grande ponto final em sua trajetória, todos os outros companheiros de “estrada” são relegados a posições secundárias ou até mesmo terciárias, ocupando o fundo de cena ou servindo como meros alívios cômicos. Coitado de Buzz, que começou a franquia na posição de protagonista e termina aqui como um líder paspalhão, preso na piada da “voz interior” e numa trajetória cuja função é apenas unir pontos do roteiro.

O filme parece abraçar temas apenas para encontrar um ponto de escape à lógica do fechamento anterior

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A partir daí, “Toy Story 4” começa a percorrer uma espiral emocional um tanto artificial, numa conclusão que além de reincidente em temas (por conta da repetição de ritual do terceiro capítulo, mesmo em condições diferentes) soa um tanto atenuada e confortável demais para aquilo que a narrativa se propunha a navegar sobre. O terceiro ato é quem mais sofre com esta contenção, apelando para resoluções que buscam o melhor caminho para todos os envolvidos (incluindo de Gabby Gabby, cujo arco termina anulando as próprias urgências da trama) e reiterando de maneira mais descerebrada toda o raciocínio da importância do brinquedo para a criança.

As passagens de bastão ocasionais, enquanto isso, não poderiam estar mais esvaziadas de significado. Se a dissolução da amizade entre Woody e Buzz é feita de forma quase burocrática, a “transição” de liderança a Jessie é um aceno ao empoderamento feminino tão desalmado quanto sua participação na aventura, estando até mesmo fora de sintonia com a proposta do longa – ela, afinal, possui quase a mesma idade de Woody, e em teoria estaria sujeita à mesma crise de idade. Até mesmo o Garfinho se prova limitado, atuando de início como centro das atenções para depois ser restrito à função de macguffin do roteiro, vendo seus dilemas de Frankenstein serem abreviados para se tornar um alívio cômico a ser alternado com os (ótimos) Patinho e Coelhinho da dupla Keegan-Michael Key e Jordan Peele.

Esta ruptura entre a premissa expansiva e a experiência hermética não chega a comprometer o todo – até porque ainda estamos no campo da animação infantil, onde o final feliz é apenas um ponto natural a ser alcançado – mas é o principal responsável por uma sensação de frustração que rapidamente vai se acumulando nas bordas deste encerramento a princípio forte e determinado nas medidas drásticas, mas despido da potência sugerida por seus atos. Vale aí retomar a noção da transformação dos protagonistas de brinquedos antropomorfizados em personagens humanizados e o que é talvez o principal fator neste desfecho um tanto frio do filme: retirados do contexto de suas narrativas e armados apenas do amor dos fãs, Woody e seus amigos não parecem ter muito a oferecer além de um “tchau” e o desejo de boa sorte momentâneo num fim que nem parece ser tão fim assim.

nota do crítico

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