"7 Prisioneiros" trata história de escravidão em tempos modernos com foco sistêmico
Imagem: Aline Arruda/Netflix

“7 Prisioneiros” trata história de escravidão em tempos modernos com foco sistêmico

Rodrigo Santoro, Christian Malheiros e o diretor Alexandre Moratto explicam como filme da Netflix revela estrutura trabalhista cruel que afeta populações mais vulneráveis nas grandes metrópoles

por Pedro Strazza

Mateus é um jovem de 18 anos que vive com a família no interior de São Paulo, mas as condições precárias e a busca por melhores condições de vida para sua mãe o levam a aceitar um trabalho na capital. Tudo parece promissor e o dinheiro suficiente para bancar sua vida na cidade e enviar dinheiro para casa, mas quando chega no local ele se descobre refém de um sistema análogo à escravidão: sob o comando de Luca, ele é preso no trabalho por uma dívida imensa que precisa pagar em caráter imediato, com o próprio suor do destrinche de materiais descartados pela população.

Esta premissa instigante é a base de “7 Prisioneiros”, segundo longa-metragem do diretor Alexandre Moratto que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (4) antes do lançamento na Netflix no próximo dia 11 de novembro. A presença de Rodrigo Santoro e Christian Malheiros – conhecido por muitos por seu papel em “Sintonia” – no elenco em si já seria chamariz suficiente para destacar o filme de outras estreias do circuito e da própria Netflix, mas são os bastidores que certamente criam atenção maior sobre o projeto: além de Moratto, recém-emerso no cenário pelo pequeno mas muito celebrado “Sócrates”, o longa conta na produção com Fernando Meirelles e Ramin Bahrani, diretor de “O Tigre Branco” que bombou no streaming e chegou ao Oscar no começo do ano. Por todos esses motivos, há quem argumente aqui e lá fora que a produção tenha chances de indicação no prêmio da Academia, mesmo depois de não conseguir a posição de representante nacional na corrida da estatueta de filme internacional.

Todo esse falatório não deixa de ser uma forma de promover o filme ao público, porém, o que é um passo importante quando o interesse maior do projeto é mesmo explorar o cenário de alta vulnerabilidade que acomete Mateus e outros jovens vítimas do sequestro. Como em “Sócrates”, “7 Prisioneiros” nasceu do interesse de Moratto em contar histórias da população mais vulnerável do país de maneira realista, sem grandes articulações poéticas que acometem produções do tipo.

“Pra mim é muito importante que meu trabalho retrate algo pessoal e autêntico” diz o diretor durante conversa com o B9 e outros veículos de imprensa para divulgar o filme; “Eu trabalhei durante vários anos em comunidades de baixa renda e as pessoas com quem eu convivi viraram meus amigos e meus colegas, então me é muito importante retratar histórias que vendem uma perspectiva de pessoas de baixa renda de uma forma autêntica”. Moratto comenta ainda que o trabalho com a co-roteirista Thayná Mantesso foi primordial para esse fim: “A gente conversou bastante durante o processo do desenvolvimento de como humanizar os personagens, de como fazer o filme realmente partir da perspectiva dos trabalhadores”.

Crédito: Aline Arruda/Netflix

Enquanto o cineasta confirma que a origem do projeto aconteceu durante a pós-produção de seu filme anterior, quando ele se deparou com uma reportagem na TV sobre tráfego humano em São Paulo, esta busca por autenticidade chamou muito a atenção de todos os agora envolvidos. Isso inclui o próprio Meirelles, que já havia conhecido Moratto justamente durante a finalização de “Sócrates”, feita na O2 Filmes que gerencia.

“O Alex contratou a O2 para a pós-produção, e aí não sei como foi exatamente o contato mas a distribuidora que temos acertou um contrato com ele pro filme, e na hora que isso rolou o nosso cara me mandou um link do filme” explica Meirelles, que reconta como na época ficou impressionado com o longa e seu histórico – antes de ser indicado ao Spirit Awards, “Sócrates” foi feito com um orçamento de cinquenta mil reais e “na raça”, nas palavras do produtor.

Ainda que ele diga de novo e de novo na conversa que o roteiro “chegou pronto” e que Bahrani teve maior envolvimento no desenvolvimento, Moratto comenta que a participação de Meirelles foi fundamental para os caminhos de “7 Prisioneiros”. “Ele nos deu vários tratamentos e feedbacks, foi um processo longo para construir o roteiro” afirma o diretor, que chega a verbalizar que até a gravação do final o filme foi sendo definido: “O fim foi algo que a gente decidiu no dia, no set, é uma coisa que estava viva até o último momento”.

Mas em termos de evolução, a maior testemunha do diretor sem dúvida é Malheiros, que serviu de protagonista de seus dois filmes e define o crescimento de escala de “Sócrates” para “7 Prisioneiros” como um “amadurecimento”. “O tempo só melhorou minha relação com Alex. Quando a gente fez ‘Sócrates’, era meu primeiro longa e era o primeiro longa dele também, tinham muitas coisas ali que era eu e ele entrando no cinema” relembra o ator; “Quando a gente voltou [para ‘7 Prisioneiros’] eu até fiquei pensando em como seria essa nova parceria, a gente é muito amigo, mas como seria trabalhar no set de novo? Mas depois do primeiro dia de filmagem eu fiquei aliviado, a gente ainda tinha a mesma sintonia e escuta um do outro, só que ao mesmo tempo mais maduro, eu conseguia entender melhor o que ele queria e ele conseguia ver melhor o que eu propunha”.

Além da escala, uma diferença importante entre “Sócrates” e “7 Prisioneiros” é também a narrativa mais complexa que evolui a partir da relação entre protagonista e antagonista. Enquanto Mateus começa a história prisioneiro de Luca, o filme aos poucos desenvolve uma estranha conexão entre ambos, que surge como um ato de corrupção do primeiro pelo último mas também da constatação sistêmica que engloba o ferro-velho o qual serve de cenário à história.

Todo esse desdobramento é encarado por Santoro como a tarefa mais difícil de sua atuação como gerente da operação criminosa. “O trabalho foi da gente tentar humanizar o máximo possível, mas especialmente com o Luca sendo o vilão a minha primeira preocupação foi conversar com o Alex sobre como a gente humaniza esse personagem sem tentar redimi-lo”, declara o ator; “No fundo, ele não deixa de ser um produto desse abismo social e de uma sociedade que exclui, mas ao mesmo tempo ele tem muita consciência das coisas terríveis que faz e não pede desculpa por aquilo, ele tem seu próprio discurso interno em relação a tudo que viveu”.

Para Malheiros, traduzir essa aproximação dos personagens também foi o exercício maior do longa. “Essa coisa do Mateus assimilar alguns comportamentos e ações do Luca vem juntamente desse senso que ele tem de sobrevivência” afirma; “Dentro da situação em que ele está colocado, ele está rendido a todo mundo que ele gosta, da família. A partir daí, ele vai entendendo algumas coisas que ele precisa fazer, e isso nada mais é do que um reflexo de onde veio, de um lugar onde não há oportunidade ou possibilidade, uma realidade muito, muito pobre”. A questão social, aos olhos dele e de toda a produção, é o ponto mais importante de todos os caminhos do filme.

Compartilhe:
icone de linkCopiar link