“Bacurau” ressalta poder de luta do berço cultural brasileiro

Filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles mescla diferentes gêneros para apontar o Brasil de um futuro não muito distante

por Matheus Fiore

AVISO: Este texto contém SPOILERS do filme.

Os filmes de Kleber Mendonça Filho sempre conversam bastante com o contexto político do momento. Em “O Som ao Redor”, o cineasta pernambucano estuda as características típicas da classe média brasileira e, de certa forma, como essa sociedade aos poucos deixa sua essência ser substituída por um sentimento que mescla ódio irracional, empáfia e apatia. Isso é, inclusive, sugerido imageticamente, como no belíssimo plano no qual uma personagem utiliza o aspirador de pó para sugar a fumaça de seu cigarro, fazendo parecer que tem sua alma puxada pelo aparelho. Já em “Aquarius”, Kleber parece apontar para um novo nível desse processo de do país, pondo Sonia Braga no centro do conflito entre prédios tradicionais da Praia da Boa Viagem com construções modernas de grandes empreiteiras.

Em “Bacurau”, Kleber trabalha ao lado de Juliano Dornelles e leva esse estudo da sociedade e da cultura brasileira a um novo degrau. A cidade fictícia que dá nome ao filme fica, não por acaso, no oeste de Pernambuco, e mais parece um pequeno vilarejo. O oeste é não só uma escolha geográfica, mas uma síntese da proposta de construção de mundo de Kleber e Juliano, que fazem do filme um verdadeiro faroeste, apesar de nunca limitar o filme a somente esse gênero. O longa passeia pela ficção-científica e pelo terror “carpenteriano” com o mesmo entusiasmo.

Juliano Dornelles (ao centro) e Kleber Mendonça Filho (à direita) no set do filme

Na trama, um grupo de americanos liderados por um alemão e orientados por dois brasileiros chega a Bacurau para exterminar a população local. Haverá, obviamente, um conflito, e é nesse embate que entram todas as ideias trabalhadas ao longo da narrativa. “Bacurau” retrata uma sociedade que resiste diante de uma tentativa de apagamento, que, na obra, é literal, a ponto de a cidade ser removida de mapas digitais antes de um ataque. O apagamento, porém, não é só geográfico, é também cultural, e, justamente por isso, ambientes como uma escola e um museu se tornam, ao longo do filme, os principais pontos de proteção da população quando atacada.

“Bacurau” inicia-se de maneira bastante aberta e contemplativa, sem deixar pistas diretas de quais rumos temáticos irá tomar, mesmo que seja, no cenário do Brasil atual, impossível não imaginar uma obra política vinda de Kleber Mendonça Filho. Há ali espaço para discutir o entreguismo inerente a uma certa classe política que sonha em dar aos Estados Unidos os bens brasileiros, bem como podem falar sobre desarmamento, o choque entre tradições históricas e invasão cultural… Mas a ideia-base, que amarra todas as críticas e análises feitas por Kleber e Juliano, parece ser a tradição de combatividade do povo do nordeste, o berço cultural do Brasil.

“Bacurau” retrata um apagamento que não é só geográfico, mas cultural

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Se, ao adentrarmos no museu de Bacurau, a câmera procura sempre por imagens de personagens históricos pegando em armas, é porque os diretores querem nos mostrar como ali há um foco pronto para combater quem tenta destruir sua cultura. Quando há, por exemplo, pedido pela conservação de uma mancha de sangue na parede é, portanto, uma forma de registro da continuidade dessa história, um registro de como aquela sociedade não é essencialmente violenta, mas sabe ser quando precisa e jamais se envergonhará disso. É uma comunidade que conhece os limites da civilidade e sabe que a violência também faz parte do processo histórico de formação e transformação de sociedades.

É interessante pensar, também, que o fato de só vermos a cidade de Bacurau ao longo do filme serve para criar a impressão de que todo o país se foi. Não por acaso, o plano de abertura de “Bacurau”, uma bela referência a “O Enigma de Outro Mundo”, de Carpenter, começa do espaço e nos mostra uma América do Sul diferente, apenas com os países vizinhos iluminados, enquanto o Brasil parece apenas um grande deserto. É, deliberadamente, uma construção de mundo que remete a “Mad Max”. Se “O Som Ao Redor” fala sobre o Brasil de hoje, “Bacurau” parece tentar apontar o que a sociedade de hoje está construindo para o amanhã. Uma sociedade que concentra sua riqueza a poucos – o prefeito parece viver em um mundo paralelo ao da população –, que ficam com as “migalhas” e vivem bem como podem com elas, mas sempre cientes e a espera de uma oportunidade para reagir.

O Brasil de “Bacurau” é um Brasil abandonado, uma espécie de nação que tenta sobreviver a um tipo de apocalipse capitalista. Resta apenas a morte, que cerca a cidade desde a primeira vez que nela chegamos – os caixões deixados pelo caminho e que são atropelados pelo caminhão da protagonista, por exemplo. A cidade é, portanto, não um lugar esquecido e abandonado, mas é também um foco de resistência, uma “base” onde os que resistem a esse novo e macabro mundo descansam e se preparam, não só para sobreviver, mas para honrar suas tradições e lutar.

Os diretores parecem estar engajados em criar uma arte mais direta, que crie um diálogo mais claro com seu espectador

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Há, em um ponto de “Bacurau”, um problema oriundo da simplificação dramática que Dornelles e Kleber fazem. Como dito alguns parágrafos acima, o longa-metragem abre cheio de possibilidades temáticas, e aos poucos vai afunilando seus temas até restar uma grande ideia central. O problema é que mesmo essa ideia é trabalhada de forma um tanto quanto óbvia. Essa exposição, de certa forma, já existia nos filmes de Kleber, mas surgia mais por acontecimentos que subvertiam expectativas, e não por diálogos mastigados. A escolha, porém, parece ser consciente. A dupla que escreve e dirige “Barucau” parece estar engajada em criar uma arte mais direta, que crie um diálogo mais claro com seu espectador e fuja de intelectualizações mais rebuscadas.

Em “Bacurau”, Kleber e Dornelles removem a máscara de falsa civilidade e retratam um mundo onde as ações são mais instintivas e diretas. Não só os vilões, mas também os heróis reagem com naturalidade diante da violência. A violência é – e sempre foi – uma marca da formação mitológica do Brasil, um país formado em cima da miscigenação e que tem, tristemente, o racismo como sua grande mancha histórica. Aceitando essa violência inerente à formação do país, a obra a normatiza sem a romantizar, a apresenta como uma ferramenta necessária diante de um cenário no qual o sistema sempre trabalha para subjugar seu povo. Que bom que, pelo menos em “Bacurau”, esse povo não aceita essa subjugação.

Dizer que a produção é um filme de resistência se tornou algo comum entre os primeiros espectadores a conferirem o longa nas muitas sessões de pré-estreia que aconteceram pelo Brasil. Apesar disso, não é errado definir assim o filme vencedor do prêmio do júri de Cannes. “Bacurau” vai na região que é a gênese cultural do Brasil para mostrar que, diante de tempos de apagamento, de opressão e de sufocamento, a única saída é manter-se de pé e combater.

O fato de Kleber e Dornelles, em uma obra com temáticas tão diversas e complexas, ainda conseguirem apresentar uma variação estética que consiga mesclar faroeste, terror e ficção-científica, de forma que todos os gêneros tenham algo a acrescentar às ideias do texto, é de se elogiar. Em “Bacurau”, a ficção-científica é um facilitador para chegarmos ao Brasil faroeste abandonado retratado, e a sanguinolência brutal do terror é a única resposta possível diante dessa tentativa de apagamento histórico. Em vez de nos dar variações estéticas e de gênero que tornem o filme intelectualmente mais complexo, os diretores utilizam os gêneros justamente para tornar o diálogo mais direto, como tem que ser. Mais do que um filme preocupado em falar da política atual, “Bacurau” está aí para nos lembrar da necessidade de agir diante do inaceitável.

nota do crítico

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